Capítulo 2
A Luna e seu companheiro Alfa baixaram a cabeça em uníssono, em sinal de desculpas. Nenhum lobo em sã consciência desafiaria um Lycan, muito menos o Rei dos Lycans.
O Rei voltou a encarar a companheira; seus olhos suavizaram um pouco ao ver como ela parecia delicada e bonita. Por que ela queria se afastar dele?
Ele perguntou num tom assassino:
— Quem foi que te disse essas coisas?
Os olhos de Lucianne se arregalaram de repente.
— Ah, não, Vossa Alteza. Não foi isso que eu quis dizer. É só que... foi o que meus companheiros anteriores me disseram antes ou depois de me rejeitarem, então eu só estava te dando uma ideia do que eu estava falando.
— Companheiros ANTERIORES?
Só de ouvir a palavra, ele sentiu um ciúme e uma raiva incontroláveis. Era ele quem devia ser o companheiro dela, e não qualquer outra pessoa.
Os olhos enfurecidos dele se cravaram nos dela, imperturbáveis, enquanto perguntava num tom perigosamente baixo:
— Esquece isso por enquanto. Você quer me rejeitar?
Ela levou um momento para pensar. Ninguém nunca tinha feito essa pergunta a ela.
— Essa é uma pergunta muito difícil de responder, Vossa Alteza. Eu nem conheço o senhor. Eu admito que existe o vínculo de companheiros por enquanto, e eu reconheço que sinto as faíscas, mas se eu quero a rejeição... hm, sinceramente, eu não sei. Mas, de novo, o que eu queria nunca importou muito. Meus companheiros anteriores praticamente decidiram isso por mim. Isso, ou eles facilitaram a minha decisão. Eu prefiro uma rejeição mais cedo, quando ainda não existem memórias, porque doeria bem menos. Isso faz sentido, Vossa Alteza?
Xandar respondeu com firmeza:
— Não. E pare de me chamar de “Vossa Alteza”. Você é minha companheira e eu sou seu companheiro. O vínculo de companheiros existe agora e para sempre. As faíscas vão ficar mais fortes. E nenhum de nós vai rejeitar o outro.
Havia fúria na voz dele, mas também desespero. Desespero para não perder a companheira quando tinha acabado de encontrá-la. Desespero para que ela o aceitasse e ficasse com ele para sempre.
Ela assentiu uma vez, a contragosto, e mordeu o lábio inferior enquanto mergulhava nos próprios pensamentos.
Ele suspirou. Seus olhos voltavam a ganhar o tom lilás quando seus dedos alcançaram o queixo dela e o ergueram com gentileza, até os olhares se encontrarem.
— No que você está pensando, Lucianne? — A voz dele já não carregava raiva, apenas doçura e culpa.
Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, mas a fechou depois de repensar. Sorrindo de leve, balançou a cabeça um pouco antes de dizer:
— Eu só estava pensando na cerimônia de amanhã. Só isso.
— Lucianne... — desta vez ele levou a mão à bochecha dela. — Desculpa por ter gritado com você. Mas não minta pra mim, por favor. Me diz. No que você estava pensando?
Os olhos dela perderam o brilho quando ela olhou para o chão, e Xandar sentiu o coração se apertar com aquela expressão triste. Ela se recompôs e murmurou:
— Eu não entendo por que você não quer me rejeitar.
— Porque você é minha companheira! — ele sussurrou num grito, como se isso ajudasse.
Num salão cheio de Lycans e lobisomens conhecidos pela audição afiada, era óbvio que todos ouviram o Rei.
— Tá bom. — ela disse, mansinha, forçando um sorriso.
Ninguém precisava dizer a ele que ela não estava convencida do que ele sentia por ela. Mas por que ela duvidaria? O vínculo de companheiros deveria, automaticamente, significar amor e compromisso. Por que ela não acreditava nele?
De repente, a mão dele pareceu ganhar vontade própria e começou a percorrer o braço direito dela, tentando acalmá-la e afastar suas dúvidas.
Quando sentiu a irregularidade na pele, não perdeu tempo: deu um passo para o lado dela para examinar a causa.
Havia uma cicatriz de cerca de doze centímetros. Ferimentos e machucados podiam sarar, mas, em alguns ataques brutais e acidentes, uma cicatriz permanecia.
Os olhos do Rei escureceram de novo, e ele rosnou tão alto que os lobisomens ao redor deram um passo para trás, mantendo a cabeça baixa.
— O quê? O que foi? — Lucianne perguntou, frenética, igualmente alarmada.
Ela apalpou a cicatriz no braço com a mão esquerda, mas não entendeu qual era o problema; então olhou para o Rei, confusa, enquanto os olhos de ônix dele continuavam grudados ali.
Ele afastou a mão esquerda dela com delicadeza e começou a contornar a cicatriz com os dedos. Lucianne lutou contra as faíscas prazerosas que explodiam naquela região. Com os olhos ainda fixos ali, ele perguntou num tom baixo e homicida:
— Quem fez isso?
Lucianne deu de ombros.
— Foram só os renegados. Faz cinco... talvez seis anos. É só uma parte ressecada da pele, não é?
Os olhos escuros dele não saíram da parte da carne dela que um dia fora rasgada tão profundamente que a aparência nunca se recuperou. Então ele prendeu o olhar no de Lucianne e perguntou, consternado:
— Como você consegue estar bem com isso?
— Vossa Alteza, eu...
— Xandar.
— O quê?
— Não me chame pelo meu título nem pelo meu nome completo. Pra você é só Xandar, Lucianne.
