Capítulo 2

O segundo dia começou com café.

Foi isso que desconcertou Júlia. Por volta das oito da manhã, a chave girou e uma mulher de uns sessenta anos entrou com uma bandeja (pão, café, uma fruta) e a colocou na mesinha sem dizer nada. Não olhou para Júlia. Saiu, trancou de novo. Como se aquilo fosse um hotel e Júlia, uma hóspede que tinha esquecido de fazer o checkout.

Gente não dá café da manhã para quem vai matar à tarde, pensou Júlia. Ou dá. Ela não sabia ainda as regras daquele lugar. E até saber, ia tratar cada gesto como informação, não como gentileza.

Ela não tocou no medo. O medo estava ali, instalado no fundo do estômago como uma pedra, e ia continuar ali. Mas Júlia tinha descoberto, em outras noites ruins da vida (o despejo, o hospital onde a mãe morreu, a primeira semana sozinha numa cidade que comia gente como ela no café da manhã), que o medo e o pensamento podiam funcionar ao mesmo tempo, em andares diferentes. Embaixo, a pedra. Em cima, o trabalho.

E o trabalho, naquele dia, era simples: aprender a casa.

Ela comeu tudo. Quem não sabe quando vai comer de novo come tudo. Depois começou a mapear.

Pelo som, contou as vozes. Pelo menos seis homens diferentes ao longo da manhã, talvez sete. Passos pesados no corredor a cada vinte minutos, mais ou menos; ela contou nos dedos, mentalmente. Uma ronda. Rondas têm horário, e horário tem buraco. Ela não sabia ainda onde estava o buraco, mas agora sabia que existia um.

A mulher do café voltava em três momentos: manhã, meio-dia, noite. Sempre sozinha. Sempre calada. Júlia arquivou: a velha não é guarda, é serviço. Não vai me machucar, mas também não vai me ajudar. A menos que. Ela deixou o a menos que em aberto, como uma porta encostada.

No teto do corredor, quando a porta abria, dava para ver o canto preto de uma câmera. Júlia olhou só uma vez, rápido, e nunca mais. A primeira regra de quem é observado é não deixar o observador saber que você também observa. Uma câmera no corredor. Provavelmente mais. Ela imaginou onde colocaria câmeras, se a casa fosse dela, e supôs que esses homens pensavam parecido: entradas, escada, o cômodo onde guardavam o homem da cadeira.

O homem da cadeira. Ele ainda estava vivo na noite anterior. Júlia se perguntou se ainda estaria, e percebeu que a resposta importava menos pela compaixão e mais pela conta: enquanto o empresário desaparecido estivesse vivo naquela casa, aquela casa tinha um problema maior do que ela. E o problema maior dos outros costuma ser o esconderijo dos pequenos.

Ela se obrigou a pensar nele como um dado, não como um homem, e percebeu o quanto isso a assustava em si mesma. Trinta e seis horas antes, Júlia era uma pessoa que chorava em filme de cachorro. Agora estava calculando o valor de sobrevivência da vida de um estranho amarrado a uma cadeira. Não porque tivesse endurecido, mas porque a parte dela que sentia tinha sido obrigada a dar lugar à parte que sobrevivia, e ela arquivou isso também, com um arrepio: a casa não estava só prendendo o corpo dela. Estava, devagar, ensinando a cabeça dela a funcionar como a deles. Júlia decidiu, ali, que ia usar essa frieza como ferramenta sem deixar que ela virasse pele. Sairia daquela casa fria o suficiente para escapar e humana o suficiente para querer escapar. Os dois ao mesmo tempo. Era a única forma de sair inteira.

Ela não tinha papel. Tinha guardanapos, três, da bandeja, e um toco de lápis que encontrou na gaveta da mesinha, esquecido por sabe-se lá quem. Escreveu pequeno, em código que só ela entendia: traços para os homens, números para os horários, uma letra para a velha. Depois enfiou os guardanapos dentro da fronha do travesseiro e decidiu que aquilo era burro demais e que precisava de um lugar melhor antes da noite.

Foi quando ouviu a voz de Viktor do outro lado da porta. Ele não estava falando com ela. Estava falando ao telefone, ou com alguém, e não se importava que ela ouvisse. Essa indiferença, Júlia entenderia depois, era a indiferença de quem fala perto de um móvel.

— …porque ela viu a cara do Ramos, é por isso. — Pausa. — Não, o Leonardo não quer. O Leonardo tá com não-sei-que-frescura de esperar. — Pausa. — Eu sei o que ela é. Ela é uma entregadora que se enfiou na casa errada. Não vale o ar que respira. Mas o Leonardo manda, então tá vivendo. Por enquanto.

Outra pausa. E então, mais baixo, mas não baixo o bastante:

— Ela não passa da semana. Eu já vi como isso termina. Sempre termina do mesmo jeito.

Os passos se afastaram.

Júlia ficou imóvel por um longo momento, a pedra no estômago subindo um andar. Ramos. O nome do homem da cadeira, então. Mais uma coisa guardada. Ela pegou o lápis, abriu o guardanapo de novo, e acrescentou a letra. A mão estava firme, o que a surpreendeu, porque por dentro nada nela estava firme.

Depois parou e olhou para o próprio trabalho: os traços, os números, os nomes. Aquele guardanapo, ela percebeu, era a coisa mais perigosa da casa. Enquanto Viktor a chamava de "o ar que respira", enquanto Leonardo a somava e subtraía, enquanto a velha trazia café sem olhar para ela, Júlia estava fazendo a única coisa que nenhum deles esperava de uma entregadora trancada num quarto:

Estava tomando nota de cada um deles.

Eles a achavam um problema a ser resolvido até o fim da semana. Ela tinha começado a transformá-los num arquivo.

A questão (e Júlia segurou o lápis com mais força ao formulá-la) era o que ela faria com aquele arquivo antes que a semana de Viktor chegasse ao fim. E para isso ela ainda precisava de duas respostas que não tinha: por que Leonardo a queria viva, e o que, naquela casa grande demais para existir, valia mais do que um empresário desaparecido.

Ela esconderia o guardanapo melhor naquela noite.

Mas naquele instante, antes que pudesse, a chave girou na porta de novo. Fora de hora, fora da ronda, fora de tudo o que ela tinha acabado de mapear.

E não era a velha.

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