Capítulo 3 Ecos do passado

O cheiro de antisséptico foi a primeira coisa que percebi.

Abri os olhos lentamente.

A luz da manhã atravessava as persianas, criando faixas claras sobre o quarto.

A dor abaixo das costelas era constante.

Incômoda.

Mas suportável.

Levei a mão até o curativo.

Os pontos estavam firmes.

O trabalho era impecável.

Um pequeno sorriso surgiu sem que eu percebesse.

A médica realmente sabia o que fazia.

Clara Rossi.

O nome surgiu na minha mente antes mesmo que eu quisesse.

E junto dele, aqueles olhos verdes.

Firmes.

Atentos.

Serenos.

Era estranho.

Eu já havia encarado homens armados sem hesitar. Já havia enfrentado ameaças que fariam muitos perderem o controle.

Mas aquela mulher não demonstrou medo em nenhum momento.

Nem quando percebeu quem eu era.

Nem quando tentou me impedir de levantar.

Na verdade...

Parecia uma das poucas pessoas no mundo que se sentia confortável em me dar ordens.

Uma batida discreta interrompeu meus pensamentos.

— Posso entrar... ou pretende continuar fingindo que está dormindo?

Reconheci a voz imediatamente.

Um sorriso discreto surgiu.

— Entra.

A porta se abriu.

Enrico entrou carregando uma garrafa térmica de inox e dois copos.

Os cabelos grisalhos denunciavam os anos, mas seus passos continuavam firmes.

Quando me viu acordado, soltou um suspiro aliviado.

— Finalmente. Achei que fosse me dar mais alguns cabelos brancos.

— Acho que chegou tarde demais para evitar isso.

Ele bufou.

— Muito engraçado.

Serviu o café e me entregou um copo.

O aroma familiar tomou conta do quarto.

— Você continua salvando minhas manhãs.

— E continuo salvando sua alimentação também.

Ele se sentou na poltrona ao lado da cama.

Por alguns segundos, ficamos em silêncio.

Então sua expressão mudou.

— Você me assustou ontem, ragazzo.

Baixei o olhar para o café.

— Eu sei.

— Não. Você não sabe.

A voz dele ficou mais baixa.

— Porque estava desacordado.

Ele respirou fundo.

— Quando cheguei e vi você daquele jeito... achei que tinha perdido você.

Enrico raramente demonstrava sentimentos.

Por isso, quando demonstrava, eu sabia o peso.

Coloquei o copo sobre a mesa.

— Desculpe.

Ele balançou a cabeça.

— Não me peça desculpas. Apenas pare de colecionar cicatrizes.

Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.

— Daqui a pouco vou precisar de um mapa.

Soltei uma breve risada.

— Não prometo nada.

— Eu sabia.

Por alguns segundos, parecia uma manhã normal.

Mas aquela tranquilidade não durou.

Enrico mudou a postura.

Eu percebi imediatamente.

— O que descobriram?

Ele respirou fundo.

— A caminhonete usada na emboscada foi encontrada durante a madrugada.

— Onde?

— Em uma estrada secundária. Abandonada.

Assenti.

Eu já esperava.

— Placas falsas?

— Sim.

— Impressões?

— Nenhuma. Tudo limpo.

— E os homens?

Ele desviou o olhar.

— Ainda procurando.

O silêncio tomou conta do quarto.

Então fiz a pergunta que realmente importava.

— E as cápsulas?

Dessa vez, ele demorou alguns segundos para responder.

Pouco.

Mas o suficiente.

Eu conhecia Enrico.

Se ele hesitava, algo estava errado.

— Foi exatamente isso que me preocupou.

Ele retirou do bolso interno do paletó um pequeno envelope transparente.

Dentro havia uma cápsula.

Escura.

Quase negra.

Diferente de qualquer munição comum.

Peguei o envelope.

Girei a cápsula entre os dedos.

Uma sensação antiga percorreu meu corpo.

Não era medo.

Era reconhecimento.

— Onde encontrou isso?

— Próximo ao lugar onde você caiu.

Continuei encarando o objeto.

Aquela munição não deveria existir.

Não depois de tantos anos.

— Eu já vi isso antes.

Enrico franziu a testa.

— Sabe o que é?

Fechei a mão sobre o envelope.

Pela primeira vez desde que acordei, eu não tinha uma resposta pronta.

Algumas coisas do passado não desaparecem.

Apenas esperam para voltar.

— Sei.

Fiz uma pausa.

— E espero, do fundo do coração, estar errado.

O silêncio ficou no quarto.

Enrico sabia quando não deveria perguntar.

Era uma das razões pelas quais eu confiava nele.

O celular dele vibrou.

Ele olhou a tela e sua expressão mudou.

Quase imperceptivelmente.

Mas eu percebi.

— Preciso atender.

Assenti.

— Vá.

Antes de sair, apontou para mim.

— E nem pense em levantar dessa cama.

Ergui uma sobrancelha.

— Ainda acha que manda em mim?

— Alguém precisa tentar.

Ele saiu.

O quarto voltou ao silêncio.

Levei o café aos lábios.

Ainda estava quente.

Enrico nunca esquecia pequenos detalhes.

Poucas pessoas faziam isso.

A maioria via apenas o nome.

O poder.

A posição.

Poucos lembravam que, antes de tudo isso, ainda existia um homem.

Um homem que também sangrava.

Uma batida suave na porta interrompeu meus pensamentos.

— Posso entrar?

Reconheci a voz.

— Claro.

A porta se abriu.

Clara Rossi entrou com uma prancheta.

A presença dela mudou a atmosfera do quarto.

Ela entrava sem hesitação.

Sem receio.

Como se estivesse diante apenas de um paciente.

Seus olhos passaram por mim sentado na cama.

Um sorriso discreto surgiu.

— Bom dia.

Fez uma pausa.

— Vejo que resolveu seguir minhas recomendações.

Olhei para a cama.

Depois para ela.

— Ainda estou pensando se foi uma boa ideia.

Ela riu.

— Então continue pensando deitado.

— Os médicos daqui gostam de dar ordens.

— Apenas para pacientes teimosos.

— E como sabe que sou um?

Ela ergueu os olhos da prancheta.

— Porque tentou levantar poucas horas depois de levar um tiro.

Não havia como argumentar.

— Como está a dor?

A verdade era que estava pior do que eu demonstrava.

Mas não era algo que eu admitia.

— Melhor.

Ela me encarou.

Aquele olhar verde parecia enxergar além das minhas palavras.

— Isso significa "melhor"... ou significa "vou fingir que estou bem para sair daqui mais rápido"?

Pela primeira vez em muito tempo, alguém me provocava sem tentar me desafiar.

Apenas sendo ela.

— A senhora faz muitas perguntas.

— Faz parte da minha profissão.

— E se o paciente mentir?

Um pequeno sorriso surgiu em seu rosto.

— Eu descubro.

Fiquei em silêncio.

Interessante.

Ela realmente acreditava nisso.

Como se todos carregassem suas verdades na superfície.

Eu sabia que não.

Eu era a prova disso.

Ela examinou o curativo.

Depois pegou o estetoscópio.

— Respire fundo.

Obedeci.

O quarto ficou em silêncio.

Então aconteceu.

O pingente dela escapou por baixo do jaleco.

Meu olhar se prendeu imediatamente ao símbolo prateado.

Meu corpo inteiro ficou imóvel.

Aquele desenho.

Aquelas linhas.

Eu conhecia.

Mas de onde?

Clara percebeu meu olhar e levou a mão ao pescoço, escondendo o colar.

— Aconteceu alguma coisa?

Demorei alguns segundos.

— Posso fazer uma pergunta?

— Claro.

— Esse colar... de onde ele veio?

Os dedos dela tocaram o pingente por cima do tecido.

Um gesto protetor.

— É um colar de família.

A resposta foi simples.

Mas havia algo nela.

Como se aquela história tivesse páginas que ela ainda não conhecia.

— Nunca vi outro igual.

— Nem eu.

Ficamos em silêncio.

Então falei:

— Se eu fosse você... não tiraria esse colar do pescoço.

O olhar dela mudou.

Curioso.

Atento.

— Isso foi um conselho... ou um aviso?

Pela primeira vez naquela manhã, sorri.

— Talvez um pouco dos dois.

Ela guardou a prancheta.

— Vou fingir que não achei essa frase estranha.

— Provavelmente é a melhor decisão.

Ela caminhou até a porta.

Antes de sair, virou-se.

— Continue descansando.

Dessa vez...

Era uma ordem.

— Sim, doutora.

Ela sorriu e saiu.

A porta se fechou.

E, pela primeira vez em muitos anos, uma pergunta ocupava minha mente mais do que qualquer ameaça.

Quem era Clara Rossi?

E por que aquele colar parecia ter encontrado o caminho de volta até mim?

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