Capítulo 4
Ponto de vista de Alina
Na manhã seguinte, fui arrancada do sono pelo alarme do meu celular.
A dor voltou com tudo antes mesmo de eu estar totalmente consciente — um lembrete no corpo inteiro de tudo o que tinha acontecido na noite anterior. Empurrei meu corpo para ficar sentada, apoiando-me na beirada da cama, e no instante em que minha perna direita recebeu qualquer peso, soltei um sibilo entre os dentes.
Olhei para baixo. A parte inferior da minha perna tinha inchado de um jeito grotesco, com hematomas se espalhando em roxo escuro e preto até o tornozelo.
Engoli o som que queria escapar, cerrei a mandíbula e manquei até o banheiro.
A mulher no espelho parecia uma estranha. Sem cor, esvaziada.
Joguei água fria no rosto, consegui trocar de roupa por peças limpas com os dentes cerrados e peguei um táxi para o NewYork-Presbyterian.
Durante o trajeto inteiro, eu fazia contas na cabeça.
Anos de luta clandestina, e o que eu tinha para mostrar? Meu pai adotivo me dava uma mesada só no nome — a maior parte do que eu ganhava no ringue ia direto para ele. Ele fazia questão disso, para eu nunca conseguir juntar o suficiente para ir embora. O dinheiro que eu tinha guardado em silêncio, por conta própria, mal dava para cobrir despesas comuns. Contas médicas eram uma ordem de grandeza completamente diferente.
Observei a cidade escorrer pela janela do táxi e tentei não pensar demais nos números.
Lida com isso quando chegar lá, disse a voz na minha cabeça.
No hospital, a enfermeira da triagem bateu o olho em mim e me mandou direto para a emergência.
Quando terminaram os raios X e a tomografia, eu estava encharcada de suor só de dor.
Sentei na sala de espera, mantendo o corpo cuidadosamente imóvel, temendo o momento em que a papelada da cobrança chegaria.
Meia hora depois, o médico apareceu com os resultados e uma expressão séria. “Senhorita, você tem uma fratura na perna direita, fissuras em três costelas do lado esquerdo e uma concussão leve. Vamos precisar interná-la para observação — pelo menos uma semana.”
“Internar?” Senti a testa franzir. “Não dá para só me dar remédio e eu me virar em casa?”
O médico me lançou o olhar de quem já ouviu aquilo antes e deixou de se surpreender. “Minha recomendação é tratamento com internação. Se uma fratura dessas não for tratada adequadamente, pode causar complicações a longo prazo. Dificuldade para andar, dor crônica.”
Fiquei alguns segundos absorvendo aquilo. Quando falei, tropecei um pouco nas palavras. “Quanto… mais ou menos… sairia?”
“Internação, exames, medicação e reabilitação depois — sendo conservador, em torno de quarenta mil dólares.”
Quarenta mil dólares.
O número caiu como água gelada despejada na minha cabeça.
Na minha conta havia menos de três mil dólares. E uma parte disso já estava separada para o Lowell.
“Deixa eu só—”
Antes que eu terminasse a frase, uma enfermeira apareceu ao meu lado com uma pasta grossa de papéis. “Senhorita, esta é sua conta atual dos exames. Quatro mil trezentos e vinte dólares. Quando estiver pronta, pode ir à janela de faturamento.”
Quatro mil trezentos. Além dos quarenta mil que ainda viriam.
Minhas economias já tinham acabado antes mesmo de o tratamento começar.
Peguei os papéis. Meus dedos não estavam exatamente firmes.
“Doutor.” Montei o que eu esperava que parecesse um sorriso composto e me pus de pé. “Eu não vou ficar. Só me dá alguma coisa para a dor, por favor.”
O médico soltou o ar — o suspiro de quem escolhe as próprias batalhas — e começou a dizer algo. Antes que conseguisse, a porta do corredor se abriu de supetão.
“Com licença — passando — por favor—”
Dois maqueiros entraram depressa na sala de espera, empurrando uma cadeira de rodas. A mulher sentada nela era idosa, de cabelos brancos; o rosto estava sem cor e os olhos fechados. Ela parecia frágil de um jeito que sugeria que aquilo tinha piorado rápido.
Atrás dela: um homem de terno escuro, ladeado por um grupo de seguranças que encheu a porta.
Segui o som e parei.
Era Lowell.
Hoje ele usava um sobretudo cinza-chumbo por cima de uma gola alta preta, e a severidade da roupa acentuava tudo nele — a linha da mandíbula, a firmeza da expressão. Ele observava a mulher na cadeira de rodas com uma atenção que parecia muito com preocupação.
Um dos homens ao lado dele já estava falando com a equipe médica, em voz baixa e rápida: "A Sra. Vadalishi começou a sentir aperto no peito e falta de ar depois do café da manhã. Por favor, providenciem uma avaliação o mais rápido possível."
Afastei-me instintivamente. Homens que atravessavam o mundo do jeito que Lowell fazia — homens que chegavam a hospitais com equipes de segurança e falavam naquele tom calmo e seguro, como se partissem do princípio de que tudo seria resolvido — eram o tipo de homem de quem eu tinha aprendido a manter distância.
E havia ainda outra coisa. O leilão. Diretor. O frio que percorreu meu corpo não tinha nada a ver com a temperatura.
Eu já estava calculando a distância até a saída quando uma voz familiar me deteve.
"Alina. Você também está aqui?"
Ele já tinha me visto e atravessava a sala em minha direção.
"É você." Algo mudou por um instante em sua expressão — não exatamente surpresa, mas perto disso. "Você ainda não tratou isso?"
A atenção dele me fez sentir subitamente exposta. Baixei os olhos para os meus pés. "Vim fazer um check-up. Já terminei. Eu estava de saída."
"De saída?" Ele cobriu os últimos passos entre nós e seu olhar baixou para os papéis na minha mão. Algo em seu rosto ficou imóvel. "O que o médico disse?"
"Nada sério", eu disse.
Ele lançou um olhar para o assistente ao lado. Em um momento, os papéis estavam na minha mão; no seguinte, não estavam mais.
"Ei — me devolva isso—"
Estendi a mão para pegá-los e errei.
Ele examinou o diagnóstico sem dizer nada, com um leve vinco entre as sobrancelhas. Depois me devolveu os papéis, enfiou a mão no casaco e tirou o que parecia ser um cartão platina do hospital. Estendeu-o ao médico, que vinha observando toda aquela troca com admirável neutralidade.
"Quite a conta desta paciente. Ala VIP — coloquem-na na mesma suíte que a minha avó."
Observei o médico pegar o cartão e se afastar, e então ergui os olhos para Lowell, com algo confuso se movendo dentro de mim — desconforto e, por baixo dele, uma quantidade constrangedora de alívio.
"Você realmente não precisa fazer isso", eu disse. "Eu consigo me virar—"
"Além da minha avó, quase não tenho utilidade para esse cartão." Ele não estava olhando para mim. Observava a enfermeira no balcão processar o pagamento. "A anuidade dele é absurda. O limite de crédito é algo de que eu nunca chego perto. É um desperdício não usar."
Eu não consegui dizer se ele falava sério ou se estava me dando um jeito de aceitar sem sentir o peso daquilo.
Desde a noite passada — desde o castelo, e o carro, e agora isso — ele tinha feito mais por mim do que qualquer outra pessoa em anos. E eu não tinha nada a oferecer em troca. O desequilíbrio pesava dentro de mim como algo que eu não conseguia largar.
Eu ainda tentava encontrar palavras para isso quando ele falou de novo.
"Minha avó precisa de alguém atencioso com ela. Todos da minha equipe são homens, e eu não confio neles para cuidar dos detalhes direito. Eu poderia contratar uma cuidadora profissional, mas não tenho como verificar o caráter de quem mandariam." Fez uma breve pausa. "Você estaria disposta a cuidar dela? Enquanto se recupera aqui."
Pisguei para ele. Depois olhei para a linha limpa e firme do seu perfil.
"Sim", eu disse. "Claro."
Havia mais coisas que eu queria acrescentar — algo sobre o que aquilo significava, sobre a dívida que eu já estava acumulando —, mas um dos assistentes surgiu ao lado dele, inclinando-se para murmurar algo que não consegui captar por inteiro. Pelo pouco que entendi, o diretor do hospital queria se encontrar com Lowell e estava perguntando quando ele teria tempo.
Lowell pensou por um momento. "Hoje não. Amanhã à noite — diga a ele para vir até mim."
Vir até mim.
Fiquei remoendo a frase na cabeça. O jeito como ele a disse. O modo como o assistente apenas assentiu e foi cumprir a ordem, como se a questão já tivesse sido resolvida antes mesmo de ser feita.
Pensei no que eu realmente sabia sobre aquele homem — que era quase nada. E no que a noite anterior tinha sugerido — que, fosse qual fosse a posição dele, ela superava qualquer coisa que eu tivesse imaginado.
A incerteza foi crescendo até se transformar em algo desconfortavelmente próximo do medo.
Eu tinha me envolvido com alguém assim. E não fazia a menor ideia do que seria preciso para sair disso ilesa quando chegasse a hora — ou se isso sequer seria possível.
