Capítulo 2
Vesper
Não consegui conter a risada que borbulhou. O relógio era verdadeiro, sim — dolorosamente, tediosamente verdadeiro. Eu tinha sido atraída por ele naquela manhã pelo brilho de todos aqueles diamantes, meus instintos feéricos cantando de desejo antes mesmo de eu ver o que estava pegando.
Mas, assim que de fato examinei a peça à luz do dia, a decepção caiu sobre mim como uma onda gelada. Diamantes de laboratório, todos, cada um deles. Impecáveis, caros, totalmente sem alma. O prefeito tanto fazia estar usando zircônia cúbica, de tão pouca magia que aquelas pedras carregavam. Eram o equivalente, em joia, a um troféu de participação — tecnicamente valioso, espiritualmente inútil.
— Acredite ou não — gritei de volta, empurrando a porta do bar para abrir. — A escolha é sua. Mas, se FOR verdadeiro, talvez você queira pensar duas vezes antes de me devolver.
Ele ficou ali, paralisado na indecisão, com o relógio apertado na mão como se pudesse explodir.
— Espera! ESPERA! Vou mandar avaliar essa merda agora mesmo! Se você estiver mentindo...
Mas eu já estava lá dentro; a porta balançou e se fechou atrás de mim, cortando as ameaças dele. A música carregada de grave do Moonlit Menagerie me envolveu como um abraço familiar, e senti a tensão do dia finalmente começar a escorrer dos meus ombros. Aquele lugar, com todo o seu caos bonito e sua estranheza sem pedir desculpas, era a coisa mais próxima de um lar que eu já tinha conhecido.
O Moonlit Menagerie era o único bar num raio de oitenta quilômetros onde metamorfos não precisavam esconder o que eram. Ali, você podia deixar o pelo aparecer, mostrar as presas ou levitar a sua bebida sem algum humano chamar a polícia — ou pior. O dono — um vampiro ancestral que, dizem, já era velho quando Vegas ainda era só deserto e sonhadores — tinha feito dali um santuário, e a comunidade mantinha assim por pura lealdade teimosa.
Meus olhos foram imediatamente para a pista de dança, porque sempre iam. Um lobisomem de um metro e noventa, só músculo esculpido e poder contido, trabalhava numa barra usando nada além de um short de couro que não deixava absolutamente nada para a imaginação. A cauda prateada dele balançava no ritmo da música, e o jeito como ele se movia — toda graça predatória e sensualidade sem vergonha — fez minha boca ficar seca. Outro dançarino, um kitsune com fogo de raposa dançando pela pele, fazia no palco ao lado algo que desafiava tanto a gravidade quanto várias leis da física.
Meu Deus, eu amava esse lugar.
Tirei um punhado de notas do bolso — espólios do trabalho desta tarde — e fui até a beirada do palco. O lobisomem me notou na mesma hora; os olhos dele brilharam dourados na penumbra, e ele baixou num agachamento que destacava cada linha perfeita do corpo. A cauda se mexeu de leve, e eu não consegui evitar o sorriso quando enfiei o dinheiro no short dele.
— Bom garoto — murmurei, erguendo a mão para coçar atrás das orelhas dele. A cauda balançou com mais força, e ele praticamente derreteu sob meu toque antes que eu me afastasse, seguindo em direção à minha mesa de sempre.
Lyra já estava lá e, pelo jeito agressivo com que sugava o canudo, fazia um tempo que estava esperando. Minha melhor amiga parecia ter saído de um editorial “Bruxa Chic” de revista de moda — toda em seda rosa esvoaçante e com o cabelo escuro perfeitamente despenteado, arrumado daquele jeito naturalmente caro que provavelmente levou uma hora para ficar “sem esforço”. Ela ergueu os olhos quando me aproximei, e eu vi o olhar dela passear devagar das minhas botas gastas até meu cabelo revolto pelo vento, catalogando cada detalhe com uma expressão que era uma parte diversão e duas partes exasperação.
Despenquei no assento à frente dela, já esticando a mão para a bebida que ela tinha pedido pra mim.
— Por que você está me olhando assim?
— Bem… — Lyra arrastou, empurrando o coquetel na minha direção — meio humana, meio feérica não é exatamente uma combinação comum, sabia. A maioria dos feéricos ainda está enfiada nas Marchas do Crepúsculo, fazendo lá as merdas misteriosas que eles fazem no meio do nada. Dá pra me culpar por ficar curiosa?
Eu abri a boca para dizer exatamente onde ela podia enfiar a curiosidade dela, mas ela levantou uma mão, e a expressão mudou para algo mais sério.
— Na verdade, estou te olhando porque, sim, você está brilhando — disse Lyra, inclinando a cabeça enquanto estudava meu rosto —, mas também dá pra ver que você está cansada. Tipo… muito cansada. Você exagerou hoje? — Ela se inclinou um pouco para a frente. — Que porra você fez?
Apoiei os pés na cadeira vazia ao meu lado e dei um gole longo na bebida antes de responder.
— Prefeitura. Peguei o Patek do prefeito. — Fiz uma pausa, só pelo efeito. — Aí passei no armário de provas da delegacia na saída.
Lyra engasgou com a própria bebida.
— Você… a delegacia? Você enlouqueceu pra caralho?
— Também aquele banqueiro de investimentos na avenida — eu fiz um gesto displicente com a mão. — E aquele colecionador com o sistema de segurança “de última geração”.
Tomei mais um gole.
— O de sempre.
— Isso NÃO é o de sempre! — A voz de Lyra subiu uma oitava. Ela se inclinou para a frente, e dessa vez a preocupação no rosto dela estava afiada o bastante pra cortar. — Vesper, você não está mais só dançando na beira de uma lâmina. Você está dando mortal pra trás em cima dela. Toda vez que a gente conversa, você atacou um lugar mais perigoso do que antes. Prefeitura? Delegacia? — Ela agarrou meu pulso. — Você está ficando imprudente, gata. E imprudência mata.
Revirei os olhos; o zumbido gostoso da bebida já me deixava com menos paciência para aquela conversa.
— Eu vim aqui pra desopilar e achar alguém pra foder até eu esquecer que hoje aconteceu, Lyra. Como sempre. Não pra levar sermão sobre as minhas escolhas de vida.
Mas ela não largou o osso. Talvez fosse o álcool soltando a língua dela, ou talvez ela estivesse guardando isso havia tempo demais, mas alguma coisa na expressão dela mudou — ficou quase… compadecida, o que era muito pior do que preocupação. Ela se debruçou sobre a mesa, a voz baixando para algo suave e terrível.
— Olha, eu não estou tentando te dizer o que fazer com a sua vida — disse ela, em voz baixa. — Você sabe que eu nunca faria isso. Mas, gata… esse trabalho? Está ficando mais perigoso a cada vez. E eu só… — Ela hesitou, escolhendo as palavras com cuidado.
— É isso mesmo que você quer? Continuar sendo ladra pra sempre? Mesmo que você seja a melhor ladra da porra da cidade, é só isso?
