Capítulo 4
— Você não pareceu tão difícil de agradar naquela noite.
O olhar de Alexander ficou sombrio.
Charlotte se arrependeu assim que as palavras saíram de sua boca.
Não por vergonha.
Tudo bem. Talvez um pouco.
Mas, principalmente, porque Alexander pareceu interessado demais.
Ele se aproximou devagar, atiçando cada nervo do corpo dela.
— Você não sabe o que eu quero? — perguntou em voz baixa.
Charlotte não recuou, embora todos os alarmes dentro dela tivessem disparado.
Ficar devendo um favor a alguém já era ruim.
Ficar devendo a Alexander Sinclair era ainda pior.
Toda a cidade conhecia os rumores a respeito dele. A mãe tinha morrido quando Alexander ainda era jovem, e o pai não demorara a se casar de novo. Depois de sofrer vários abortos espontâneos, a madrasta também morreu. Desde então, as pessoas sussurravam que Alexander tinha alguma coisa a ver com tudo aquilo.
Ele nunca se deu ao trabalho de negar.
E isso só fazia com que o temessem ainda mais.
Charlotte não era de acreditar facilmente em fofocas, mas uma coisa estava clara.
Alexander era perigoso.
Ele a observava como se fosse capaz de ler todos os pensamentos que passavam pela cabeça dela.
— O que exatamente você quer? — perguntou Charlotte, num tom cortante.
— Ainda não decidi. — Ele manteve os olhos fixos nela. — Vou guardar esse favor para depois.
— Isso parece chantagem.
— Só é chantagem se você estiver com medo.
Dessa vez, Charlotte deu um passo à frente e baixou a voz.
— Não tenho medo de você.
Alexander baixou o olhar para encará-la.
Então, seus olhos desceram até os lábios dela.
— Que pena.
Charlotte estreitou os olhos.
— Pena por quê?
— Meu irmão idiota nunca soube o que estava perdendo.
O rosto de Charlotte esquentou, mas ela manteve a postura firme e fingiu que o coração não tinha perdido o compasso.
Quando voltou ao reservado, Isabella largou o celular na mesma hora.
— Você passou uma eternidade no banheiro.
— Estava com dor de barriga.
— Sei. — Isabella se recostou na cadeira. — Mas, se você assassinou Jasper no banheiro, eu posso te dar um álibi.
Charlotte tomou um gole da bebida.
— Agradeço.
Isabella estalou os dedos.
— Ah, é. Quase esqueci. Tenho uma grande novidade.
Charlotte olhou para ela.
— Lembra daqueles esboços de joias que você fez há um tempão? Aqueles que você disse que eram só por diversão?
— Lembro.
— Eu inscrevi seus desenhos naquela competição internacional de design.
Charlotte a encarou.
— Você fez o quê?
— Foi por diversão! — Isabella se apressou em dizer. — Não me olha assim. Surpresa: você ganhou medalha de ouro.
Charlotte piscou.
— Ouro?
— Sim, Charlotte. Ouro. Agora, metade do mundo da joalheria de luxo está atrás da misteriosa designer chamada Nine.
Charlotte esfregou a testa.
— Isabella...
A amiga empurrou um envelope sobre a mesa.
— O certificado e os detalhes do prêmio estão aí. Depois eu transfiro o dinheiro para você. Além disso, um monte de marcas quer trabalhar com você.
Charlotte abriu o envelope.
No certificado, estava impresso com toda a clareza:
Designer: Nine.
Era um nome que ela tinha escolhido anos antes, sem pensar muito a respeito.
Charlotte colocou o certificado de volta sobre a mesa.
— Tá.
Isabella a encarou.
— Tá? Só isso?
— O que você queria que eu fizesse? Subisse na mesa e começasse um discurso?
— Sim. Talvez chorasse um pouco, fingisse humildade e me desse alguma coisa.
Charlotte esboçou um sorriso.
Não era que não se importasse.
Ela simplesmente tinha aprendido muitas coisas enquanto crescia. Piano, pintura, finanças, idiomas, design. Alistair nunca a tinha criado para ser apenas uma figura decorativa.
Quando Charlotte decidia dominar alguma coisa, dominava.
O design de joias era apenas uma das muitas habilidades que mantinha escondidas.
Enquanto estava com Jasper, tinha levado uma vida discreta. Roupas comuns. Uma rotina tranquila. Nada que chamasse a atenção.
Tudo para proteger o orgulho frágil dele.
Meu Deus, como queria sacudir a versão mais jovem de si mesma.
Depois do jantar, Isabella agarrou a mão dela.
— Vem. Ainda está cedo. Vamos sair.
Charlotte se recostou na cadeira.
— Fica para a próxima.
A expressão de Isabella se suavizou.
— Jasper te deixou esgotada, né?
— Um pouco.
— Tudo bem. — Isabella apertou a mão dela. — Descanse neste fim de semana. Mas ainda vou te arrastar para sair em breve.
As duas se despediram na entrada do restaurante, e Charlotte foi direto para casa.
Assim que entrou, tirou a roupa e foi para o chuveiro.
Ficou sob a água por quase duas horas, esfregando cada parte do corpo que Jasper tinha tocado.
A pele ficou vermelha, mas a sensação de nojo continuou grudada nela.
Nos dias seguintes, seu celular não parou de tocar.
A notícia de que Nine tinha vencido a competição se espalhou mais rápido do que o esperado. Marcas de luxo, compradores particulares, grupos de moda e estúdios de design queriam entrar em contato com a misteriosa designer.
Charlotte ignorou a maioria.
Até que um e-mail chamou sua atenção.
Era um convite da Joalheria Wainwright.
A família Wainwright tinha construído sua fortuna com joias de alto padrão. Nos últimos anos, vinha avançando com força no mercado de luxo, desesperada para elevar a imagem da marca.
Serena queria contratar Nine como designer exclusiva.
Charlotte ficou olhando para o e-mail.
Então riu.
— Bem, isso vai ser divertido.
Eles não faziam ideia.
Nine era Charlotte Whitfield.
Ela não respondeu.
Que esperassem.
A festa mencionada por Alistair aconteceu alguns dias depois.
O jantar foi realizado em uma propriedade particular, oferecido por um dos anfitriões mais influentes da cidade. Carros pretos faziam fila na entrada, onde os manobristas recebiam os convidados. Garçons circulavam entre os presentes com taças de champanhe em bandejas de prata. Lustres de cristal iluminavam o salão de baile.
Charlotte chegou cedo.
Usava um vestido preto elegante, simples à primeira vista. No entanto, qualquer pessoa que entendesse de moda perceberia a qualidade do corte, do tecido e dos detalhes discretos trabalhados em cada linha.
A maquiagem era suave. Os cabelos estavam presos, com algumas mechas soltas emoldurando o rosto.
Ela não precisava de muito.
Como não conhecia quase ninguém ali, pegou uma taça de champanhe e se acomodou em um canto tranquilo.
— Você soube que o Sr. Whitfield pode aparecer hoje à noite?
— Da família Whitfield? O que mora fora do país?
— Ele mesmo. O Grupo Whitfield praticamente imprime dinheiro.
— Ouvi dizer que ele criou a neta depois que os pais dela morreram em um acidente de avião.
— Dizem que talvez ele a traga hoje à noite.
— Consegue imaginar se casar com essa garota?
— Você não se casaria apenas com a riqueza. Estaria se casando com alguém intocável.
Charlotte bebeu o champanhe em silêncio.
Nenhum deles sabia que a garota de quem falavam estava a apenas três passos de distância, perguntando-se se os aperitivos realmente faziam jus a toda aquela fama.
— Já que estamos falando de mulheres misteriosas, quem é aquela de vestido preto?
Charlotte não se virou, mas percebeu a atenção se concentrar nela.
— Não faço ideia. Ela não parece uma convidada qualquer.
— Tem aquele ar de família tradicional.
— Olha o vestido. O corte é claramente sob medida.
— Talvez seja filha de alguém.
— Ou esposa.
— Não está usando aliança.
Charlotte conteve um sorriso.
Que grupo interessante.
Então, o clima no salão mudou.
As pessoas próximas à entrada começaram a sussurrar.
Jasper Sinclair e Serena Wainwright entraram de braços dados, impecáveis, como se estivessem prontos para posar diante das câmeras. Jasper usava um terno escuro. O ferimento na testa já tinha cicatrizado o suficiente para ser escondido com maquiagem. Serena vestia branco e exibia um sorriso radiante e orgulhoso.
Charlotte permaneceu à margem da multidão.
Mesmo assim, Jasper a viu.
Seus olhos se prenderam nela e não se desviaram.
Ele nunca tinha conhecido aquela versão de Charlotte.
Quando estavam juntos, ela só usava jeans, camisetas básicas e vestidos comuns.
Naquela noite, parecia intocável.
Alguém por perto murmurou:
— A mulher de preto está deslumbrante.
O peito de Jasper se contraiu.
Um sentimento de posse, intenso e repulsivo, tomou conta dele.
Aquela era Charlotte.
A Charlotte dele.
A garota que costumava esperá-lo depois da aula. A garota que o olhava como se ele já fosse suficiente.
Como nunca a tinha visto daquela maneira?
Serena acompanhou a direção do olhar dele.
Seu sorriso desapareceu.
De novo.
Charlotte.
Os dedos de Serena se cravaram no braço de Jasper com tanta força que amassaram a manga do terno.
Charlotte não deveria estar ali.
Aquilo não era um simples restaurante. Era um jantar privado da alta sociedade. Herdeiros, políticos, famílias tradicionais. Gente com dinheiro de verdade.
Alguém como Charlotte não tinha o direito de atravessar aquela porta.
A menos que tivesse seguido Jasper.
Ou encontrado outro homem para levá-la.
A raiva de Serena se transformou em pura maldade.
Ótimo.
Ela humilharia Charlotte diante de todos.
Serena ergueu a voz e apontou diretamente para ela.
— Essa mulher sequer tem convite? Talvez a segurança devesse verificar. Algumas pessoas adoram se infiltrar em lugares aos quais não pertencem, principalmente quando ainda estão correndo atrás do marido alheio.
Os convidados trocaram olhares.
— Isso é verdade?
— Ela está correndo atrás de um homem casado?
— Algumas pessoas não têm vergonha nenhuma.
Charlotte baixou lentamente a taça de champanhe.
Antes que pudesse falar, um senhor perto da mesa de bebidas franziu a testa.
— Espere — disse ele, encarando Charlotte. — O Sr. Whitfield não viria acompanhado da neta hoje à noite?
A mulher ao lado dele seguiu seu olhar.
Seus olhos se arregalaram um pouco.
— Você acha que é ela?
