Capítulo 3
Era Leonardo.
Ele entrou sozinho, fechou a porta atrás de si, e Júlia teve tempo de enfiar o guardanapo embaixo da coxa antes que ele se virasse. O coração dela batia tão alto que parecia impossível que ele não ouvisse. Mas Leonardo não estava prestando atenção no corpo dela. Estava prestando atenção no rosto.
— Senta — ele disse, apontando a cama.
Ela já estava sentada. Sentou mais.
Leonardo puxou a única cadeira do quarto, virou o encosto para a frente e se acomodou com os braços cruzados sobre ele. De perto, à luz do dia, ele tinha olheiras. Um homem que não dormia. Júlia guardou isso também, sem saber ainda para quê.
— Você ouviu o Viktor hoje de manhã — ele disse. Não era pergunta.
— Eu não ouvi nada.
— Você ouviu. As paredes aqui são finas e o Viktor é alto. — Ele a observou. — Então você sabe o nome do homem da cadeira. E sabe que ele te chamou de problema. Isso te dá medo, e medo deixa as pessoas burras. Eu não preciso de você burra.
Júlia não respondeu. Tinha aprendido, com clientes difíceis e chefes piores, que o silêncio às vezes faz a outra pessoa preencher o vazio. Funcionou.
— Eu não preciso que você confie em mim — disse ela, enfim, escolhendo cada palavra. — Confiança é coisa que a gente não tem tempo de construir. Eu só preciso que você entenda que eu sou mais útil acordada do que apavorada. E aí estamos os dois do mesmo lado dessa conta, pelo menos.
Leonardo a observou, e por um instante ela achou que tinha falado demais. Mas ele só assentiu uma vez, mínimo, como quem registra que o objeto à frente é mais complicado do que o inventário dizia.
— Me diz o que você viu ontem — ele continuou. — Exatamente. Sem floreio.
— Eu vi cinco homens e uma cadeira — ela disse. — Vi um rosto que reconheci do jornal. Foi isso. Eu nem cheguei a entrar direito.
— E para quem você contou?
Ali estava. A pergunta de verdade, a que valia a vida dela. Júlia sentiu o terreno ficar fino sob cada palavra. Se dissesse "ninguém", virava descartável. Se dissesse "muita gente", virava uma fuga de informação que se resolve com uma morte. Ela precisava de uma terceira resposta, e precisava dela em menos de um segundo.
— Para a minha colega de quarto — ela disse. — Eu mando localização pra ela em toda corrida noturna. É uma regra que a gente tem, mulher que trabalha de entrega à noite. Ela sabe que a última parada de ontem foi aqui. Se eu não responder até amanhã, ela vai à polícia com o endereço.
Não era inteiramente verdade. A Cíntia sabia que ela trabalhava, não tinha localização nenhuma. Mas era plausível, e o plausível era a única arma que Júlia tinha. Ela observou o rosto de Leonardo enquanto a mentira pousava, e viu, por uma fração de segundo, algo se reorganizar atrás daqueles olhos. Ela tinha acertado em alguma coisa. Não sabia ainda no quê.
— Que horas você manda essa localização? — perguntou ele.
— Depende da corrida.
— E ontem você mandou.
— Mandei. — Era mentira, e Júlia sustentou a mentira do jeito que tinha aprendido a sustentar reclamações de cliente injusto: sem excesso de detalhe, sem pressa de convencer. Quem fala demais está mentindo; quem responde curto e olha nos olhos parece apenas cansado da pergunta. — Mandei antes de tocar a campainha. É a regra. Localização primeiro, entrega depois.
Leonardo não disse se acreditava. Mas Júlia notou que ele não voltou a pressionar aquele ponto, e arquivou também isso: o homem não a estava interrogando para arrancar uma confissão. Estava medindo se as histórias dela tinham costura. Ele não queria que ela quebrasse. Queria saber se ela era do tipo que quebrava. E ela acabara de mostrar que não era, o que talvez fosse a pior coisa a se mostrar, ou a melhor. Júlia ainda não sabia de que lado daquela conta a firmeza dela ia cair.
— Por que você me mantém viva? — perguntou Júlia, e a própria audácia da pergunta a assustou.
Leonardo levantou da cadeira. Por um momento ela achou que tinha ido longe demais. Mas ele só recolocou a cadeira no lugar, devagar, como quem encerra uma reunião.
— Faz suas perguntas em silêncio — ele disse, já de costas. — Vivem mais, as pessoas que fazem perguntas em silêncio.
A porta se fechou. A chave girou.
Júlia ficou olhando para o lugar onde ele estivera. Ele não tinha respondido. Mas também não tinha negado que havia uma resposta — e um homem que mata por precaução não deixa uma pergunta dessas no ar. Ele a deixou no ar de propósito. Como quem deixa um portão encostado.
Naquela noite, ela tirou a palmilha do tênis, dobrou o primeiro guardanapo até virar um quadrado mínimo, e o escondeu embaixo, contra a sola. Depois deitou e ficou acordada, montando e desmontando a única coisa que tinha certeza: Leonardo precisava dela viva por um motivo que ele não queria dizer. E motivos que não se dizem são sempre os mais valiosos.
Ela só não imaginava que, na manhã seguinte, ia descobrir um motivo bem maior do que o dela.
