Capítulo 2
POV de Brianna
Estremeci ao sentir o ar frio roçar meu rosto. Meu corpo inteiro estava gelado. E molhado.
Abri os olhos devagar e me deparei com um céu sereno.
O quê...
Eu não estava morta? Meu marido sem coração tinha me empurrado escada abaixo, e eu sangrei até morrer.
Ainda me lembrava do horror. A vida deixando o corpo pouco a pouco, até não restar nada além de fraqueza, frio e medo.
Eu implorei para que Cain me ajudasse, mas ele apenas me encarou com aqueles olhos frios. Não demonstrou culpa alguma. Pelo contrário, parecia estar esperando que eu morresse.
Como se aguardasse aquele momento havia muito tempo.
Eu deveria ter percebido. Assim que eu morresse, ele teria acesso a todos os meus bens por ser meu marido.
Foi por isso que se casou comigo.
Tomada pela raiva, levei a mão à cabeça em busca do ferimento que provaria que ele tinha me assassinado. Mas não havia nada. Meus dedos encontraram apenas os cabelos molhados — de água, não de sangue.
O que tinha acontecido?!
Baixei os olhos para examinar o corpo e percebi que vestia uma blusa antiga feita sob medida.
Hã?
Eu me lembrava perfeitamente daquela blusa. Cain a tinha rasgado num acesso de raiva porque eu havia constrangido Amber, embora tivesse sido ela quem me ofendera primeiro.
Então como a blusa podia estar intacta outra vez? Eu estava sonhando?
Ouvi soluços à esquerda e, quando vi Cain e Amber, meus olhos se arregalaram. Amber também estava encharcada e chorava, vestindo a camisa de Cain. Ele, por sua vez, estava seminu.
Prendi a respiração e observei ao redor. Estávamos na nossa casa de veraneio, diante da enorme piscina. Engasguei e levei as mãos à boca.
Eu me lembrava daquilo!
Jamais esqueceria aquele dia. Era nosso primeiro aniversário de casamento, me disseram que Cain estava na casa de veraneio. Fui até lá achando que ele estava preparando uma surpresa para mim. Mas a verdadeira surpresa foi encontrar Amber ali, esperando por ele.
Então eu tinha voltado no tempo? Tinha renascido?
"VOCÊ É EGOÍSTA E DESESPERADA, BRIANNA!"
Com os lábios entreabertos, ergui o rosto para encarar Cain. Ele me olhava furioso. O rosto e o pescoço estavam vermelhos, e havia um brilho perigoso em seu olhar.
Franzi a testa. O que eu tinha...
Certo! Amber me puxara para dentro da piscina assim que viu Cain se aproximando e fingira que eu estava tentando afogá-la.
"VOCÊ É LOUCA, BRIANNA! PRIMEIRO, USOU SEU DINHEIRO E SUAS CONEXÕES PARA SOBRECARREGÁ-LA DE PROJETOS E IMPEDI-LA DE VOLTAR A ESTE PAÍS. AGORA ESTÁ TENTANDO MATÁ-LA?"
Eu me levantei e olhei para Amber, ainda sem conseguir acreditar que tinha renascido.
"Vai ficar aí parada sem pedir desculpas, Brianna?", rosnou Cain, com a mandíbula travada.
Pedir desculpas? Eu me lembrava do que tinha feito da primeira vez. Pedi desculpas. Chorei até não poder mais e voltei para casa arrasada, sem forças. Fui uma idiota. Passei a noite inteira chorando e, no dia seguinte, implorei para que ele voltasse para casa.
Aquele foi o começo do inferno que se tornou nosso casamento.
Durante o primeiro ano, Cain apenas me tratava com frieza e quase nunca falava comigo. Depois daquele incidente, porém, começou a me manipular. Usava o amor estúpido que eu sentia por ele para me dar ordens.
Eu me lembrava claramente de quando ele mandou que eu parasse de trabalhar na Villa dos Quinn, a empresa do meu avô. Obedeci porque ele ameaçou se divorciar, e eu fiquei apavorada. Não queria perder o amor dele.
Amor? Ora, aquilo não passava de uma mentira que eu contava para mim mesma. Ele só me usou em benefício próprio, para salvar o nome e a empresa decadente dele.
"C-Cain, não... Ela só está com raiva. Não faça nada contra ela. Brianna ainda é sua esposa."
As palavras de Amber ecoaram na minha cabeça, trazendo-me de volta à realidade. Claro! Ela sempre foi uma vadia de duas caras. Que atuação impecável. Sabia mentir muito bem, droga. Afinal, era atriz.
Cain sacudiu a cabeça com violência. O peito subia e descia, tomado pela fúria.
"Não, Amber. Ela precisa pedir desculpas a você. Está tão desesperada para chamar minha atenção que chega a ser nojento!"
Em vez de dor, senti a raiva tomar conta do meu coração. Como consegui suportar aquele bastardo doentio? Será que o amor realmente tinha me feito perder a cabeça? Eu não conseguia acreditar!
"Ai!" Fiz uma careta de dor quando Cain agarrou meu braço e me puxou.
Meus olhos se arregalaram por um instante. Tentei soltar o braço, mas ele apertou ainda mais.
"Me solta!"
"Não!"Ele rangeu os dentes e reforçou o aperto. Estava quase quebrando meu braço. "Primeiro, peça desculpas a ela."
Tentei empurrá-lo e consegui me afastar dele, mas as unhas dele arranharam meu braço sem querer. O sangue jorrou da ferida.
Merda!
Amaldiçoei em pensamento. Aquilo ardia terrivelmente.
"Cain, não machuque ela!" Era Amber, fingindo estar muito preocupada.
Comprimi os lábios e lancei um rápido olhar para o arranhão antes de encarar Cain com uma expressão vazia. Minha indiferença o deixou chocado.
Se aquilo fosse real, se eu de fato tivesse voltado no tempo, tomaria as decisões certas.
Não repetiria os mesmos erros. Consertaria tudo.
Eu me livraria daquele casamento doentio e tóxico.
"Não vou pedir desculpas, Cain. Nunca."
Virei as costas, mas ele tornou a agarrar meu braço com raiva e me obrigou a encará-lo.
"O quê?!", rosnei. A dor. A raiva. O ódio. A vontade desesperada de mudar meu destino. Tudo se acumulava dentro de mim. Eu consertaria minha vida, e começaria pelo meu relacionamento com ele.
Cain apontou o dedo para mim.
"Peça desculpas, porra, Brianna! Peça desculpas ou vou me divorciar de você!"
Afastei a mão dele com um tapa e sustentei seu olhar.
"Não ouse apontar o dedo para mim!"
Amber segurou o braço de Cain para detê-lo.
"Cain, eu estou bem. Não machuque ela. Vamos embora."
Um sorriso sarcástico surgiu em meus lábios. Aquela vadia fingida era mesmo convincente, não era? Se eu não a conhecesse, pensaria que era uma santa, tão gentil e paciente. Mas não. Ser amante de um homem casado já era um grande pecado.
"Eu mandei você pedir desculpas!" Os olhos dele se arregalaram de raiva. Dessa vez, Cain havia realmente perdido o controle. "Peça desculpas, Brianna. Se não pedir, vou deixar você!"
Arqueei uma sobrancelha e voltei a encará-lo.
"Não quero. Vá em frente e se divorcie de mim. Não me importo."
Virei as costas e comecei a me afastar com um sorriso frio nos lábios. Eu me sentia tão viva. Meu coração estava tão leve. Nossa! Aquilo era insano, absurdo, mas eu estava feliz e grata por estar ali.
Eu estava mesmo ali.
Não era um sonho.
Ao sair da casa, vi meu carro de luxo. Eu me lembrava de tê-lo vendido quando a empresa do meu avô começou a afundar. Tudo porque eu havia retirado uma fortuna da empresa do meu avô para investir na empresa de Cain. Agora, faria exatamente o oposto de todas aquelas decisões erradas.
Era hora de consertar tudo.
Era hora de fazê-lo pagar.
