Capítulo 2 Capítulo 2

Ponto de vista da Paige

—Eu sei o que você tem feito, Greg —eu digo, na manhã seguinte, quando desço e o encontro comendo uma tigela de cereal na mesa da sala de jantar.

As palavras mal saem da minha boca e o rosto dele se contorce num olhar amargo. Greg levanta os olhos para mim, a colher parada no meio do caminho até a boca.

—Ah, é? E o que você acha que eu tenho feito? —ele diz, num tom de deboche.

Eu deixo o celular cair na mesa, bem na frente dele. A tela acende com ainda mais mensagens. O nome dela. O rosto dela. As mensagens.

Leanne: Bom dia, lindo.

Leanne: Estou com saudade do seu toque.

Leanne: Hoje à noite, depois que ela dormir?

Leanne: Você me faz me sentir viva de novo.

Viva!

Eu estava aqui, morrendo aos poucos, enquanto ele estava nos braços de outra pessoa, fazendo ela se sentir viva.

—Você ama ela? —minha voz falha um pouco. Eu odeio isso. Odeio como eu pareço pequena e fraca.

Greg encara o celular como se fosse uma arma, e talvez seja, porque eu finalmente cansei de bancar a idiota de bom coração que limpava a bagunça e sorria no meio do descaso.

—Ela não significa nada —ele solta um suspiro. —É complicado.

—Não. —Eu dou um passo para trás, cruzando os braços ao redor de mim mesma, para não ser tentada a arremessar a tigela na cabeça dele. —Na verdade, é bem simples. Você mentiu. Você transou com ela enquanto eu estava aqui com o Jaxon, enquanto eu trabalhava feito louca pra pagar esta casa, enquanto eu tentava acreditar que a gente ainda podia salvar o nosso casamento.

Um silêncio pesado toma conta do ambiente.

—Eu precisava de alguma coisa pra mim, Paige —ele diz. —Você tem sido… Meu Deus, você tem estado ausente desde o momento em que eu te conheci. Você nunca me deixou entrar, porque estava sempre presa a fantasmas, sempre esperando o seu precioso Ryder voltar.

Eu abro a boca para responder, mas fecho de novo. Será que ele tem razão? Será que a culpa é minha?

—Você tem razão —eu digo, num sopro. —Talvez eu tenha ficado presa à garota que eu costumava ser. Aos pedaços que eu tentei colar. À esperança de que você aprendesse a me amar do jeito que eu sou. Eu nunca vou ser a pessoa que você está tentando me moldar pra virar, e nem o meu filho.

—Mamãe —a voz do Jaxon chama baixinho lá de cima, e eu me viro para sair.

—Aonde você vai? —Greg pergunta, a cadeira raspando no chão quando ele se levanta.

—Pra um lugar onde a gente consiga respirar. Pra longe de você e dessa mentira. Eu quero o divórcio.

Então eu subo e arrumo duas bolsas de viagem, uma pra mim e outra pro Jax. Greg não se dá ao trabalho de dizer uma palavra pra nos impedir, nem sequer tenta pedir desculpas antes de eu sair pela porta e deixar para trás a vida que eu achei que tinha construído aqui.

O Jax fica quieto quando saímos com o carro, e eu olho para ele pelo retrovisor. Os olhos dele estão preocupados enquanto ele aperta o ursinho de pelúcia de lobo cinza contra o peito. Ele percebe que tem algo errado, e eu odeio que ele também vá ter que sofrer pelas ações do Greg.

—Que tal a gente parar na cafeteria e comer panquecas no café da manhã? —eu pergunto.

—O Greg vai?

—Não, meu amor. Agora é só a gente. A gente vai viver uma aventura —eu digo, tentando ao máximo soar animada.

—Pra onde a gente vai?

—Pra morar perto da tia Poppy —eu sorrio, mas os olhos do Jaxon se enchem de lágrimas.

—Vai ficar tudo bem, campeão, eu prometo —eu digo, tentando tranquilizá-lo.

—Mas e os meus amigos, e a vovó e o vovô? —ele pergunta, num tom baixinho.

—Você vai fazer um monte de amigos novos, e a vovó e o vovô vão estar com a gente em espírito; eles sempre estão olhando por você.

Enquanto o Jaxon come as panquecas, eu faço algumas ligações. O proprietário da casa que a Poppy tinha me mandado é muito solidário com a nossa situação e, depois de fazer algumas verificações sobre mim, concorda em deixar a gente se mudar hoje mesmo.

A Poppy estava certa. A casa era uma gracinha. Eu só tinha visto as fotos online, pelo link que ela tinha me enviado, mas eu confiava nela quando disse que era exatamente como aparecia nas imagens.

Era menor do que a nossa casa atual, mas era perfeita pra mim e pro Jax. Eu não consegui encontrar muita informação sobre a cidade, mas a escola local parece ótima e, depois de uma conversa por telefone com a diretora, eu acho que o Jaxon vai se dar muito bem lá. Eu marco um horário para visitar a escola amanhã à tarde.

Depois do café da manhã, a gente passa na floricultura ao lado, e eu deixo o Jax escolher todas as flores preferidas dele, enquanto eu pego lavanda e rosas azuis e acrescento ao buquê para deixar no túmulo dos meus pais.

Minha mente volta ao Ryder. Ele vivia me aparecendo com uma única rosa e depois explicava o que cada cor representava. Eu reparo em algumas rosas pretas enquanto estou pagando e pego uma só para acrescentar à minha compra.

“Quer que eu acrescente isto ao buquê?”, pergunta a florista.

“Não, obrigada. Deixa esse separado.”

Chegamos ao cemitério, e Jax coloca as flores na lápide dos meus pais. Jaxon tinha só um dia de vida quando eles morreram, mas eu sempre fiz questão de que ele soubesse sobre eles. Eles morreram num acidente de carro horrível enquanto eu ainda estava no hospital depois de dar à luz.

Eu achava que perder o Ryder era a pior coisa que podia acontecer comigo, até aquele dia. Meus pais eram os melhores. Eles me apoiaram durante a gravidez e enquanto eu sofria pelo Ryder. Meu coração ainda dói por eles e pelo meu filho. Eles teriam amado o Jaxon, e eu odeio que ele nunca tenha tido a chance de conviver com eles. Eu precisava tanto do apoio da minha mãe agora. Eu sei que ela me daria algumas palavras sábias sobre seguir em frente para coisas melhores.

Depois de um tempo no cemitério, voltamos para o carro, prontos para sair desta cidade e começar nossa nova vida. Só tenho mais uma parada para fazer.

Estaciono em frente ao bangalô isolado, a antiga casa do Ryder, e sou tomada por lembranças. Eu não vinha aqui há anos, desde que conheci o Greg. Visitar este lugar parecia uma traição a ele. Infelizmente, a devoção dele era pequena perto da minha.

O jardim, que antes era tão bem cuidado, agora está tomado pelo mato, e a tinta descascando no portãozinho de ferro. A casa ainda parece intocada.

“Quem mora aqui, mamãe?”, Jax pergunta.

“Foi aqui que seu papai morava antes de desaparecer”, eu explico.

Apesar de ele ainda não ter idade para entender tudo, eu nunca escondi a verdade do Jaxon. Eu não queria que ele crescesse achando que o pai não o queria.

“Você acha que ele ainda pode estar escondido aí dentro? A gente podia tentar achar ele. Vai que ele tá embaixo da cama. Eu fico embaixo da minha cama quando eu tô com medo”, Jax diz, e eu sorrio com a ingenuidade dele.

“Não, campeão, ele não tá aí”, eu suspiro, desafivelando o cinto.

“Eu posso ir também?”, Jaxon pergunta, quando eu saio do carro.

“Pode”, eu digo, abrindo a porta dele e ajudando-o a sair da cadeirinha, antes de pegar a única rosa negra que estava no banco do passageiro.

O portão de ferro range quando eu me esforço para empurrá-lo, com as dobradiças enferrujadas. Mais um sinal de que ninguém veio aqui há anos. Eu esperava que a casa já estivesse à venda a essa altura. Isso só aumenta o mistério de ela continuar vazia.

Eu caminho de mãos dadas com o Jax até a porta da frente. Um frio na barriga me toma, como na primeira vez que subi por este caminho para bater nessa porta, no nosso primeiro encontro.

Os pais do Ryder tinham saído, e ele me convidou para assistir a um filme. Eu me lembro perfeitamente de como minha respiração travou quando ele abriu a porta e aqueles olhos azuis, tão intensos, me prenderam.

No começo, nós sentamos sem jeito em pontas opostas do sofá, dividindo um saco de pipoca, e, conforme o filme passava, nossas mãos foram se aproximando devagar até os mindinhos se encostarem. Aquele contato mínimo fez meu coração disparar, e eu soube naquele instante que o Ryder seria alguém especial para mim.

Eu nunca tive ninguém que me fizesse sentir como o Ryder fazia. Cada toque parecia um bálsamo. Os beijos dele eram como uma descarga elétrica alimentando minha alma, e os abraços, um escudo impenetrável. Eu me sentia tão segura nos braços dele.

Jaxon solta minha mão, me arrancando da lembrança que se repetia na minha cabeça. Ele sobe no batente da porta e estende a mão, apoiando a palma na madeira e fechando os olhos.

“Ele não tá aqui”, ele suspira, e dá um passo para trás para pegar minha mão de novo.

Eu me inclino e coloco a rosa no batente.

“O que a preta significa?”, Jax pergunta.

“Ela representa poder, força e esperança. Também pode significar solidariedade ou o fim de uma relação”, eu explico, feliz por poder dividir com ele um pouco das crenças do pai.

Dou uma última olhada para a casa e então me viro e vou embora. Eu estou encerrando este capítulo da minha vida. Está na hora de parar de viver no passado e deixar todos os fantasmas para trás. Agora, nós podemos começar a viver pelo futuro. Só posso esperar que ele seja mais gentil do que o passado.

Quando passamos pela placa de saída da cidade, eu olho para trás pelo retrovisor. Nós fomos felizes aqui por um tempo, mas agora traição e tristeza mancham este lugar. Está na hora de criar novas lembranças em um lugar novo.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo