Capítulo 4 Capítulo 3
Thomaz
— Você tá com uma cara péssima. — Ivan entra em meu escritório. Aperto os olhos devido à forte dor de cabeça.
— Fala baixo, proklyatiye! (por.ra). Bebi todas ontem, minha cabeça parece que vai explodir. — encosto no recosto da cadeira e inclino a cabeça para trás.
— Sugiro que você se recupere, lembre-se que hoje tem o jantar lá nos Becker e seu pai não vai gostar nadinha se você não for.
— Eu tô pouco me lixando pra isso, não quero ver a cara daquela idiota da Angelina, nem pintada de ouro. — falo entredentes.
— Nunca consegui entender essa rixa entre vocês dois. Até onde sei, costumavam se dar bem, quando crianças. — Ivan senta na cadeira de frente à minha mesa.
Nunca contei a ele o que houve entre mim e a Angelina e, sinceramente, é melhor assim. Não é que eu não confie no Ivan, somos amigos há anos e ele cola comigo em todas, entretanto, é um assunto complicado.
— Disse certo... Nos dávamos bem, mas depois do que aquela ordinária aprontou para cima de mim, fodeu tudo.
— É, mas te conhecendo bem, você bem que deve ter merecido o que quer que ela tenha feito. — sorri de lado.
Acabo rindo também, tendo recordações da nossa infância.
— Foi só uma brincadeira, Ivan — dou de ombros — Não posso fazer nada, se a otária não sabe brincar.
— Brincadeira né?! Sei...
Continuo rindo.
— Mas falando sério agora, vocês nunca tiveram nada? Ela é mó gata e tá uma delícia agora. — reviro os olhos.
— Sim, ela é mó gata — faço aspas com os dedos — E realmente tá bem gostosa, mas não dá, é muito chata, prefiro milhões de vezes a loirinha que peguei ontem. — sorrio de lado.
— Cara, não acha que já tá na hora de tomar jeito e casar?
— Vira essa boca pra lá, Ivan! Tá doido? Ora, vejam só... Eu, Thomaz Hilberg, casando — estalo a língua na boca — Só na próxima vida e olhe lá.
Rimos.
— Ok, ok. — levanta as mãos em sinal de rendição.
— Tenho que resolver umas coisas a respeito do carregamento de armas antes do jantar, daqui a pouco meu pai chega aqui e começa o falatório.
— Não esquece de dizer a Angelina que eu mandei um oi. — Ivan tem um sorriso sacana nos lábios, jogo uma bola de papel nele, que sai do meu escritório em seguida.
O dia foi bastante agitado, problemas e mais problemas, é disso que se trata a máfia russa. Até que chega o fim do dia, deixo tudo organizado em minha mesa e sigo para meu quarto, me arrumar para o tal jantar.
Tomo um banho rápido, saio do banheiro com a toalha enrolada na cintura, visto uma camisa social esporte fino, branca, que evidencia bem meus músculos, uma calça jeans preta, um sapato também branco, penteio os cabelos para trás e passo um pouco de perfume. Olho no espelho e gosto do que vejo, pego a chave do meu Porsche 911 azul, coloco o celular no bolso do jeans e saio de casa, me direcionando a casa dos Becker, onde encontrarei meus pais.
Não demora muito e chego ao meu destino, sou recebido calorosamente pelo Mikhail.
— Há quanto tempo não te vejo, rapaz. — damos um abraço.
— Realmente faz bastante tempo, senhor. Pensei que meus pais já estivessem aqui.
Quando iria me responder, ouvimos o som da campainha soar
— Ah! Devem ser eles. — Mikhail sorri largamente.
Meus pais entram e vem até nós.
— É muito bom vê-los, meus amigos. — Mikhail aperta a mão do papai e beija o dorso da mão da minha mãe.
Enquanto conversávamos, ouço um barulho de saltos, imediatamente meus olhos vão na direção do som, vejo Angelina descendo a escada. Por algum motivo que não sei explicar, não consigo tirar os olhos dela, fico vidrado por alguns segundos. Apesar de tudo, é uma mulher muito bonita e sedutora, fazia tempo que não nos víamos, o que me faz admirar ainda mais o quão bela está. Sou tirado do meu transe, com minha mãe cumprimentando ela.
— Angel, minha querida, você está maravilhosa! Como você cresceu, meu amor. Sua mãe teria muito orgulho da mulher que se tornou. — as duas se abraçam.
— Obrigada, dona Nádia.
— Já disse que não precisa desse dona, somos família. Lembra disso? — Angelina assente.
— E você, querida... — olha para a amiga da Angelina, que só agora reparei que estava presente — Como se chama?
— Sou Kira, melhor amiga da Angel, muito prazer. — as duas se cumprimentam com um beijo em cada lado do rosto.
Conversamos mais um pouco, até o mordomo informar que o jantar estava servido, fomos para a sala de jantar e pelo visto a casa não mudou nadinha, desde a morte da Sarah.
— E como vão os negócios, Mikhail? — meu pai pergunta.
— Não muito bem, Andrey. Acabamos de descobrir que fomos traídos. — presto atenção na conversa.
— Alguém conhecido?
— Sim, o Nikolai.
Solto uma gargalhada sem querer e todos me olham.
— O que tem de tão engraçado, Thomaz? — Angelina me fuzila com os olhos.
— Desculpa, Mikhail — enfatizo o nome do Mikhail e olho para ele, ignorando totalmente a Angelina — Mas com certeza não pode ter sido o Nikolai, ele pode até estar ligado a isso, no entanto, como todos sabemos, não seria tão esperto, a ponto de arquitetar um plano.
— Nisso o Thomaz tem razão, inclusive, a Angel falou a mesma coisa mais cedo. — sorrio debochado para Angelina, ela me encara com um olhar indecifrável.
Sempre soube da astúcia dela, porém, me recuso a acreditar que pensamos do mesmo jeito. Angelina continua sendo uma idiota, mesmo tendo esse corpo maravilhoso de agora.
O que você está pensando, Thomaz? Foco!
— E o que irão fazer a respeito disso? — meu pai pergunta.
— Ficaremos de olho para descobrir quem está passando informações, assim como também, faremos o Nikolai pagar por isso. Ninguém que traiu a Bratva até hoje, jamais saiu ileso.
— Muito bem, Mikhail. — papai o responde.
A medida que jantamos, a conversa deslancha. Chega a sobremesa, que parece estar com uma cara ótima, percebo a Angelina olhando de soslaio para mim, o que já me deixa em alerta, quando coloco a primeira colherada de pavlova na boca, sinto minha língua pegar fogo. Largo tudo de qualquer jeito na mesa.
— Proklyatyie! (por.ra) — vejo a Angelina disfarçando a risada, sei que foi ela quem fez isso, porém, no momento só quero que a ardência passe.
— O que foi, meu filho? — mamãe me olha preocupada.
Papai e Mikhail mantém os olhos arregalados em minha direção, sem entender nada.
— Água. — não consigo falar direito, minha língua está formigando.
Pego a jarra de vidro com água, que está na mesa e viro de vez na garganta.
— Que falta de educação é essa, Thomaz Hilberg? — mamãe está com o tom de voz alterado.
Depois de beber quase toda a água que estava na jarra, finalmente consigo falar, apesar de minha língua ainda estar dormente.
— Foi você! — Angelina está quase engasgando de tanto rir e sua amiguinha bem ao lado, tentando disfarçar o riso. Estou possesso de raiva.
— O que está acontecendo aqui? — Mikhail se levanta, olhando para nós dois.
— Sua filha colocou pimenta na minha comida. — mantenho o olhar firme na Angelina.
— Não levante acusações sobre mim, seu idiota. — tenta parar de rir.
— Será que nunca poderemos nos reunir em paz? Toda vez que estamos juntos, é um problema de vocês dois, estou farto disso! — Mikhail fala exaltado e papai também tem um olhar de reprovação sobre nós.
— Vamos nos acalmar, senhores. — mamãe tenta apaziguar.
— Nos acalmar o cara.lho! — falo arrastado, pois, minha língua está dormente e Angelina ri ainda mais — Eu vou matar a Angelina! — saco minha arma e aponto para ela, que faz o mesmo comigo.
Angelina nunca foi covarde.
— Tem certeza disso, Thomaz? — um aponta a arma para o outro e ela tem um sorriso debochado.
— Vou te enviar direito para o inferno!
— Posso até ir, mas te levo junto. — firmamos o olhar um no outro.
— Parem já com isso os dois! — papai se exalta e bate na mesa, se levantando.
Meu coração bate descompassadamente, sinto a adrenalina correr em minhas veias, a vontade de apertar o gatilho é grande, porém, Angelina não vacila nem um pouco e sei o quanto ela é boa em atirar.
Respiro fundo.
— Já chega, eu vou embora! Esse jantar já deu o que tinha que dar. — guardo a arma e me viro para sair do local.
Ouço a voz dos meus pais me chamando, mas estou com
tanto ódio, que não olho para trás, entro em meu carro e sigo para casa.
