Prólogo

Ponto de vista de Pierce Sinclaire

Eu suspiro, estalando o pescoço enquanto continuo sentado à mesa, encarando o mapa aberto em cima dela, com vários pontos marcados e diversas linhas coloridas riscando o papel. Ouço uma batida leve na porta antes de meu Beta, Paul Wilson, enfiar a cabeça para dentro.

— Alpha — Paul diz. — Você me chamou?

— Chamei — respondo. — Tem alguma coisa aqui que não fecha.

— Tá — Paul diz. — Vou chamar o Joey.

Eu assinto, passando a mão pelos meus cabelos castanhos. Arregaço as mangas da minha camisa social preta e estico as pernas, cobertas pela calça de alfaiataria. Meu Chefe dos Guerreiros, Joey Marshall, entra. Ele está vestido de um jeito parecido com o meu e o do Paul. Os dois se sentam nas cadeiras do outro lado da mesa, e nós encaramos o mapa.

— Então — Joey diz. — O que não faz sentido, Alpha?

— Tudo — eu digo. — De algum jeito, esses renegados estão chegando perto dos meus portões e eu simplesmente não consigo entender como. Como é que eles chegam perto o bastante dos meus portões sem serem vistos, sem serem farejados ou ouvidos pelos guerreiros da matilha?

— É isso que a gente não consegue descobrir de jeito nenhum — Paul diz. — Já tentamos de tudo pra entender e não conseguimos. A gente até percorreu as rotas com as próprias pernas, Alpha; não tem um único rastro de renegado do lado de fora dos portões. É como se eles nunca tivessem existido. E, mesmo assim, esses guerreiros foram atacados por alguma coisa.

— Sim — Joey diz. — Mas, se eles não conseguem ver, nem sentir o cheiro, nem ouvir, que diabos está atacando eles? O fantasma de um lobo?

— Eu não sei — Paul responde. — Eu acabei de dizer que a gente não consegue descobrir, Joey.

— Certo — eu digo. — Não comecem a discutir, ou eu mando os dois pra fora.

Nós três ficamos em silêncio, encarando o mapa de novo enquanto pensamos, tentando resolver.

— Bom — Paul diz — bruxas conseguem fazer uma névoa que dá pra borrifar no corpo pra esconder o cheiro, não conseguem?

— Conseguem — eu digo. — Mas a única bruxa aqui por perto que a gente conhece é a Jane, e ela não ajudaria renegados, principalmente se soubesse que eles só estão usando a poção dela pra fazer mal a outros lobos.

— Verdade — Joey diz. — Mas e as outras bruxas do clã dela? Não são cem bruxas em cada clã? Então… e se fosse uma delas?

— Talvez — Paul diz. — Mas como a gente vai descobrir onde estão todas as bruxas do clã dela espalhadas por aqui?

— Perguntando pra ela — Joey diz.

— O quê? — Paul solta, incrédulo.

— Ela não vai contar isso — Paul afirma, balançando a cabeça. — Ela nem sabe. Bruxas não sabem onde as outras ficam. Só a Bruxa Anciã e a Alta Sacerdotisa do clã sabem os locais exatos de onde estão as bruxas de cada clã.

— Tá — Joey diz. — Então por que você não pede pra Jane marcar um encontro entre você e a Alta Sacerdotisa dela?

— Impossível — eu respondo. — Bruxas protegem a Alta Sacerdotisa do mesmo jeito que protegem a própria outra metade. Elas morrem antes de dar um nome pra gente.

— Então — Joey diz — por que a gente não dá uma volta por todo o território ao redor e pergunta pra toda mulher que a gente encontrar?

— Uma bruxa não vai revelar que é bruxa — eu digo. — Você tem ideia de quantas vezes vampiros e lobisomens já usaram as habilidades das bruxas pro próprio prazer? Bruxas foram torturadas por lobisomens e drenadas até a última gota por vampiros. Uma bruxa não vai simplesmente dizer que é bruxa. E ela mata você antes de deixar você ir embora.

— Então — Joey insiste — por que a gente sabe da Jane?

Paul rosna baixo, lançando a Joey um olhar de aviso.

— Para de fazer pergunta — Paul repreende, num tom baixo. — Você vai deixar ele irritado, e eu não quero lidar com ele irritado.

Joey fecha a cara para Paul, e eu giro a cabeça na direção dos dois, irritado com a briguinha.

— Vocês dois estão me tirando do sério — eu digo, esfregando as têmporas. — Parem de discutir, ou eu mando vocês pros calabouços por um dia… ou uma semana.

Os dois se calam, me encarando enquanto esperam. Então ouço uma batidinha na porta.

—Entre —digo, erguendo uma sobrancelha quando minha médica-chefe entra. —O que foi, Elaine?

—Alfa… —Elaine hesita. —Eu não acredito que nenhum de nós esteja a salvo do que está atacando…

—E… —eu digo— o que é?

—A gente só viu essa combinação milhares de anos atrás —Elaine diz, me oferecendo os envelopes pardo. —Então… o que a gente faz?

Eu encaro a página.

—Nossa Senhora… —eu sussurro. —Por que eu não pensei em você…

Paul e Joey me olham, curiosos, mas minha mente fica presa ao papel.

P.O.V. de Jinx Willow

Eu seguro um bocejo ao sair da cama para olhar o sol nascendo. Visto uma legging preta, um moletom preto e um Vans preto, prendo meu cabelo preto e cacheado num coque bagunçado e desço. Começo minha rotina diária da manhã: fazer o café da manhã da matilha, preparar o refeitório, limpar os banheiros, limpar o salão de jantar, limpar a cozinha, limpar o resto da casa da matilha, colher as frutas e verduras maduras da horta da Luna, lavar as roupas da matilha, fazer o jantar da matilha, preparar o refeitório, limpar a cozinha e, depois, resolver qualquer favor para quem precisar de alguma coisa. É triste a minha matilha me tratar tão mal, mas o que dá pra fazer quando você é a loba que eles nunca quiseram desde o começo? Por acaso, meus pais são o Alfa e a Luna, mas eu não posso chamá-los de mãe nem de pai. Por quê? Eles desejam que eu nunca tivesse nascido. A Luna chegou a tentar me matar enquanto estava grávida de mim, mas, segundo ela, foi como se prata e acônito simplesmente não tivessem efeito em mim —o que é verdade. Diferente de outros lobos, a prata e o acônito não me enfraquecem, nem me machucam, o que é estranho para uma lobisomem, já que essas são as nossas fraquezas.

—Ahem —uma voz diz. —Você não foi ao meu quarto.

Minhas costas ficam rígidas com a voz do Beta. Quando eu era mais nova, o Beta descobriu que a companheira dele era humana, então decidiu que não a queria. Em vez disso, ele pediu permissão ao meu pai para me usar sempre que tivesse impulsos que precisassem ser satisfeitos. Meu pai consentiu com prazer, dizendo ao Beta que ele podia fazer com o meu corpo o que quisesse. O Beta decidiu que eu teria que vê-lo toda noite, num quarto específico escolhido por ele, três vezes por semana. Na maioria das semanas, é segunda, quarta e sexta. Muitas vezes, se ele está estressado, ele inclui domingo. Às vezes, ele muda os dias para terça, quinta e sábado. Eu assinto, em silêncio, subindo os degraus e entrando no quarto que o Beta escolheu. Eu me deito na cama depois de tirar a roupa, enquanto o Beta tira a dele, engatinhando por cima de mim. Eu fecho os olhos.

Mais cinco dias. Mais cinco dias. Mais cinco dias.

P.O.V. de Mystery

Eu observo os dois pela bola de cristal, sorrindo de um jeito maníaco antes de girar os dedos e focar nela.

—Não se preocupe —eu sussurro para a imagem da beleza de cabelos escuros dentro da esfera. —Um dia nós vamos ficar juntos…

—Mestre… —a loira baixinha no canto choraminga. —O que você quer que eu faça?

—Descubra tudo o que você puder sobre eles —eu digo, sem tirar os olhos da minha linda garota de cabelos escuros. —Descubra tudo o que eles sabem sobre mim. E depois me reporte. Não me decepcione de novo, serviçal, ou então…

A loira baixinha concorda, os olhos arregalados, antes de sair às pressas do cômodo.

—Siga ela —eu sussurro para o ar. —Me conte qualquer coisa que ela faça ou diga de errado.

O corvo negro grasna, alçando voo e passando pela janela entreaberta, tomada por trepadeiras de rosas negras e murchas.

—Um dia —eu sussurro. —Um dia, nós vamos ficar juntos de novo, meu amor.


O que a médica-chefe e o Alfa Pierce descobriram? O que eles sabem? Cinco dias até o quê? Quem é esse misterioso “P.O.V. de Mystery”? Quem é a serviçal de Mystery? Por que ela tem tanto medo dele? Quem é a “beleza de cabelos escuros”?

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