Capítulo 1

O portão da mansão abriu como se reconhecesse pessoas melhores do que Marina.

Ela ficou na calçada da Rua Estados Unidos, nos Jardins, com a sacola de pano pendurada no ombro e a caixa de ferramentas apertada contra o peito. O uniforme cinza da penitenciária tinha ficado para trás, mas a marca dele ainda parecia grudada na pele. Os seguranças do condomínio a olharam de cima a baixo antes de um deles perguntar, sem sair da guarita:

— Entrega?

Marina engoliu a resposta. Entrega era o que tinha feito da própria vida, sete anos antes.

— Estou procurando Rafael Monteiro.

O segurança riu pelo nariz.

— O senhor Rafael não recebe ninguém sem autorização.

Senhor Rafael. A palavra bateu nela com mais força do que deveria. Na última vez em que o vira, Rafael usava uma camiseta barata manchada de óleo, as mãos tremendo no volante do carro amassado e o rosto branco de medo.

"Foi um acidente, Marina. Eu perdi o controle. Se eu for preso, acaba tudo. Nosso filho nem nasceu. Me ajuda agora e eu te busco depois. Eu juro."

Ela tinha vinte e cinco anos, uma barriga de seis meses e uma fé burra em promessas feitas por homens bonitos chorando.

— Diga que é Marina Duarte — ela falou.

O sorriso do segurança morreu. Ele entrou na guarita, fez uma ligação baixa e voltou diferente. Não abriu o portão, mas destravou uma portinhola lateral, como quem deixa entrar um problema.

— Espere perto da garagem. Não toque em nada.

Marina passou por um jardim impecável, onde nem as folhas caídas pareciam ter permissão para ficar. A casa branca tinha janelas altas, pedra clara e silêncio caro. Ela parou perto de uma Mercedes preta e viu o reflexo no vidro: magra demais, cabelo preso sem vaidade, olhos que tinham envelhecido mais que o resto do rosto.

Então ouviu uma risada de criança.

O som atravessou a garagem, atravessou a pele, atravessou os sete anos.

Um menino correu pelo corredor lateral segurando um carrinho vermelho. Tinha o cabelo castanho escuro de Rafael, mas a boca era dela. A boca pequena que Marina beijara quando ele ainda mamava dentro de uma enfermaria de presídio, antes de Rafael aparecer com papéis e uma assistente social conhecida de alguém conhecido, dizendo que levaria o bebê para "um lugar melhor até ela sair".

— Lucas — ela sussurrou.

O menino parou por um instante, não porque a reconheceu, mas porque estranhos chamando seu nome assustavam qualquer criança.

Antes que Marina desse um passo, uma mulher apareceu atrás dele. Loira, elegante, vestido claro, pulseira fina no pulso. A beleza dela tinha a tranquilidade de quem nunca precisou provar que merecia respirar.

— Lucas, vem cá. Você vai sujar o tênis.

O menino se virou imediatamente.

— Mãe, olha o carrinho!

A palavra não fez barulho. Fez sangue.

Marina segurou a caixa com tanta força que a alça marcou a palma. Durante sete anos, ela repetira o nome do filho no escuro. Lucas ao acordar. Lucas na fila do banho. Lucas na oficina de restauração da prisão, enquanto aprendia a limpar fungo de fotografia antiga com cotonete e paciência. Lucas quando uma detenta recebia visita e ela não.

E ali estava ele, inteiro, vivo, cheiroso, chamando outra mulher de mãe.

— Quem é você? — perguntou a mulher, puxando Lucas para perto.

Marina abriu a boca, mas Rafael chegou antes da voz dela.

Ele apareceu pela porta de vidro usando camisa azul clara, relógio caro e o mesmo rosto que um dia se enfiara no colo dela pedindo salvação. Estava mais forte, mais polido, mais limpo. Mas o medo surgiu nos olhos dele antes da raiva.

— Marina.

Isabela olhou de um para o outro.

— Você conhece essa mulher?

Rafael desceu o último degrau devagar.

— Foi uma pessoa do meu passado. Uma pessoa instável.

Marina sentiu o golpe, mas não se curvou.

— Eu vim ver meu filho.

Isabela apertou Lucas contra a saia.

— Seu filho?

Rafael avançou dois passos e baixou a voz, como fazia quando queria parecer razoável enquanto esmagava alguém.

— Vamos conversar lá fora.

— Não. Eu quero ouvir aqui. Você disse que ia me buscar. Disse que cuidaria dele até eu sair.

O rosto de Rafael endureceu. Ele olhou para Lucas, depois para Isabela, depois para os seguranças que fingiam não ouvir.

— Você acabou de sair da cadeia e quer fazer escândalo na casa da minha família?

Minha família. Marina quase riu.

— Nossa família era eu e Lucas antes de você vender essa história.

Isabela deu um passo para trás.

— Rafael, do que ela está falando?

Ele tirou a carteira do bolso, puxou um maço de notas e empurrou contra a mão de Marina.

— Pega. Vai para algum lugar decente. Compra roupa. Come alguma coisa. Mas não chega perto do meu filho de novo.

Marina deixou as notas caírem no chão. Algumas se espalharam no mármore da garagem como folhas sujas.

— Seu filho nasceu algemado à minha cama, Rafael.

A cor sumiu do rosto dele.

— Cuidado com o que você diz.

Lucas olhava tudo sem entender. Isabela, agora pálida, cobriu os ouvidos do menino com as mãos.

Rafael se aproximou mais, o perfume caro dele misturado ao hálito de ameaça.

— Você sabe o que acontece com uma ex-presidiária que tenta invadir a casa de uma família respeitada? Eu faço uma ligação e você volta para trás das grades antes do jantar.

Por um segundo, Marina viu o rapaz da noite do acidente. Não o executivo. Não o marido. O covarde.

E percebeu uma coisa simples: Rafael não estava apenas com raiva.

Ele estava com medo.

Ela abaixou, pegou a sacola e a caixa de ferramentas. Não tocou no dinheiro.

— Eu passei sete anos aprendendo a esperar — disse. — Posso esperar mais um pouco.

Ao sair pelo portão lateral, ouviu Rafael mandar o segurança apagar as imagens da câmera daquela área.

Marina não se virou.

Mas sorriu sem alegria.

Se Rafael precisava apagar sua visita, era porque sua existência ainda podia destruir alguma coisa.

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