Capítulo 3 É ela ou ninguém

Ponto de vista de Liam

Das janelas altas do meu escritório, observei a cidade lá embaixo. Os carros seguiam em linhas constantes, e os prédios refletiam a luz. Tudo parecia organizado, como um sistema que eu já conhecia. Daqui de cima, parecia que tudo me pertencia, poder erguido em aço, vidro e números bem aos meus pés.

Recostei-me na cadeira, o couro rangendo baixinho, folheando a última página do relatório. Mas minha atenção já havia se desviado para outro lugar, longe dos números à minha frente.

— Anabel — chamei, com a voz firme.

Ela entrou sem demora, tão composta e precisa como sempre, a expressão calma e indecifrável. — Sim, senhor?

— Os advogados da Aldrin and Vale — eu disse, erguendo os olhos para ela. — Confirmaram a reunião de segunda-feira?

— Sim, senhor — respondeu Anabel. — Está tudo certo. Richard Vale estará presente, junto com a advogada designada para a sua conta.

Tamborilei os dedos de leve sobre a mesa. — Há algo que eu deva saber?

Um leve sorriso tocou seus lábios, como se ela estivesse escondendo alguma coisa. — Ela é uma das melhores de lá. Uma estrela do direito. Jovem. Muito afiada. — Fez uma pausa antes de acrescentar: — E, pelo que ouvi... um pouco destruidora de corações.

Soltei um suspiro baixo, quase divertido. — Destruidora de corações?

— É o que andam dizendo — ela respondeu. — Os homens costumam perder o foco perto dela.

Um meio sorriso surgiu nos meus lábios. — Você me conhece, Anabel. Ninguém causa esse tipo de efeito em mim.

Não era arrogância. Era simplesmente como as coisas sempre tinham sido. Ou, pelo menos, era o que eu dizia a mim mesmo. Porque, certa vez, houve alguém que atravessou todas as muralhas que construí.

Mia Villaruiz

Não pronunciei o nome em voz alta. Não precisava. Só a lembrança já bastou para tensionar minha mandíbula antes que eu a afastasse.

— Vamos ver se ela é mesmo tão boa quanto dizem — falei, tornando a pegar minha caneta. — Mande os dados dela antes da reunião.

— Sim, senhor.

Quando ela saiu, olhei para o horizonte da cidade, deixando meu foco se perder. Quem quer que fosse essa advogada, precisava estar preparada. No meu mundo, charme não significava nada. Só habilidade importava.

— Anabel — chamei de novo na manhã de segunda-feira, com a voz firme e controlada.

— Sim, senhor?

— Está tudo pronto?

— Sim, senhor. Está tudo confirmado.

— Faça-os entrar assim que chegarem.

— Claro, senhor.

Quando a porta se fechou atrás dela, fiquei olhando para a cidade, embora mal a visse. Por um instante, tudo pareceu distante. O horizonte. O movimento lá embaixo. Até a reunião para a qual eu vinha me preparando.

Então soltei o ar devagar e me endireitei. Afastei o café e ajustei os punhos do terno. Meu reflexo me encarava no vidro, composto e controlado. Exatamente como eu precisava estar. Apenas trabalho, nada mais importava.

Peguei a pasta sobre a mesa e saí do meu escritório, o clique familiar dos meus sapatos contra o mármore ecoando pelo corredor. Os funcionários se afastavam instintivamente à minha passagem, com cumprimentos baixos e respeitosos.

— Bom dia, senhor. — Eu os cumprimentei com um leve aceno, meu foco já voltado para a frente.

Empurrei as portas de vidro e entrei, a sala já estava preparada. Tomei meu lugar na cabeceira da mesa, colocando a pasta à minha frente. O peso da decisão voltou com força total. Tratava-se de selecionar o escritório de advocacia certo. Um que estivesse à altura dos meus padrões.

Alguns minutos se passaram, e a porta se abriu.

— Sr. Alcaraz — cumprimentou Richard Vale ao entrar, com a mão já estendida.

Apertei sua mão sem hesitar, educado, automático e controlado. Como eu sempre era.

Então meu olhar passou por ele. E tudo parou.

Ela entrou como se aquele espaço lhe pertencesse. Cada passo era medido, deliberado, silencioso, mas imponente, como se a sala se ajustasse à presença dela. Não havia o menor traço de incerteza em seu andar, apenas controle.

Mia Villaruiz.

Seus cabelos escuros estavam presos em um penteado baixo e impecável, revelando a linha elegante do pescoço e o contorno marcante da mandíbula. Alguns fios soltos emolduravam seu rosto, suavizando o que, de outra forma, seria uma imagem completamente inacessível. Sua pele era lisa, morena, impecável sob a luz, e seus traços eram refinados de um jeito que não implorava atenção, mas a exigia mesmo assim.

A blusa de seda branca que ela usava lhe caía perfeitamente, estruturada e ao mesmo tempo fluida, o tecido captando a luz a cada movimento sutil. Estava cuidadosamente presa dentro de uma saia lápis preta que acompanhava a curva natural do seu corpo sem exagero, sem esforço. Joias mínimas. Um relógio. Brincos simples. Nada desnecessário.

Tudo nela era intencional. Cada detalhe, controlado. Cada centímetro dela, composto de um jeito que falava de disciplina, de alguém que havia se reconstruído pedaço por pedaço.

Mas não foi a aparência dela que me atingiu.

Foram seus olhos. Eram escuros, firmes e indecifráveis. Familiares, mas mais frios do que eu me lembrava.

Olhos que um dia olharam para mim como se eu fosse tudo.

Agora me olhavam como se eu não fosse nada.

Oito anos desabaram em um único fôlego, arrastando para a superfície memórias que eu havia enterrado.

Meu peito se apertou; por uma fração de segundo, esqueci onde estava. Esqueci a sala de reuniões e o encontro. As pessoas observando. Tudo o que eu conseguia ver era ela.

— Sr. Alcaraz — disse Vale, alheio à tensão que estalava pelo ambiente —, esta é a advogada Villaruiz. Ela será a principal responsável por cuidar da sua conta, caso escolha nosso escritório.

O olhar firme e frio dela encontrou o meu, desprovido de calor e reconhecimento.

— Sr. Alcaraz. — ela disse, sem hesitar.

Forcei minha expressão a assumir a mesma máscara.

— Advogada Villaruiz. Bem-vinda.

Nós nos sentamos, mas mal ouvi Vale falar. Eu ainda não conseguia acreditar que ela estava ali, na minha torre, no meu mundo.

Oito anos de silêncio apagados em um único suspiro. Não ouvi uma única palavra do que Vale disse depois daquilo. Tudo o que eu conseguia ver era minha linda ex.

Oito anos malditos, e ela ainda tinha esse efeito sobre mim.

Mantive a expressão neutra, a postura relaxada, como se nada tivesse acontecido.

Como se eu não tivesse acabado de ser atingido pelo passado que pensei ter enterrado. Ela nem sequer vacilou, nem uma vez. Nenhuma emoção. Se eu não a conhecesse, teria acreditado que ela não se lembrava de mim.

Mas eu a conhecia. E aquele controle? Aquilo não era indiferença. Aquilo era guerra.

Meu maxilar se contraiu enquanto eu me forçava a me concentrar na discussão, mas todos os meus instintos estavam fixos nela.

O jeito como ela se movia. O jeito como evitava olhar para mim por mais tempo do que o necessário. O jeito como falava comigo como se eu fosse apenas mais um cliente. Apenas mais um homem. A ideia me irritava mais do que deveria.

Meus dedos tamborilavam de leve sobre a mesa, minha paciência se esgotando. Ela achava que podia entrar no meu mundo, sentar-se à minha frente e agir como se nada daquilo importasse? Como se eu nunca tivesse importado?

A reunião continuou, ou pelo menos era o que deveria ter acontecido.

Vale falou, números foram apresentados, e estratégias foram dispostas sobre a mesa. Eu não ouvi nada. Meu foco permaneceu nela.

Oito anos tinham se passado e, ainda assim, ela podia me desmontar sem sequer tentar.

Eu disse a mim mesmo que isso não importava. Disse a mim mesmo que eu não era mais aquele garoto. Mas a verdade se acomodou pesadamente no meu peito, impossível de ignorar.

Porque, no momento em que a vi de novo, percebi uma coisa que passei anos negando. Eu nunca a tinha deixado ir de verdade.

Quando a reunião terminou, ela foi a primeira a sair.

Ela foi embora antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, antes que eu pudesse impedi-la. Permaneci onde estava, com o olhar fixo na porta muito depois de ela ter se fechado.

Meu reflexo me encarava através do vidro, controlado e intocável, exatamente como o mundo me via. Mas eu sabia mais. E o nome dela ecoava na minha mente como se nunca tivesse ido embora.

Um pensamento sombrio e perigoso se instalou. Ela não se afastaria de mim de novo. Eu a faria se lembrar de quem eu era. Porque a maneira como ela olhou para mim não era indiferença. Era um desafio. E eu nunca me afastava de um desafio.

— Sr. Alcaraz... o senhor está bem? — a voz de Anabel cortou o silêncio, cuidadosa, cautelosa.

Não respondi. Eu não me mexia havia mais de uma hora. Os relatórios sobre a minha mesa continuavam intocados. O scotch ao meu lado estava morno, esquecido.

Eu não ouvia nada. Não sentia nada.

Não desde a sala de reuniões.

— Sr. Alcaraz — Anabel disse de novo, mais baixo dessa vez. — Tem certeza de que está bem?

Pisquiei, forçando a mim mesmo a voltar ao presente. Meu olhar se voltou para ela.

— Cancele o resto das minhas reuniões.

— Todas, senhor?

— Sim. — Minha voz saiu sem emoção. — Não quero ser incomodado.

Ela hesitou, depois assentiu.

— Claro, senhor.

Quando a porta se fechou, o silêncio voltou a preencher a sala.

Inclinei-me para a frente, passando a mão pelo rosto. Oito anos deveriam ter sido o bastante para esquecê-la. Eu tinha construído um mundo que não deixava espaço para o passado.

Ela deveria ser nada mais do que uma lembrança.

Uma cicatriz. Mas, no instante em que entrou naquela sala de reunião, tudo desmoronou.

Ela já não era mais a mesma garota. Estava mais forte agora e, de algum modo, tinha se tornado a advogada mais cativante do país.

Durante anos, eu disse a mim mesmo que fiz a coisa certa. Que deixá-la partir era necessário. Mas vê-la de novo deixou uma coisa dolorosamente clara. Eu estava errado.

Vale enviou a designação final, e meu maxilar travou no segundo em que vi a pasta sobre a minha mesa.

O nome Lisbeth Ortiz me encarava de volta, e não Mia.

Meu pulso rugia nos ouvidos enquanto eu folheava as páginas, uma vez, duas, como se a verdade pudesse mudar. Não mudou. Afastei a cadeira com tanta força que ela arrastou pelo chão. A pasta se fechou de estalo sob a minha mão.

"Não. Não era assim que isso ia terminar", murmurei para mim mesmo.

"Anabel!" Minha voz cortou o escritório.

Ela apareceu instantaneamente. "Senhor?"

Estendi a pasta na direção dela. "Ligue para Vale. Agora."

"Senhor, eu já confirmei. A transferência é definitiva. A dra. Ortiz vai assumir a conta—"

"Não me importa", eu disse, com a voz ficando fria. Fui até a janela, cerrando os punhos. "Ortiz não serve. Eu quero Mia Villaruiz. Sem substituições."

Virei-me de volta para ela, fixando o olhar no seu. "Diga a Vale que é ela ou ninguém."

Ela ficou imóvel por um segundo, depois assentiu. "Sim, Sr. Alcaraz."

Quando ela saiu, apoiei as duas mãos na mesa, baixando a cabeça. Eu não deveria estar fazendo isso. Havia outros advogados. Opções melhores, até.

Mas já não se tratava mais da minha assessoria jurídica. Tratava-se dela. Se Mia não estivesse sentada à minha frente, então eu não estaria apenas perdendo uma advogada. Estaria perdendo ela. E eu destruiria todas as alternativas antes de deixar isso acontecer.

Minutos depois, Anabel voltou.

"Sr. Alcaraz... Vale confirmou. A decisão é definitiva. Ortiz vai assumir."

O silêncio tomou conta da sala.

Então me levantei, devagar, controlado, mas com a fúria queimando sob a pele.

"Isso não vai servir", eu disse em voz baixa. "Nem agora. Nem nunca."

"Senhor, a srta. Villaruiz recusou e—"

"Ponha Richard na linha."

"Sr. Alcaraz, acho melhor avisá-lo—"

"Agora, Anabel."

Meu punho bateu na mesa. O copo ao lado tremeu. Ela não hesitou mais.

Segundos depois, o telefone estava na minha mão.

"Richard", eu disse, seco. "Vou simplificar. Eu quero a dra. Villaruiz. Se ela não for representar a minha empresa, vou procurar outro escritório."

Ele tentou argumentar. Eu não deixei.

"Esse é o seu problema. Minha condição é simples. Eu quero Villaruiz. Não desperdice meu tempo com mais ninguém."

Encerrei a ligação. Meu peito subia e descia enquanto eu me agarrava à mesa. Isso já não era mais negócios. Era sobre Mia. E eu não ia deixar que ela fosse embora de novo.

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