Capítulo 4 Capítulo 4

Conrado

A noite costumava tornar tudo mais difícil.

As sombras escondiam rostos.

Os becos pareciam mais estreitos.

E qualquer decisão tomada tarde demais podia custar uma vida.

Dirigia sem pressa pela avenida próxima à universidade quando o rádio da viatura chiou.

— Central para unidade do delegado Conrado Almeida.

Apertei o botão.

— Na escuta.

— Recebemos informação de movimentação suspeita nas proximidades do campus. Denúncia anônima. Um sedã preto estaria circulando diversas vezes pela região. Sem confirmação de crime até o momento.

Meus dedos apertaram o volante.

Sedã preto.

O mesmo carro da padaria.

Coincidências existiam.

Mas eu não construía investigações acreditando nelas.

— Entendido. Estou a menos de cinco minutos.

Desliguei o rádio e aumentei a velocidade.

Enquanto dirigia, uma pergunta não saía da minha cabeça.

Se aquele carro realmente estava seguindo Eva...

Por quê?

Se ela fazia parte da organização de Caio, não havia lógica em intimidá-la daquela forma.

Se era inocente...

Então alguém pretendia usá-la.

E isso mudava completamente o tabuleiro.

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Dobrei a esquina da universidade poucos minutos depois.

O movimento era pequeno.

Alguns estudantes esperavam carros de aplicativo.

Outros caminhavam em direção ao ponto de ônibus.

Passei os olhos pelo estacionamento.

Nada do sedã.

Continuei devagar.

Foi quando a vi.

Eva.

Ela surgiu correndo pela calçada, mochila batendo contra as costas, olhando rapidamente por cima do ombro.

Não parecia alguém tentando pegar um ônibus.

Parecia alguém verificando se estava sendo seguida.

Parei a viatura ao lado da calçada.

Desci antes mesmo de pensar.

— Senhorita Borges.

Ela parou tão bruscamente que quase perdeu o equilíbrio.

Os olhos arregalados denunciaram o susto.

Durou apenas um segundo.

Logo sua expressão voltou a ficar controlada.

— Delegado.

Respirava um pouco mais rápido que o normal.

O rosto estava levemente corado.

— Algum problema? — perguntei.

Ela ajeitou a alça da mochila.

— Nenhum.

Olhei para a rua atrás dela.

Vazia.

— Tem certeza?

— Tenho.

Inclinei a cabeça.

— Então por que estava correndo?

Ela respondeu rápido demais.

— Ia perder o ônibus.

Segui a direção de seu olhar.

O ponto ficava a menos de cinquenta metros.

Não havia ônibus algum.

Voltei a encará-la.

— Engraçado.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— O quê?

— O ônibus não está aqui.

— Justamente por isso.

Se eu não corresse, perderia quando ele chegasse.

Quase sorri.

Era uma resposta criativa.

Mas fraca.

Cruzei os braços.

— Costuma olhar para trás enquanto corre para pegar ônibus?

Por um instante ela ficou em silêncio.

Muito pouco.

Mas suficiente para eu perceber que buscava uma resposta.

— Achei que alguém estivesse me chamando.

Mentira.

Não uma mentira ensaiada.

Uma improvisada.

Ela desviou o olhar por um instante para a rua.

Foi automático.

Como se esperasse ver alguma coisa.

Ou alguém.

Acompanhei discretamente o movimento.

Continuava vazia.

— Senhorita Borges...

— Delegado, eu realmente vou perder o ônibus.

— Não acho que esse seja seu maior problema esta noite.

Ela endureceu o maxilar.

— Está tentando me assustar?

— Estou tentando entender por que alguém que dizia estar tranquila hoje à tarde agora parece pronta para sair correndo de qualquer carro que passe.

Ela respirou fundo.

Os olhos encontraram os meus.

Havia irritação ali.

Mas também havia algo que ela fazia um esforço enorme para esconder.

Medo.

— O senhor cria histórias na própria cabeça.

— Pode ser.

Dei um passo à frente.

— Ou pode ser que alguém esteja seguindo você.

Ela congelou por um instante.

Foi quase imperceptível.

Mas eu vi.

Vi porque estava esperando exatamente aquela reação.

— Ninguém está me seguindo.

A voz saiu firme.

Só que firme demais.

— Tem certeza?

Ela sustentou meu olhar por alguns segundos.

Depois respondeu lentamente:

— Tenho.

Mentia melhor quando preparava a resposta.

Aquela, definitivamente, não estava preparada.

O silêncio entre nós foi interrompido pelo ronco distante de um motor.

Instintivamente olhei para a avenida.

Um sedã preto cruzou o cruzamento sem reduzir a velocidade.

Vidros escuros.

Sem placa dianteira.

Meu corpo inteiro entrou em alerta.

Olhei novamente para Eva.

Ela também havia visto.

Dessa vez, não conseguiu esconder.

Sua mão fechou com força na alça da mochila.

O carro seguiu sem parar.

Sem buzinar.

Sem diminuir.

Desapareceu na esquina seguinte.

Continuei observando a rua por alguns segundos antes de voltar minha atenção para ela.

— Ainda acha que estava correndo por causa do ônibus?

Ela permaneceu calada.

A resposta estava escrita em seu rosto.

Mas, quando falou, escolheu outro caminho.

— O senhor devia se preocupar com criminosos de verdade.

— É exatamente isso que estou fazendo.

Ela respirou fundo, como quem travava uma batalha consigo mesma.

Por um momento, tive a impressão de que finalmente pediria ajuda.

Que contaria o que sabia.

Que admitiria o medo.

Mas ela apenas deu um pequeno passo para trás.

— Meu ônibus deve estar chegando.

Olhei para o ponto mais uma vez.

As luzes de um coletivo apareciam ao longe.

Ela aproveitou o instante de distração.

Passou por mim.

— Boa noite, delegado.

Fiquei parado enquanto ela caminhava até o ônibus que acabava de encostar.

Esperei as portas se fecharem.

Esperei o veículo partir.

Só então voltei para a viatura.

Algo estava errado.

Muito errado.

Eva escondia alguma coisa.

Só que, pela primeira vez desde que a conheci, deixei de acreditar que o segredo existia para proteger Caio Borges.

Talvez...

Ela estivesse tentando sobreviver tempo suficiente para que o irmão jamais descobrisse que ela própria havia se tornado um alvo.

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