Capítulo 4 Tudo o que é preciso é uma palavra
Ponto de vista de Mia
— Sabe, acho que nunca disse isso o suficiente... obrigada — falei, pousando o garfo e encontrando os olhos de Josh enquanto jantávamos.
Ele franziu levemente a testa.
— Pelo quê?
— Por ter me salvado — respondi, baixinho. — Depois do Liam... — Minha voz falhou, mas me forcei a continuar. — Aquele foi o pior momento da minha vida. Eu estava começando a me recuperar da perda do meu pai, e então minha família inteira me abandonou. Não achei que conseguiria aguentar outro golpe.
Josh se recostou na cadeira, a expressão ficando mais suave.
— Foi você — continuei, agora mais firme. — Você e Daniel me deram forças para seguir em frente. Mesmo depois que Liam partiu meu coração e escolheu Stacy... mesmo quando achei que não tinha mais motivo para acreditar nas pessoas, você e Daniel ficaram. Vocês foram os únicos que nunca me deixaram.
Minha voz vacilou, mas sustentei o olhar dele.
— E naquele verão, quando você me levou para sua cidade natal depois que seu pai morreu... — Meu peito apertou. — Você tinha acabado de perdê-lo, mas ainda assim encontrou um jeito de me ajudar. Não precisava fazer isso.
— Você precisava de alguém — Josh disse, em voz baixa. — E eu também precisava de alguém. Acho que nós dois nos mantivemos de pé.
Sorri de leve.
— E depois você me fez sua assistente de meio período para que eu pudesse continuar estudando.
— Você era a única em quem eu confiava — respondeu ele, dando de ombros. — E era orgulhosa demais para aceitar dinheiro, então tive que fazer parecer um emprego.
Dei uma risadinha.
— Ainda foi o melhor chefe que já tive.
— Cuidado — ele retrucou com um sorriso torto. — Posso te contratar de novo.
Por um tempo, tudo pareceu leve outra vez. Como se o passado finalmente tivesse afrouxado as garras.
Então Josh se recostou, com um brilho travesso nos olhos.
— Eu te disse anos atrás para arrumar um namorado. Você teve várias opções. E o senhor Vale? Agora está solteiro. Divorciado, rico, bonito. Qual é a sua desculpa?
Balancei a cabeça, rindo.
— Minha desculpa é você. Enquanto você não tiver um namorado, eu não vou me incomodar com isso. E não tenho tempo para romance.
O sorriso dele desapareceu. Josh pousou o garfo e me observou.
— Eu sou gay, Mia. E você realmente acha que alguém me amaria pelo que eu sou? Não pela versão que veem, não pelo papel que eu desempenho... mas por mim? — A voz dele estava firme, mas ouvi a verdade escondida por baixo. — Eu tenho Daniel. Tenho você. Isso basta.
Meu peito apertou.
— Você merece mais do que isso.
Ele inclinou a cabeça, o olhar ficando mais atento.
— E você merece mais do que aquilo de que se convenceu. Tem certeza de que isso não é por causa dele?
Meu garfo parou no ar.
— Josh...
— Você não precisa odiar homens só porque um deles te destruiu — disse ele, com gentileza. — Você merece ser feliz.
— Eu não odeio homens — respondi rapidamente. — E Liam não tem nada a ver com a minha decisão. — O olhar dele me disse que não acreditava em mim.
Antes que eu pudesse discutir, uma voz familiar veio de trás.
— Estou interrompendo ou posso me juntar a vocês?
Virei-me. Daniel estava ali, as mãos nos bolsos, com o mesmo sorriso fácil que um dia me fazia sentir segura.
— Daniel — disse Josh. — Chegou na hora certa. Senta antes que a Mia coma tudo.
Daniel puxou a cadeira ao meu lado, sua presença firme e silenciosa, como sempre.
— Perdi alguma coisa? — perguntou.
O silêncio que se seguiu doeu mais do que a pergunta dele.
O sorriso vacilou, só um pouco. E eu senti aquilo como um golpe.
Porque eu me lembrei daquele verão. Da maneira como ele ficou diante de mim, o coração nas mãos, dizendo que tinha terminado com Dina porque não conseguia mais fingir, não quando estava apaixonado por mim desde o oitavo ano.
Daniel me disse que não queria nada em troca. Que eu não precisava escolhê-lo nem fazer promessa alguma. Ele só queria me amar, na esperança de que um dia eu o amasse de volta. E ele ainda estava aqui, ainda esperando por mim.
E eu tinha visto Liam de novo. Desde ontem, eu não conseguia pensar em outra coisa.
Meus dedos se apertaram ao redor do garfo enquanto eu forçava um sorriso.
— Josh estava só brincando. É sobre trabalho.
— É — Josh disse, com leveza. — Só trabalho.
Mas já não parecia leve. Eu sentia isso em cada olhar silencioso de Daniel. Na forma como ele ainda me ouvia como se eu importasse mais do que qualquer coisa. E a culpa se instalou fundo no meu peito. Porque ele merecia mais. E eu ainda estava quebrada por causa de outra pessoa.
Eu estava à minha mesa na manhã seguinte, afundada em arquivos, quando a linha do meu escritório tocou.
— Advogada Villaruiz. — A voz de Vale veio pela linha, afiada e direta. — No meu escritório. Agora.
A ligação terminou antes que eu pudesse responder. Meu estômago afundou. Ele não chamava as pessoas daquele jeito sem motivo. E definitivamente não desligava assim, sem mais nem menos, a menos que alguma coisa estivesse errada.
Pousei a caneta na mesa, meus dedos pairando por um segundo a mais do que o necessário antes de eu me forçar a me mover. Endireitei o blazer, controlei a respiração e caminhei em direção ao escritório dele.
Quando cheguei à porta dele, mal bati antes de empurrá-la e entrar.
No instante em que pisei lá dentro, senti a tensão no ar.
Vale estava atrás da mesa, com uma das mãos apoiada nela e o telefone ainda na outra, como se tivesse acabado de encerrar uma ligação. O maxilar estava tenso, a expressão controlada, mas longe de calma.
Os olhos dele se ergueram para os meus. Estavam afiados, avaliadores.
— Feche a porta. — ele ordenou. Obedeci, e o clique suave pareceu ecoar mais alto do que deveria.
— Sabe por que está aqui?
— Não, senhor — respondi, embora algo no meu peito já estivesse se apertando.
Ele não perdeu tempo. Deslizou uma pasta sobre a mesa na minha direção, com um movimento suave, deliberado, definitivo. Eu nem precisei abri-la. No momento em que ela parou diante de mim, eu já sabia. Reconheci na mesma hora.
A conta de Liam Alcaraz.
Meu peito se contraiu, súbito e apertado, como se algo dentro de mim tivesse travado no lugar.
— Alcaraz quer você — disse Vale, a voz medida, mas carregada de algo mais firme, algo que não deixava espaço para mal-entendidos. — Especificamente você. Ele recusou Ortiz. Recusou qualquer outra pessoa. Se você não assumir a liderança, ele não vai simplesmente ir embora em silêncio. Vai tirar a conta daqui, levá-la para outro escritório e fazer questão de que sintamos a perda.
Ele deixou aquilo assentar antes de continuar, prendendo o olhar no meu.
— E, Mia, nós não podemos nos dar ao luxo de perder essa conta. Este não é apenas mais um cliente. É o tipo de negócio que define nossa posição neste setor e nos mantém à frente de todos os escritórios que competem conosco.
Minha respiração falhou, presa em algum lugar entre os pulmões e a garganta.
— Senhor... não acho que eu seja a pessoa certa...
— Pare.
O tom dele me cortou de forma limpa e afiada, sem deixar espaço para argumentar, sem deixar espaço sequer para respirar. Ele se inclinou um pouco para a frente, o olhar me prendendo no lugar.
— Você entende o que isso significa? Essa conta pode definir a próxima década deste escritório.
— Eu sei — sussurrei, forçando as palavras para fora apesar do aperto no peito. — Mas eu...
— Mia — disse ele, mais baixo agora, mas não menos impositivo —, se você assumir essa conta...
Ergui os olhos, meu pulso começando a martelar nos ouvidos.
— Eu vou torná-la sócia.
Tudo dentro de mim ficou imóvel.
A palavra ecoou na minha cabeça, mais alto do que qualquer outra coisa.
Sócia.
Aquilo me abalou mais do que qualquer coisa que ele tinha dito, mais do que a pressão ou o aviso.
Era tudo pelo que eu tinha trabalhado. Cada noite em claro, cada sacrifício, cada momento em que escolhi esse caminho acima de todo o resto da minha vida. Era a única coisa que eu perseguia havia anos, o único objetivo que me mantinha seguindo em frente, por mais difícil que tudo ficasse.
— O senhor... me tornaria sócia? — perguntei, minha voz mais baixa agora, quase irreconhecível até para mim mesma.
— Se é isso que você quer — disse ele, simplesmente. — Basta uma palavra. Sim.
Mas dizer sim significava que eu teria de lidar com Liam Alcaraz.
Significava sentar diante dele, ouvir sua voz, sentir o passado arranhar o caminho de volta para o presente a cada reunião, a cada conversa, a cada olhar.
Meus dedos se apertaram em torno da pasta até as bordas pressionarem minha pele. Meus lábios se entreabriram, prontos para responder, prontos para decidir. Mas nenhuma palavra saiu.
Pela primeira vez na minha carreira, eu não sabia o que fazer.
Saí do escritório dele me sentindo confusa, como se tudo ao meu redor tivesse perdido a nitidez. A cidade não parecia real enquanto eu andava por ela. Quando cheguei em casa, o peso no meu peito parecia ainda maior, quase dificultando minha respiração.
Sentei na beirada da cama, com a pasta repousando no meu colo como uma decisão à espera de ser tomada.
Eu deveria estar feliz. Deveria estar comemorando, tomada pelo alívio de saber que tudo pelo que trabalhei finalmente estava ao meu alcance.
Mas tudo o que eu conseguia ver era meu ex. O rosto dele. Os olhos dele. Aquele olhar que ele me lançou na sala de reuniões, como se o tempo não tivesse passado, como se tudo entre nós ainda estivesse ali, inacabado.
Meu peito se apertou dolorosamente enquanto eu pressionava as mãos contra os olhos, como se pudesse bloqueá-lo, apagá-lo dos meus pensamentos.
Eu disse a mim mesma que nunca mais desmoronaria. Que a garota que um dia o amou tinha desaparecido, substituída por alguém mais forte, alguém intocável.
Mas um único olhar dele bastou para trazer tudo de volta: a dor, a raiva e as feridas que passei anos tentando enterrar.
Agora, tornar-me sócia significava estar ligada a ele. Todos os dias. Em toda reunião. Em cada momento que eu achei ter deixado para trás.
Minha respiração vinha em rajadas curtas, meus pensamentos girando mais rápido do que eu conseguia controlar.
— Deus... o que é que eu devo fazer? — sussurrei para o silêncio.
