Capítulo 5 Capítulo 5
Eva
Fiquei imóvel.
As batidas cessaram, mas meu coração continuava martelando no peito.
— Eva... sou eu. O Luan.
Reconheci a voz com clareza dessa vez.
Mesmo assim, não destranquei a porta imediatamente.
Aproximei-me em silêncio e olhei pela fresta da cortina.
Era ele.
Sozinho.
Usava um boné escuro e uma jaqueta com o capuz abaixado. Tinha o rosto tenso, como se não dormisse havia horas.
Só então girei a chave.
— Você tem noção da hora?
Ele entrou rapidamente e fechou a porta atrás de si.
— Desculpa.
Olhou para a janela antes de continuar.
— Mas eu não podia esperar até amanhã.
Cruzei os braços.
— Aconteceu alguma coisa?
Luan passou a mão pelo rosto.
— Sim.
Aquela única palavra foi suficiente para meu estômago se contrair.
— Fala.
Ele respirou fundo.
— Confirmaram o que eu tinha ouvido.
Senti um frio percorrer minha espinha.
— Como?
— Um dos rapazes viu dois homens perguntando por você perto da padaria.
Meu corpo enrijeceu.
— Perguntando o quê?
— Seus horários.
Onde você trabalha.
Que horas sai.
Que faculdade faz.
Se mora sozinha.
Fechei os olhos por um instante.
Então não era impressão.
Nem paranoia.
Era real.
— Quem são eles?
— Ninguém conhece.
Não são daqui.
Isso é justamente o problema.
Olhei para a cozinha, tentando organizar os pensamentos.
— O Caio já sabe?
Luan baixou a cabeça.
— Ainda não consegui falar com ele.
Meu irmão nunca desligava completamente dos negócios.
Sempre havia alguém capaz de encontrá-lo.
Se nem Luan conseguia...
Era porque Caio realmente tinha desaparecido.
— Isso nunca aconteceu antes, não é?
— Não.
Ele respondeu sem hesitar.
— E é isso que está me deixando preocupado.
O silêncio tomou conta da casa.
Luan caminhou até a janela e afastou discretamente a cortina.
Observou a rua por alguns segundos antes de soltá-la.
— Você fez exatamente o que eu pedi para não fazer.
Franzi a testa.
— Fui para a faculdade.
— Sozinha.
Suspirei.
— Não vou abandonar minha vida.
— Talvez você não tenha essa escolha.
A frase me atingiu como um tapa.
— Não fala isso.
Ele se virou para mim.
— Você acha que eu quero dizer isso?
A voz dele saiu mais alta do que o normal.
Respirou fundo antes de continuar.
— Eu conheço esse tipo de gente, Eva.
Quando eles escolhem um alvo, não desistem fácil.
— Eu não fiz nada.
— Eu sei.
— Nunca participei de nada.
— Eu sei.
— Então por que eu?
Luan ficou em silêncio.
A resposta era óbvia demais para ser dita.
Porque eu era irmã de Caio Borges.
A única família que ainda vivia no morro.
A única pessoa capaz de fazer meu irmão perder a cabeça.
Sentei devagar no sofá.
De repente, tudo pareceu pesado.
Muito pesado.
Luan aproximou-se.
— Escuta...
Ele esperou até que eu levantasse os olhos.
— Se eu pudesse tirar você daqui hoje, eu tirava.
Sorri sem humor.
— E colocar onde?
Ele não respondeu.
Porque não existia resposta.
Eu não tinha parentes em outra cidade.
Não tinha dinheiro para recomeçar.
Não tinha ninguém.
Só aquele pequeno sobrado.
A padaria.
A faculdade.
Era pouco.
Mas era a vida que eu havia construído longe das escolhas do meu irmão.
— O delegado apareceu hoje.
As palavras escaparam antes que eu pudesse pensar.
Luan ergueu a cabeça imediatamente.
— Conrado?
Assenti.
— Na saída da faculdade.
Ele franziu o cenho.
— O que ele queria?
— Fez perguntas.
Disse que achava que alguém estava me seguindo.
Luan soltou uma respiração pesada.
— Então ele percebeu.
— Percebeu mais do que eu gostaria.
Contei sobre o encontro.
Sobre a desculpa do ônibus.
Sobre o carro preto passando novamente.
Luan ouviu tudo em silêncio.
Quando terminei, ele permaneceu alguns segundos pensando.
— Talvez isso seja bom.
Olhei para ele como se tivesse enlouquecido.
— Bom?
— Se a polícia também viu esse carro, significa que não é coisa da sua cabeça.
Balancei a cabeça.
— Você está esquecendo um detalhe.
— Qual?
— Conrado quer prender o Caio.
— Eu sei.
— Se eu me aproximar dele, vou acabar entregando alguma coisa.
— E se você não se aproximar dele...
Luan parou no meio da frase.
Não precisou terminar.
Entendi perfeitamente.
O risco era outro.
Ficamos em silêncio.
Foi estranho perceber que, pela primeira vez em muitos anos, nenhuma opção parecia segura.
Luan consultou o relógio.
— Vou colocar dois rapazes para ficarem de olho na rua.
Abri a boca para protestar.
Ele levantou a mão.
— Não vão falar com você.
Nem entrar na sua casa.
Só vão observar.
— Isso não vai chamar atenção?
— Melhor chamarem atenção do que chegarem tarde.
Assenti, sem vontade de discutir.
Ele caminhou até a porta.
Antes de sair, voltou-se para mim.
— Promete uma coisa?
— O quê?
— Se acontecer qualquer coisa... qualquer coisa mesmo... você me liga antes de tentar resolver sozinha.
Sorri de lado.
— Está parecendo meu irmão.
Pela primeira vez naquela noite, Luan sorriu.
Foi um sorriso cansado.
— Alguém precisa fazer esse papel enquanto ele não aparece.
Abri a porta para que ele saísse.
Esperei até vê-lo desaparecer na rua.
Depois tranquei tudo novamente.
A casa voltou ao silêncio.
Mas, curiosamente, eu não me sentia mais protegida.
Sentia apenas que a tempestade estava cada vez mais perto.
E que, quando ela finalmente chegasse...
Não pouparia ninguém.
