Capítulo 1
Aurora
Eu nunca tinha ouvido um silêncio como o que pairava sobre Lupinhollow.
Encostei minha testa na janela fria do carro. Mesmo através do vidro, podia sentir a pressão da floresta—antiga e pesada. As árvores não eram como as da cidade. Elas não sussurravam; elas se erguiam. Pinheiros escuros subiam dos dois lados da estrada, tão densos que bloqueavam o sol. Era pouco depois do meio-dia, mas já parecia crepúsculo.
Mamãe cantarolava baixinho junto com o rádio. Uma balada indie suave. Ela batia no volante fora de ritmo enquanto papai roncava no banco do passageiro, boca aberta como uma caverna. Ele tinha insistido em dirigir nas primeiras cinco horas da viagem e desmaiou assim que a estrada ficou sinuosa. Típico.
Puxei meu moletom mais apertado ao redor dos braços. Agosto não deveria parecer outubro.
O sinal de boas-vindas passou tão rápido que quase perdi.
Bem-vindo a Lupinhollow—Est. 1812.
Uma Boa Hora Uivante Espera!
Eu bufei. "Sério?"
Mamãe apenas sorriu, os olhos ainda na estrada sinuosa da montanha. "Charme local, querida."
„Cringe local,“ murmurei.
Mas eu não estava realmente irritada. Só... cansada. Nervosa, talvez. Um pouco fria. Tudo parecia diferente hoje—o ar, as árvores, até a luz do sol—e eu não sabia se era a cidade ou apenas eu.
Viramos uma curva e, de repente, como algo saído de uma pintura, a faculdade apareceu à vista.
A princípio, pensei que fosse um castelo. Do nada, este enorme prédio de pedra surgiu entre as árvores, coberto de hera como algo de um filme de fantasia. Tinha telhados altos e pontudos, arcos antigos e janelas tão finas que pareciam mais fendas de flechas do que qualquer outra coisa. Não era feio—na verdade, era bem legal—mas definitivamente não parecia nenhuma faculdade que eu já tinha visto.
Um arrepio correu pelo meu pescoço.
"É aqui," disse mamãe suavemente, "Academia Moonbound."
Queria perguntar por que se chamava assim, mas as palavras ficaram presas na minha garganta. Não queria soar burra, especialmente porque eles passaram as últimas seis semanas falando maravilhas sobre este lugar. "Melhor faculdade interna privada da região," mamãe tinha dito. “Acadêmicos de alto nível, programas incríveis de natureza, bolsa integral—o que não amar?”
Eu já tinha ouvido tudo isso. E ainda assim agora, sentada na sombra deste lugar escuro e imponente, tinha a sensação de que perdi algo importante.
„Parece mais um mosteiro assombrado do que uma faculdade," murmurei, só meio brincando.
Papai acordou com um grunhido e esfregou o rosto. „Chegamos?“
Mamãe entrou no estacionamento e encontrou uma vaga ao lado de vários outros carros. Estudantes estavam por toda parte, arrastando malas ou jogando mochilas sobre os ombros. Eu esperava o estilo clássico de uma escola preparatória—calças sociais, cardigãs, talvez alguns alunos quietos com óculos grossos e grandes livros. Mas não. Todos pareciam ter acabado de sair do set de algum show adolescente sobrenatural. Muitos jaquetas de couro, botas de combate e olheiras como se fosse uma declaração de moda.
Alguns deles estavam rindo, claro—mas não alto.
E então percebi outra coisa.
Eles estavam me encarando.
Não de um jeito de garota nova. Nem mesmo de um jeito de 'quem é ela'.
Eles me encaravam como se eu fosse... estranha. Errada. Algo apenas fora do lugar o suficiente para fazerem careta.
Eu me mexi no banco.
"Não pense demais," disse minha mãe, me olhando pelo retrovisor. "Eles estão só curiosos."
Mas eles não estavam olhando para ela. Nem para o meu pai. Só para mim.
Minha mãe desligou o motor. O silêncio que se seguiu não era um silêncio normal — estava vivo. Aquele tipo que faz seus ouvidos zumbirem um pouco. Eu conseguia ouvir o vento passando pelas árvores, como se toda a floresta estivesse respirando.
"Vamos lá, querida," disse meu pai enquanto saía do carro, se espreguiçando como se não tivesse passado horas roncando. "Vamos encontrar a secretaria."
Saí do carro, o cascalho rangendo sob meus tênis. Estava mais fresco aqui, mesmo em agosto. Não exatamente frio, mas o ar tinha peso. Eu puxei meu moletom mais apertado, os dedos mexendo nos punhos.
Os alunos continuavam me observando enquanto passávamos. Seus rostos não mudavam muito. Alguns apertavam os olhos, outros apenas olhavam fixamente. Tentei sorrir para uma garota com uma trança prateada e botas grandes.
Ela não sorriu de volta.
O prédio principal se erguia acima de nós. Sua pedra negra coberta de hera rastejante. Sobre as portas duplas, esculpidas profundamente no arco, estavam palavras em latim: Luna Vincit Omnia.
"O que isso significa?" perguntei, olhando para cima.
Meu pai deu de ombros. "Algo sobre a lua libertar tudo. Você sabe que sua mãe fez latim na faculdade, não eu."
Ele estava errado, mas eu não o corrigi. Eu já tinha visto a frase antes — em um folheto que nos deram no pacote de aceitação. A Lua conquista tudo.
Lembro-me de pensar que parecia sinistro na época. Ainda parece agora.
Por dentro, o hall de entrada era de alguma forma mais escuro do que fora. A iluminação era tênue, tudo lançado em um brilho dourado suave que fazia as sombras se estenderem mais do que deveriam. O chão era de pedra, os tetos altos o suficiente para ecoar, e o ar cheirava levemente a sálvia e algo agudo — como ferro ou terra depois da chuva.
Uma mulher estava sentada na recepção, digitando em um teclado. Ela parecia... distraída. Talvez no início dos trinta anos, uma caneca de café na mão, fones de ouvido como se não tivesse notado que estávamos ali.
"Ah, oi," disse minha mãe gentilmente.
A mulher se assustou, tirou um fone de ouvido e sorriu largo demais. "Oh! Olá! Desculpe. Vocês devem ser a família Wells. Aurora, certo?"
"Sou eu," disse, levantando a mão em um pequeno aceno.
"Certo, certo. Ok, tenho você aqui..." Ela apertou os olhos para a tela. "Aurora... Dormitório 3B. Companheiras de quarto... quatro delas — uau, você vai ter uma casa cheia."
Ela deslizou uma pasta de papel pardo sobre a mesa em minha direção. "Aqui está seu horário, um mapa do campus e algumas folhas de regras. Alguém do dormitório 3 vai te encontrar para te mostrar tudo daqui a pouco."
"Obrigada," disse, tentando espiar os papéis dentro da pasta. Os nomes das aulas pareciam estranhos — Caminhos Lunares, Psicologia de Matilha, Teoria avançada de mudança. Pisquei ao ver o último.
"Uh... mudança?"
A mulher piscou. "Mmm?" Então seus olhos se arregalaram. "Oh! Ah não, espera. Eu—?"
Minha mãe se inclinou para frente, com as sobrancelhas franzidas. "Tem algo errado?"
"Não! Não, não, eu só—uh, está tudo bem. Tudo está em ordem." Ela deu outro sorriso brilhante demais e acenou com a mão. "Bem-vinda ao Moonbound! Você vai adorar aqui."
Eu não acreditei nela.
Nem minha mãe, pelo olhar em seu rosto.
Mas antes que qualquer uma de nós pudesse dizer algo, um cara alto, de cabelo escuro, entrou na sala.
E tudo mudou.
