Capítulo 2
Pulei a enfermaria. Colei um band-aid no joelho e fui direto para o estúdio de dança.
Aquela piscadinha que a Cara me deu ficou repetindo na minha cabeça o dia inteiro. Eu imaginei? Tanto faz. Não tenho tempo pra ficar pensando demais nisso.
Faltam menos de dez semanas para o prazo de três meses da Srta. Wendy. Eu tenho que perder peso. Tenho que voltar a ser quem eu era.
Acordo às cinco da manhã, antes mesmo de o despertador tocar, e vou para a pista vazia do campus para a primeira rodada do inferno diário. Cinco quilômetros, sem diminuir o ritmo. Mas, na marca dos três quilômetros, minhas panturrilhas parecem cheias de chumbo, meus pulmões queimando como se eu tivesse engolido um fósforo aceso. Eu me dobro, tenho ânsia de vômito umas duas vezes, limpo a boca e continuo.
Antes da primeira aula, todo mundo está na cafeteria tomando café da manhã — ovos, torrada, mingau de aveia. Eu me escondo no estúdio, me arrebentando na barra de novo e de novo, me segurando ali como se minha vida dependesse disso.
Almoço? Estou no vestiário devorando meia barrinha de proteína. Nem bebo muita água — com medo de inchar.
Depois da escola é que o inferno de verdade começa. Três horas de fundamentos do balé e trabalho de ponta, depois duas mil cordas, seguidas de burpees, agachamentos com salto, treino em circuito — até as luzes do estúdio apagarem sozinhas, deixando eu no escuro.
Faço isso por uma semana inteira. Toda noite eu desabo na cama, cada músculo do meu corpo gritando. As unhas dos pés ficam todas roxas por baixo, meu tornozelo inchado ao dobro do normal, minha antiga lesão no joelho atacando sem parar. Eu mordo o travesseiro para abafar os soluços, depois me arrasto para fora da cama antes do sol nascer no dia seguinte.
O resultado? No quinto dia, subo na balança — dois quilos a mais. No sexto, mais meio quilo. No sétimo, fico encarando o número, as unhas cravadas na palma da mão. Noventa e seis quilos. UM QUILO E MEIO A MAIS do que eu estava uma semana atrás.
Fico ali, paralisada, com o cérebro completamente embaralhado. Estou comendo menos de quatrocentas calorias por dia, queimando pelo menos duas mil nos treinos — como diabos eu estou ganhando peso? A pergunta fica rodando na minha cabeça, alta e sem fim. O que tem de errado com o meu corpo?
Quarta-feira à tarde, aula de técnica de balé. A Srta. Wendy está ao lado do piano, batendo palmas no ritmo, a turma inteira na barra fazendo grand battements — chuta a perna o mais alto que conseguir, sustenta, desce devagar. Eu já fiz esse movimento dezenas de milhares de vezes. Agora? Eu fico sem fôlego só de ficar em pé, direita.
Na metade da décima segunda série, tudo fica preto. Eu alcanço a barra, mas meus dedos não se mexem. Tum. O som da minha cabeça batendo no chão é a última coisa que eu ouço.
Quando abro os olhos, tem um círculo de rostos me encarando lá de cima. Alguns riem, alguns apontam, metade com o celular levantado filmando. “Meu Deus, ela desmaiou mesmo…” “Sério? É só isso que precisa?” “Que dramática, só fazendo pra chamar atenção.”
Tento me empurrar para cima, mas meus braços estão tremendo, sem força nenhuma. Minha testa está coberta de suor frio, e meu estômago se revira como se eu fosse vomitar.
“Todo mundo pra trás.” Uma voz grave corta a multidão. O Sr. Hale, meu professor da sala de referência, abre caminho devagar pelo grupo, café na mão. Ele olha para mim lá embaixo e franze a testa. “Hipoglicemia”, diz, seco. Aí — bem na frente da turma inteira — ele ri.
“Doris, você acha que tá se esforçando tanto, não é?” Ele se inclina sobre mim; eu ainda no chão, fraca demais pra ficar de pé. “Você ficou gananciosa e preguiçosa, deixou a coisa sair do controle desse jeito. Não tem tortura que faça de você uma dançarina profissional. Acorda. Balé não é mais pra você.”
A turma inteira cai na gargalhada.
Eu mordo o lábio com tanta força que sinto gosto de sangue, as unhas cravando na palma da minha mão. A Srta. Wendy empurra a multidão, se ajoelha e segura meu ombro, a voz baixa: “Vai pra enfermaria e descansa. Chega de treino por hoje.”
Naquela noite, estou sentada na cama da enfermaria rolando a tela do celular. No fórum anônimo da escola, um post explodiu e foi parar no topo da página inicial. O título vem carregado de emojis: FOFOCA: Doris, ex-prodígio do balé, tá tão gorda agora e mesmo assim não quer desistir?
O post tem um vídeo — eu caindo na pista, mais imagens minhas errando movimentos no estúdio. O autor diz ter “fofoca de fonte interna”: que eu estou tendo ataques de compulsão, desisti de mim mesma e abandonei meu sonho do balé faz tempo.
Os comentários ficam cada vez piores. “Desse tamanho e ainda monopoliza o estúdio? Que vergonha.” “Ouvi dizer que ela era toda metida naquela época. O karma é uma puta.” “Dá pra passar logo a vaga da audição da Juilliard pra alguém que realmente merece? Tipo a Cara?”
Cara. Abro o Instagram e vejo que ela postou um story novo. É uma foto dela de volta no estúdio, com a legenda: Me matando por isso, não vou decepcionar ninguém.
Alguém comentou: “Ouvi dizer que a Doris já era, esse ano a vaga é sua, né?”
Ela respondeu com um emoji tímido.
Estou prestes a bloquear o celular quando surge uma notificação nova. Um e-mail da Srta. Wendy.
Doris, a vaga deste ano para o Elite Ballet Bootcamp já foi definida. Depois de uma análise cuidadosa, decidi conceder a vaga à Cara. Espero que você entenda.
Eu encaro o e-mail, com as mãos tremendo.
Faz quatro semanas que não menstruo. No começo eu disse a mim mesma que era só hormônio bagunçado por eu estar me privando de comer, normal. Mas quatro semanas passaram — e nada.
Meu corpo é como uma máquina sobrecarregada, que simplesmente desligou. Fico diante do espelho do estúdio e levanto a barra do meu collant. Quase não perdi gordura na barriga; minha pele está amarelada e opaca, meus olhos fundos, veias saltando por baixo da clavícula. Cada um dos sinais vermelhos de “exaustão” que dançarinas de balé temem? Eu tenho todos.
Por que tudo o que eu faço parece que estou jogando tudo num buraco negro?
