Capítulo 2 O Homem sem nome
Os olhos dele continuavam abertos.
Fixos nos meus.
Por um instante, fui incapaz de me mover.
Havia alguma coisa naquele olhar.
Não era medo.
Nem confusão.
Era como se ele estivesse tentando entender quem eu era.
Respirei fundo.
O treinamento falou mais alto.
Afastei lentamente a mão que ainda sustentava sua cabeça e recuperei a postura profissional.
— Senhor... consegue me ouvir?
Ele não respondeu.
Continuou apenas me observando.
Peguei a pequena lanterna presa ao bolso do jaleco.
— Vou examinar seus olhos, tudo bem?
Nenhuma reação.
Apenas aquele olhar silencioso.
Iluminei primeiro um olho.
Depois o outro.
As pupilas reagiram perfeitamente.
Guardei a lanterna.
— Sabe onde está?
Demorou alguns segundos para responder.
Quando falou, sua voz saiu rouca, marcada pela sedação.
— Não.
Assenti discretamente.
Consciente.
Orientado.
Sem sinais aparentes de confusão.
— Está no Hospital Santa Helena. Foi trazido pela equipe de resgate há algumas horas.
Enquanto eu falava, percebi que sua atenção não estava exatamente em mim.
Ou melhor…
Não apenas em mim.
Os olhos percorriam o quarto com rapidez.
A porta.
A janela.
O monitor cardíaco.
A disposição dos móveis.
Era um movimento quase imperceptível, mas suficiente para chamar minha atenção.
Aquele homem não parecia um paciente tentando entender onde estava.
Parecia alguém acostumado a avaliar rotas de saída.
Aquilo me causou um estranho incômodo.
A maioria das pessoas acordava da sedação fazendo perguntas.
"O que aconteceu?"
"Vou ficar bem?"
"Quanto tempo fiquei desacordado?"
Ele não.
Parecia muito mais interessado no ambiente do que em si mesmo.
Cruzei os braços por um instante.
— O senhor se lembra do que aconteceu?
Dessa vez, respondeu imediatamente.
— Não.
Era uma resposta curta.
Objetiva.
Mas alguma coisa nela soava... ensaiada.
Não parecia falta de memória.
Parecia uma escolha.
Decidi não insistir.
Ainda era cedo para tirar conclusões.
Voltei a observar o monitor.
Os sinais permaneciam estáveis.
Estáveis até demais para alguém que perdera tanto sangue.
Sua pressão continuava excelente.
A frequência cardíaca permanecia firme.
Como médica, aquilo desafiava toda a lógica.
Talvez existisse uma explicação.
Eu apenas ainda não a conhecia.
Voltei a fitá-lo.
— O senhor foi baleado.
Nenhuma surpresa atravessou seu rosto.
Nem medo.
Nem curiosidade.
Era como se aquela informação apenas confirmasse algo que ele já sabia.
— A bala atravessou o tórax, mas, por muita sorte, não atingiu nenhum órgão vital. Mesmo assim, o senhor perdeu bastante sangue e precisará permanecer em observação.
Ele sustentou meu olhar por mais alguns segundos.
Então respirou fundo.
Sem dizer uma palavra, apoiou uma das mãos no colchão e tentou se levantar.
— Ei…
Aproximei-me imediatamente.
Com delicadeza, apoiei uma das mãos em seu ombro.
— Nem pense nisso.
Ele interrompeu o movimento.
Primeiro olhou para minha mão.
Depois voltou a encarar meu rosto.
Havia um brilho discreto de desafio em seus olhos.
— Costuma dar ordens aos seus pacientes?
Sorri, apesar do cansaço.
— Apenas aos que insistem em atrapalhar o meu trabalho.
Por um instante, tive a impressão de ver o canto de sua boca se curvar.
Quase um sorriso.
Pequeno demais para ter certeza.
Mas suficiente para transformar completamente a expressão séria daquele desconhecido.
E, por algum motivo que eu não conseguia explicar…
Aquilo me fez sorrir também.
Retirei lentamente a mão de seu ombro.
Antes de dizer qualquer coisa, conferi mais uma vez o monitor cardíaco.
Os batimentos permaneciam regulares.
A pressão continuava estável.
Era impressionante.
Ou preocupante.
Ainda não tinha decidido.
— Parece que o senhor gosta de desafiar estatísticas.
Ele arqueou discretamente uma sobrancelha.
— Isso é bom... ou ruim?
Sorri de lado.
— Como médica? Diria que é intrigante.
Fiz uma pequena pausa antes de completar:
— Como pessoa... ainda não decidi.
Pela primeira vez, o silêncio entre nós não pareceu estranho.
Era um silêncio curioso.
Como se ambos tentassem descobrir quem era a pessoa à sua frente sem fazer as perguntas certas.
Peguei a prancheta presa aos pés da cama.
— Preciso completar seu prontuário.
Ele apenas assentiu.
Posicionei a caneta sobre o papel.
— Seu nome?
Dessa vez, ele respondeu sem hesitar.
— Miguel.
Anotei cuidadosamente.
Levantei os olhos novamente.
— Miguel…
Esperei um instante.
— E o sobrenome?
Ele sustentou meu olhar.
Não parecia procurar uma resposta.
Parecia decidir se deveria dá-la.
Os segundos passaram em silêncio.
Então respondeu, com a mesma tranquilidade:
— Ainda não.
Franzi levemente a testa.
— Ainda não?
— Ainda não posso dizer.
Qualquer outro médico provavelmente insistiria.
Questionaria.
Pressionaria.
Eu apenas fechei a prancheta por um instante.
— Vai mudar alguma coisa no seu tratamento?
Pela primeira vez, uma expressão diferente atravessou seu rosto.
Surpresa.
— Não.
Assenti.
— Então pode guardar esse segredo por enquanto.
Por alguns segundos, o silêncio voltou a ocupar o quarto.
Mas já não era o mesmo.
Miguel continuava me observando.
Só que, agora, havia curiosidade em seu olhar.
Como se minha resposta não fosse a que ele esperava.
Depois de alguns instantes, ele perguntou:
— A senhora faz isso com frequência?
Ergui os olhos da prancheta.
— O quê?
— Respeitar o tempo das pessoas.
Sorri sem perceber.
— Aprendi que algumas respostas só aparecem quando estão prontas.
Fechei a prancheta.
— Forçá-las quase nunca funciona.
Ele desviou o olhar por um breve instante.
Não disse nada.
Mas tive a impressão de que minhas palavras haviam encontrado algum lugar dentro dele.
Voltei às anotações.
Quando terminei a última linha, a caneta escapou entre meus dedos.
— Ah…
Abaixei-me automaticamente para pegá-la.
No mesmo instante, senti o colar escorregar para fora do jaleco.
O pequeno pingente prateado balançou suavemente diante de mim, refletindo a luz branca do quarto.
Quando me levantei, encontrei Miguel completamente imóvel.
Seu olhar estava preso ao pingente.
A expressão serena desaparecera.
A respiração pareceu prender por um breve instante.
Era como se aquele pequeno símbolo tivesse despertado alguma coisa dentro dele.
Levei a mão ao peito por instinto.
— Aconteceu alguma coisa?
Ele piscou lentamente.
Como se estivesse voltando de muito longe.
Depois desviou os olhos do colar e voltou a me encarar.
— Não…
A resposta saiu baixa.
Quase automática.
Continuei observando-o por alguns segundos.
Havia algo diferente naquele homem.
Desde que abriu os olhos, manteve um controle quase absoluto sobre cada expressão.
Agora, pela primeira vez, eu tinha certeza de que alguma coisa o abalara.
Só não fazia ideia do quê.
Escondi novamente o colar sob o jaleco.
Percebi que seus olhos acompanharam o movimento.
Mas ele não fez nenhuma pergunta.
E eu também não.
Talvez fosse apenas curiosidade.
Ou talvez aquela madrugada estivesse longa demais para que eu começasse a procurar explicações onde ainda não existiam.
Voltei ao meu papel de médica.
— Seus exames foram melhores do que esperávamos. Mesmo assim, quero mantê-lo em observação pelas próximas horas.
Ele assentiu discretamente.
— Como a senhora disse…
Fez uma pequena pausa antes de completar:
— Não pretendo atrapalhar seu trabalho.
Sorri.
Dessa vez, sem perceber.
— Fico feliz em ouvir isso.
Afastei-me alguns passos em direção à porta.
— Pacientes teimosos costumam dar bastante trabalho.
O canto de sua boca voltou a se erguer.
Pequeno.
Contido.
Mas inegavelmente verdadeiro.
Por um instante, a expressão dura daquele desconhecido desapareceu.
E, por trás dela, consegui enxergar alguém completamente diferente.
Abri a porta.
Antes de sair, olhei para ele uma última vez.
Miguel continuava me observando.
Não como um médico observa um paciente.
Nem como um paciente observa sua médica.
Havia uma pergunta silenciosa naquele olhar.
Uma pergunta que nenhum de nós dois ainda era capaz de responder.
Saí do quarto e fechei a porta atrás de mim.
Sem imaginar…
Que aquele homem sem sobrenome já ocupava um espaço inesperado nos meus pensamentos.
