Capítulo 3

Na manhã seguinte, São Paulo acordou indiferente.

Marina passou por três lojas de molduras, dois antiquários e uma gráfica de luxo oferecendo serviços de restauração. Em todos os lugares, a conversa começava com interesse e terminava quando pediam documento, referência ou comprovante de endereço.

— Você tem CNPJ?

— Portfólio online?

— Alguma carta de recomendação?

— A senhora entende que trabalhamos com acervos de alto valor, não é?

A senhora. Alto valor. Como se ela não tivesse aprendido a salvar papel histórico de mofo dentro de uma sala com ventilador quebrado, sob a supervisão de uma mulher que restaurara livros raros antes de uma acusação de fraude destruir sua carreira.

Ao meio-dia, Marina comprou um salgado frio e sentou-se numa praça perto de uma igreja antiga. Havia famílias entrando para missa, vendedores de água, motoboys encostados na sombra. Ela abriu a caixa de ferramentas sobre um pano branco e colocou um cartaz escrito à mão:

RESTAURO FOTOS ANTIGAS E DOCUMENTOS DANIFICADOS.

CONSULTA GRÁTIS.

As primeiras pessoas passaram sem parar. Depois uma senhora se aproximou com uma fotografia do casamento dos pais, dobrada ao meio. Marina explicou o processo, cobrou pouco e trabalhou ali mesmo, com cuidado, limpando a superfície, realinhando a dobra, fazendo um reparo temporário suficiente para a mulher ver os rostos de novo.

Quando a imagem clareou, a senhora levou a mão à boca.

— Meu pai tinha esse sorriso mesmo.

Marina assentiu.

— Algumas coisas ficam escondidas. Não desaparecem.

A senhora pagou o combinado e deixou mais dez reais. Foi a primeira renda honesta de Marina em liberdade.

À tarde, outras duas pessoas pararam. Um homem com uma foto de batismo. Uma moça com cartas do avô manchadas de café. Marina não prometia milagres. Dizia o que era possível, o que era risco, o que exigia laboratório. Essa honestidade atraía mais do que ela esperava.

Perto das cinco, um carro preto parou junto à praça.

Isabela Azevedo desceu sem pressa, usando óculos escuros e expressão preparada para não demonstrar desconforto. Um motorista ficou perto do carro. Marina continuou limpando a borda de uma fotografia, embora o coração acelerasse.

— Então é isso que você faz? — Isabela perguntou.

— Trabalho.

— Rafael disse que você costuma dramatizar as coisas.

Marina levantou os olhos.

— Rafael diz muitas coisas.

Isabela tirou os óculos. Havia cansaço no rosto dela, não apenas arrogância.

— Eu não vim discutir o passado dele com você. Vim oferecer uma saída civilizada.

Marina guardou a fotografia do cliente num envelope.

— Saída para quem?

Isabela respirou fundo, como se estivesse negociando com uma funcionária difícil.

— Tenho uma casa grande, funcionários antigos e um filho pequeno. Posso falar com a governanta. Você pode trabalhar na limpeza, com salário e quarto de empregada, por um período. Mas há uma condição: você não se aproxima do Lucas. Não fala com ele. Não confunde a cabeça dele.

O mundo ficou muito silencioso.

Marina olhou para a mulher que usava o nome de mãe do filho dela e viu algo mais complexo que crueldade. Isabela acreditava estar sendo generosa. Isso tornava tudo pior.

— Você quer me contratar para limpar a casa onde meu filho mora, desde que eu finja que ele não saiu de mim?

Isabela corou.

— Estou tentando impedir uma tragédia.

— A tragédia já aconteceu. Você só mora dentro dela sem saber.

— Cuidado.

Marina fechou a caixa de ferramentas.

— Não aceito.

Isabela riu, curta e incrédula.

— Você entende a sua situação? Com uma ficha criminal, sem emprego, sem referência, você devia agradecer.

Marina pegou a fotografia de casamento da senhora, ainda em processo, e mostrou a Isabela a parte limpa e a parte suja.

— Está vendo essa diferença?

Isabela olhou apesar de si mesma.

— Sim.

— A sujeira não prova que a imagem é ruim. Só prova que alguém deixou o tempo, a umidade e o descuido cobrirem o que estava ali.

Ela colocou a foto sob a lupa portátil e apontou com a pinça para detalhes quase invisíveis: o bordado do véu, a data no verso atravessando o papel, o reflexo de uma janela.

— Se eu puxar rápido, rasgo. Se eu for paciente, recupero. Foto, carta, recibo, livro de batismo, contrato antigo. Papel fala. Só precisa de alguém que não tenha pressa de calar.

Isabela ficou imóvel.

— Quem te ensinou isso?

— Uma mulher que perdeu tudo, menos o conhecimento.

O telefone de Isabela vibrou. Ela olhou a tela, recusou a chamada e voltou a encarar o trabalho de Marina.

— Meu pai tem um arquivo particular. Documentos da família Azevedo, fotografias, registros da empresa, cartas. Houve um incêndio num depósito antigo no mês passado. Alguns papéis foram atingidos por fumaça e água. Os técnicos disseram que parte é recuperável, mas o especialista contratado viajou.

Marina não mudou a expressão, embora cada palavra abrisse uma porta.

— E por que isso me interessa?

— Porque meu pai paga bem. E porque, ao contrário de uma vaga de limpeza, isso parece estar dentro da sua... habilidade.

Marina ouviu o esforço de Isabela para não pedir desculpas. Não pediu.

— Quero contrato por escrito. Pagamento por etapa. Autonomia técnica. E ninguém mexe nos materiais sem minha autorização.

Isabela arqueou uma sobrancelha.

— Você negocia como se tivesse opções.

— Eu negocio como alguém que já perdeu sete anos por confiar em palavra de rico.

O golpe atingiu. Isabela desviou o olhar primeiro.

— Amanhã, nove horas. Mansão Azevedo. Não é a casa onde você foi ontem. É a residência do meu pai.

Marina colocou a foto da senhora no envelope com cuidado.

— E Rafael?

— Rafael não decide tudo.

Pela primeira vez, Marina viu uma fresta naquela família perfeita.

Isabela entrou no carro, mas antes de fechar a porta disse:

— Não se atrase. Meu pai odeia amadores.

Marina ficou sozinha na praça, com a caixa de ferramentas no colo e o primeiro contrato possível diante dela.

No dia seguinte, ela entraria no arquivo privado dos Azevedo.

E talvez, entre papéis queimados, encontrasse o começo da própria absolvição.

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