Capítulo 2
Naquela noite, Marina gastou parte das últimas moedas num ônibus e desceu a duas quadras do restaurante onde Rafael tinha reserva.
Ela não soube por um informante. Soube por Lucas. Enquanto saía da mansão, o menino perguntara a Isabela se no jantar teria pudim de chocolate "daquele lugar do papai". Isabela respondera o nome do restaurante com naturalidade, sem imaginar que uma mãe aprende a guardar migalhas de informação como se fossem pão.
O restaurante ficava nos Jardins, com fachada discreta e manobristas que não olhavam para pessoas a pé. Marina ficou do outro lado da rua, sob a marquise de uma farmácia fechada. O vestido de Isabela brilhou primeiro. Depois Lucas, de camisa branca, segurando a mão dela. Rafael veio atrás, falando ao telefone, rindo baixo.
Uma família perfeita, emoldurada pela luz quente da entrada.
Marina observou Lucas levantar o rosto para contar alguma coisa. Rafael se abaixou, ouviu, bagunçou o cabelo dele e riu. Quem passasse acharia bonito. Um pai presente. Um marido cuidadoso. Um homem que venceu.
Ela sentiu náusea.
No presídio, Rafael aparecera apenas três vezes. Na primeira, chorou e beijou sua testa. Na segunda, trouxe fotos do bebê e disse que a defesa era complicada, que ela precisava manter a confissão. Na terceira, já usava sapato social novo e falou através do vidro:
"Marina, o processo ficou pesado. Se você mudar a versão agora, perde qualquer chance de reduzir pena. Pensa no Lucas. Eu estou cuidando dele."
Depois disso, cartas voltaram. Telefonemas não foram atendidos. O nome dele se tornou uma porta trancada.
Marina esperou uma hora. Viu garçons servirem vinho. Viu Isabela tocar a mão de Rafael. Viu Lucas quase dormir na cadeira. E viu o momento exato em que Rafael a notou do lado de fora, refletida no vidro do salão.
O sorriso dele continuou no rosto por mais dois segundos. Depois morreu.
Ele se levantou com uma desculpa, beijou o topo da cabeça de Lucas e saiu. Marina já tinha começado a andar quando sentiu a mão dele fechar em seu braço.
— Você enlouqueceu?
Ele a empurrou para a entrada de serviço ao lado do restaurante, um corredor estreito com caixas de bebida e cheiro de gordura.
Marina puxou o braço.
— Não encosta em mim.
— Então para de seguir minha família.
— Meu filho.
Rafael riu, mas o som falhou.
— Você acha mesmo que algum juiz vai entregar uma criança para uma mulher que acabou de sair da prisão por atropelamento e fuga? Você não tem emprego, não tem endereço fixo, não tem reputação.
— Eu tenho a verdade.
Ele se aproximou tanto que ela viu um fio branco na barba bem feita.
— Verdade sem prova é delírio. Você assinou. Você confessou. Você repetiu a história na audiência. Sabe o que isso significa? Significa que o país inteiro acredita em mim antes de você abrir a boca.
Marina ficou imóvel. Era assim que ele vencia: fazendo a vítima repetir a própria cela por dentro.
— Por que você tem medo, então?
O olhar dele piscou.
— Medo?
— Se eu sou só uma ex-presidiária sem prova, por que mandou apagar a câmera da garagem?
Rafael segurou o maxilar dela com força. Não o suficiente para deixar marca visível, mas o suficiente para lembrar quem ele era quando não havia plateia.
— Escuta bem. Se você chegar perto da Isabela, do Lucas ou da empresa, eu digo que você está me perseguindo. Digo que tentou extorquir dinheiro. Digo que ameaçou meu filho. E desta vez, Marina, ninguém vai te ensinar artesanato na cadeia. Você vai voltar pior do que saiu.
Ela não respondeu. Apenas olhou para a mão dele no rosto dela.
Rafael soltou como se tivesse tocado fogo.
— Some.
Marina saiu do corredor antes que os joelhos traíssem. Na calçada, um casal elegante passou por ela sem vê-la. A cidade era boa nisso: pessoas invisíveis podiam sangrar no meio de bairros caros sem estragar o jantar de ninguém.
O quarto que ela alugara ficava em uma pensão perto da Liberdade, no terceiro andar, com janela para uma parede descascada e banheiro dividido. A dona pediu pagamento adiantado e não perguntou de onde Marina vinha. Isso era uma gentileza maior do que parecia.
Marina trancou a porta. Sentou-se na cama estreita. Só então permitiu que as mãos tremessem.
Não chorou.
Chorar, na prisão, era uma moeda ruim. Você gastava e continuava devendo.
Ela puxou a caixa de ferramentas para o colo. O metal estava arranhado, mas limpo. Dentro, havia pincéis finos, espátulas, lupa, luvas, cotonetes, papéis japoneses, pequenos frascos de solução conservadora, uma pinça que ganhara da professora da oficina e um caderno cheio de anotações.
Na primeira página, escrita com letra firme, estava a frase que a professora repetia:
"Nada volta a ser como antes. Mas quase tudo pode revelar o que ainda é."
Marina abriu também um envelope amassado. Havia uma fotografia antiga da mãe dela, rachada no canto, a única coisa de família que sobrevivera a mudanças, enchentes e visitas de oficiais de justiça. Na prisão, Marina tinha restaurado metade da imagem e deixado a outra metade manchada, como lembrança do trabalho inacabado.
Agora apoiou a foto na mesa e acendeu a luminária barata.
Rafael tinha documentos. Tinha dinheiro. Tinha sobrenome emprestado. Tinha uma família que acreditava nele.
Marina tinha mãos firmes.
E, pela primeira vez desde que saiu, entendeu que aquelas mãos não serviam apenas para pedir trabalho.
Serviam para desenterrar o que alguém tentou apagar.
