Capítulo 4 — A viagem do diabo

O cheiro de couro e fumaça de charuto tomava o ar.

Selene estava rígida no banco de trás do SUV preto, os pulsos ainda ardendo por causa das algemas de prata. Os bancos eram macios demais, luxuosos demais — zombavam dela com tanto conforto. À sua frente, largado como um rei no próprio trono, estava o Alfa Damian Wolfe.

O homem que tinha acabado de comprá‑la.

Do lado de fora dos vidros escurecidos, a cidade passava em borrões — arranha-céus imponentes, ruas iluminadas por néon e o brilho distante da lua cheia. Aquilo não era um deserto de renegados. Era o domínio dele.

Os lobos dele controlavam tudo ali.

Inclusive ela.

Selene cerrou os punhos sobre o colo, lutando contra o impulso de falar primeiro. Que ele quebrasse o silêncio. Que ele ficasse imaginando no que ela estava pensando.

Mas Damian era paciente. Paciente demais.

Estava com um braço jogado displicente sobre o banco de couro, o paletó desabotoado, revelando o corte preciso da camisa preta. Os primeiros botões estavam abertos, expondo as linhas tatuadas que se enrolavam pela clavícula.

Os dedos dele tamborilavam no joelho — um ritmo lento, deliberado. Medindo ela. Testando ela.

Por fim, ele sorriu de canto.

— Você está quieta.

O olhar de Selene foi até ele, frio e inflexível.

— O que você quer que eu diga? “Obrigada por me comprar, Alfa”? Quer que eu me curve também?

Um riso baixo.

— Faria isso?

O maxilar dela enrijeceu.

— Vai pro inferno.

O sorriso dele se alargou, a diversão brilhando nos olhos escuros.

— Não é a reação que a maioria tem comigo. Você é ousada.

— Quer dizer que eu não tenho medo.

Uma pausa. E então — ele se moveu.

Rápido demais. Suave demais.

Antes que ela pudesse reagir, ele se inclinou através do espaço entre os dois e agarrou o pulso dela.

Nem forte. Nem bruto. Mas firme.

Um teste.

Selene congelou, o pulso disparado.

Damian se inclinou um pouco mais, o cheiro dele — esfumaçado, intenso, com um toque primitivo — preenchendo o espaço apertado. O aperto de sua mão era quente contra a pele gelada dela.

A voz dele desceu alguns tons.

— Tem certeza disso?

Selene engoliu em seco. Não reage. Não recua.

Ela se obrigou a encarar o olhar dele. Desafiadora. Inabalável.

— Me. Solta.

Os cantos dos lábios dele se ergueram.

— Então se solta.

Um desafio.

Ela puxou o pulso de volta.

Ele não tentou impedir. Largou na mesma hora.

O carro ficou em silêncio, exceto pelo zumbido constante dos pneus na pista.

Selene soltou o ar devagar, os dedos se fechando de novo sobre o colo. Ele estava jogando. E ela não ia perder.

Damian recostou, observando-a como se ela fosse algo interessante.

— Você vai aprender logo, Selene — murmurou ele. — Eu não pego o que não é dado.

O estômago dela se revirou.

— Isso era pra me fazer sentir segura?

Ele inclinou a cabeça.

— Não.

O carro diminuiu a velocidade. Um portão pesado de metal rangeu ao se abrir.

Eles tinham chegado.

A respiração de Selene falhou quando ela olhou para fora.

Uma fortaleza.

Não uma mansão. Não um lar. Uma prisão vestida de luxo.

Muros de pedra imponentes. Varandas como torres de vigia. Guardas em cada entrada. Um império construído em sangue e poder.

O SUV parou na entrada em círculo.

Damian abriu a porta e desceu primeiro, sua figura larga recortada contra as luzes douradas da propriedade. Ele não olhou para trás ao falar:

— Desce.

Selene hesitou.

Depois, erguendo o queixo, entrou no mundo dele.

No instante em que cruzou a entrada, ela os sentiu.

Outros lobos. Lobos poderosos.

Ela não precisava vê-los para saber que estavam observando. Das varandas. Dos corredores. Das sombras do grande saguão de mármore.

A matilha de Damian.

Os que o seguiam. Os que matavam por ele.

A porta se fechou atrás dela com um baque final.

Selene se virou devagar, absorvendo tudo.

Tudo ali tinha sido feito para intimidar.

Pé-direito alto. Pisos de mármore gelado. Quadros enormes de lobos e batalhas alinhados pelas paredes. Cortinas de veludo tão escuras que pareciam a própria noite.

E no centro de tudo aquilo—ele.

Damian estava ao pé da grande escadaria, observando-a. Esperando.

Ela engoliu em seco, mas se recusou a deixar o medo aparecer.

Os lábios dele tremeram num quase sorriso. — Sabe onde você está?

A voz de Selene saiu firme: — No inferno.

Um riso baixo. — Quase.

Ele se aproximou, e o ar na sala ficou mais pesado.

— Você agora me pertence.

O pulso dela disparou. — Eu não pertenço a ninguém.

O olhar dele escureceu. — Vamos ver.

Damian a conduziu pela propriedade, passando por corredores alinhados com portas pesadas e arandelas bruxuleantes. Cada centímetro daquele lugar gritava poder.

Quanto mais andavam, mais Selene entendia.

Aquilo não era só uma casa.

Era um reino.

Eles pararam diante de uma porta ornamentada. Damian a empurrou, abrindo-a.

Selene entrou.

Um quarto.

Grande. Luxuoso. Mas não acolhedor. Não delicado. Não um lugar para uma Luna.

Aquilo era uma jaula.

Ela se virou para ele. — O que é isso?

— Seu quarto.

Ela cruzou os braços. — E se eu não quiser?

Os olhos de Damian faiscaram. — Então tenta ir embora.

Silêncio.

Selene sustentou o olhar dele. Sabia que era melhor não testá-lo cedo demais.

Em vez disso, mudou de tática: — Por que você me comprou?

A resposta dele foi irritantemente simples: — Porque eu pude.

As unhas dela se cravaram nas palmas. — Isso não é uma resposta.

— Não — Damian concordou. — É um fato.

Selene quis bater nele. Quis arrancar aquele ar presunçoso do rosto dele.

Mas, em vez disso—foi ela quem desviou o olhar primeiro.

Ele a observou por mais um momento e então se virou para sair.

— Descansa — ordenou. — Amanhã, a gente conversa.

A porta se fechou com um clique.

Selene soltou o ar devagar.

Ela estava sozinha.

Por enquanto.

Mas não estava segura.

Não no mundo de Damian Wolfe.

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