Capítulo 2 ~ O confronto ~

Ponto de vista de Aria

O choque me manteve paralisada por um segundo, dois, minha mente girando enquanto as peças se encaixavam com violência. Ethan, meu Ethan, enterrado dentro da minha meia-irmã. O homem que me puxou para fora das minhas sombras, que sussurrou promessas no escuro. E ela, a filhinha de ouro que roubava cada migalha de atenção desde que éramos crianças. A dor floresceu no meu peito, quente e implacável, se espalhando como fogo pelas minhas veias. Não era só traição; era um golpe brutal em tudo sobre o que eu havia construído minha esperança frágil.

Forcei minhas pernas a se moverem, e o vestido vermelho de repente pareceu uma piada cruel, apertado demais, revelador demais.

— Explique — exigi, com a voz mais firme do que eu me sentia. — Ethan, o que é isso?

A decepção desabou sobre mim, onda após onda, se misturando à dor crua da incredulidade. Eu o tinha amado de forma tão completa, tinha lhe dado minha lealdade quando ele mais precisou. E era assim que ele retribuía?

Ele se afastou dela devagar, como se o próprio ato fosse um detalhe sem importância, e deslizou para a beirada da cama, deitando-se ao lado de Camille como se os dois estivessem apenas relaxando depois de uma conversa casual.

Nenhuma urgência.

Nenhum arrependimento cintilando nos olhos dele.

Ele pegou a cueca no chão e a vestiu sem dizer uma palavra, enquanto ela se apoiava em um cotovelo, com os cabelos loiros bagunçados daquele jeito perfeitamente impecável. Os olhos verdes dela encontraram os meus, ousados e sem o menor remorso, e alguma coisa dentro de mim se rompeu.

A fúria ferveu, quente e desconhecida.

Eu não era do tipo que explodia; em vez disso, eu guardava tudo para mim, duvidava de mim mesma primeiro. Mas aquilo? Aquilo era demais. Meus pés me levaram para o outro lado da cama, as mãos cerradas em punhos. Eu queria agarrá-la, arrancá-la daqueles lençóis, fazê-la encarar o que tinha feito.

— Você — cuspi para Camille, com a voz tremendo pelo esforço de me conter. — Saia da cama dele.

Antes que eu pudesse alcançá-la, a mão de Ethan disparou e agarrou meu braço com força suficiente para deixar hematomas. Ele se levantou, imponente sobre mim, o peito nu arfando.

— Não — ele rosnou, o rosto se contorcendo em irritação. Como se eu fosse a intrusa. Como se eu fosse o problema.

A audácia daquilo acendeu algo primal no meu peito. E, antes que eu pudesse me impedir, arranquei meu braço do aperto dele e lhe dei um tapa forte. O som ecoou pelo quarto, ardendo na minha palma tanto quanto deve ter ardido nele.

As lágrimas pinicaram meus olhos, quentes e insistentes, embaçando os traços dele. Fiquei encarando Ethan, o peito subindo e descendo, querendo obrigá-lo a enxergar a dor que tinha me causado. O homem que eu amava, reduzido àquele estranho defendendo ela.

Ele passou a língua pela parte interna da bochecha, estreitando os olhos enquanto a raiva aflorava.

— Pare com esse absurdo, Aria. Você está sendo dramática demais. — A voz dele era fria, impregnada daquela autoridade de Alfa que ele vinha aperfeiçoando. — Você devia ter percebido o distanciamento. Faz semanas que venho me afastando. Já faz algum tempo que venho planejando terminar isso.

Dei um passo para trás, as palavras me atingindo como outro golpe. Dizer que fui pega de surpresa não chegava nem perto; parecia que o chão tinha desaparecido debaixo dos meus pés.

— Por quê? — sussurrei, com a voz falhando. — Por que você está fazendo isso? O que eu fiz?

Ele cruzou os braços, a expressão endurecendo ainda mais, como se explicar fosse um fardo.

— Agora eu enxergo você com clareza, Aria. Você não é digna do meu amor. Eu entendo por que a Deusa da Lua não te deu um companheiro. E agora você está se agarrando a mim por desespero? Eu mereço coisa melhor.

A dor no meu peito se aguçou, como uma adaga se retorcendo fundo.

Não digna de amor? As palavras que eu mesma sussurrara para mim em momentos sombrios, as inseguranças que o favoritismo do meu pai e as armações da Camille tinham plantado anos atrás. Ouvir aquilo dele — a única pessoa que tinha me feito acreditar que eu era o bastante... aquilo estilhaçou alguma coisa dentro de mim. Eu me afastei dele por completo.

— Tudo o que eu fiz foi te amar — eu disse, com a voz áspera. — Durante o seu luto, as suas dúvidas. E é isso que eu ganho?

Ele se virou, me descartando com um dar de ombros, de costas para mim enquanto alcançava a camisa.

Nenhum pedido de desculpas.

Nenhum lampejo do homem que eu conhecia.

Então me virei para a Camille, procurando no rosto dela algum resquício de arrependimento de irmã.

— Por quê? — perguntei, agora mais baixo, a empatia escapando apesar de tudo. No fim das contas, éramos irmãs. De sangue ou não, tínhamos crescido sob o mesmo teto. — Por que você faria isso comigo?

Ela sorriu de lado para mim, como sempre fazia quando finalmente conseguia o que queria e eu tinha que sofrer por isso. Antes que eu pudesse responder, Ethan se colocou entre nós, a postura protetora em relação a ela como um último tapa.

— Você não tem o direito de questionar ela, Aria. A Camille é uma pessoa muito melhor do que você. Foi por isso que eu escolhi ela. Agora sai da minha casa.

O mundo girou.

Melhor do que eu.

As palavras ecoaram, alimentando as lágrimas que enfim transbordaram. Eu as enxuguei com raiva, me recusando a deixar que eles me vissem desmoronar por completo. Parte de mim queria gritar e machucar os dois, mas me contive, indo embora sem olhar para trás. A porta clicou ao se fechar atrás de mim, selando o capítulo de nós.

Cambaleei até o meu carro, atrapalhada com as chaves enquanto soluços sacudiam meu corpo. Como tinha chegado a isso? Três anos, perdidos num instante. O homem que tinha sido a minha luz, agora a fonte da minha ferida mais profunda.

Dirigi sem rumo, as luzes da cidade borradas pelas lágrimas. As ruas passavam como um nevoeiro, e minha mente repetia a cena de novo e de novo. Os olhos frios dele. O sorrisinho dela. O jeito como ele a defendeu. A dor se enfiava mais fundo a cada quilômetro, uma latejante insistência que mal me deixava respirar. Eu tinha sido leal, dedicada, sempre colocando ele em primeiro lugar. E pra quê? Para ser chamada de indigna.

Em algum momento, o carro acabou parando num bar mal-iluminado nos arredores do território da alcateia. Eu nem lembrava de ter decidido parar. Estacionei de qualquer jeito e entrei, as luzes fracas e o murmúrio de vozes como uma distração entorpecida. Meu salto prendeu na soleira, mas me equilibrei e fui até uma mesa no canto. O barman se aproximou, franzindo a testa ao ver meu rosto marcado de lágrimas.

— Vai querer o quê?

— Algo forte — consegui dizer, com a voz rouca.

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