Capítulo 4 Perguntas sem Respostas

A porta do quarto 307 se fechou atrás de mim.

Por alguns segundos, permaneci parada no corredor.

A frase de Miguel ainda ecoava.

"Não tiraria esse colar do pescoço."

Não parecia um simples conselho.

Parecia um aviso.

Balancei a cabeça, afastando aquele pensamento.

Guardei a prancheta e voltei para minha rotina.

O Hospital Santa Helena já estava desperto. Enfermeiros com carrinhos de medicação. Médicos analisando exames. Monitores marcando o ritmo da vida.

Era naquele caos organizado que eu me sentia em casa.

— Doutora Rossi.

Um residente se aproximou com um prontuário.

— O senhor Romano insiste que já pode receber alta.

Sorri.

— E os exames dele insistem no contrário?

Ele riu.

— Exatamente.

— Então vamos ver quem está certo.

No quarto, encontrei o senhor Romano lendo jornal na cama, óculos na ponta do nariz.

— Bom dia, senhor Romano.

Ele virou a página sem olhar.

— Se eu fingir que estou dormindo, a senhora vai embora?

— Infelizmente esse truque já perdeu a graça.

Ele abaixou o jornal.

— Então invente outro motivo para me manter preso.

Peguei o prontuário.

— Pressão alta na madrugada, tontura ao levantar na tentativa de ir ao banheiro sozinho.

Ele fez careta.

— Aquela enfermeira exagerou.

— Ela impediu que o senhor caísse.

— Detalhes.

Coloquei o estetoscópio.

— Respire fundo.

Ele obedeceu resmungando em italiano.

Terminei a avaliação.

— Sua pressão melhorou.

O rosto dele se iluminou.

— Então posso ir embora?

— Se continuar assim, provavelmente amanhã.

O sorriso sumiu.

— Amanhã?

— Amanhã.

Ele cruzou os braços.

— Hospital é um lugar chato.

Rindo, respondi:

— Concordo. Mas prefiro um dia a mais aqui do que uma semana por causa de uma queda.

— A senhora sempre vence essas discussões?

Caminhei até a porta.

— Quase sempre.

— Isso não é justo.

— Eu também acho. Mas ajuda quando os exames ficam do meu lado.

Ele riu baixo.

— Está bem... amanhã.

Saí sorrindo. Mas assim que a porta fechou, a expressão voltou ao normal.

Cada quarto escondia uma história. Cada paciente, um mundo.

E entre tantos mundos...

Havia um homem que continuava ocupando meus pensamentos.

Miguel De Luca.

Franzi a testa. Aquilo me incomodava.

Não por pensar nele.

Mas por não entender por quê.

Ainda havia pacientes esperando. Não era hora de procurar respostas.

Terminei de assinar o último prontuário quando o cheiro de café invadiu a sala.

Sorri antes de levantar os olhos.

— Não acredito...

Lívia apareceu na porta com duas canecas fumegantes.

— Achei que você precisasse de reforço.

— Você está boa demais em adivinhar quando eu preciso de café.

— Depois de tantos plantões juntas, seria vergonhoso não saber.

Sentamos lado a lado. Aproveitamos o raro silêncio.

Lívia tomou um gole e me olhou de lado. Conhecia aquela expressão.

— O que foi?

— Nada...

— Lívia...

Ela sorriu, culpada.

— Só fiz uma coisinha.

Estreitei os olhos.

— Essa frase nunca termina bem.

Tirou o celular do bolso.

— O acompanhante do paciente misterioso apareceu pra completar o cadastro. Enquanto esperava a impressora... pesquisei o nome dele.

— Você pesquisou um paciente?

— Pesquisei um nome. É diferente.

— Continua sendo curiosidade.

— Curiosidade move o mundo.

Suspirei.

— E o que o mundo descobriu?

Ela desbloqueou o celular.

— Miguel De Luca. Italiano. Empresário. Dono de uma das maiores vinícolas do norte da Itália.

Deslizou a tela.

— Reportagens sobre vinhos, eventos beneficentes... uma entrevista antiga. E só.

Franzi a testa.

— Só?

Virou o celular.

— Nenhuma rede social. Nenhuma foto pessoal. Nada sobre família.

Olhei a tela. Era estranho. Hoje qualquer nome achava dezenas de coisas.

Miguel existia só o suficiente pra vender vinho.

Devolvi o celular.

— Talvez ele goste de privacidade.

— Ou tenha dinheiro pra comprar essa privacidade.

Sorri.

— Também é possível.

Ela apoiou o cotovelo na mesa.

— Você não ficou curiosa?

Pensei antes de responder.

— Como médica... um pouco.

Levei a caneca aos lábios.

— Não por causa da fortuna. Mas porque alguém chega baleado, se recupera rápido demais... e parece mais preocupado em observar tudo do que em perguntar sobre a própria saúde.

Lívia sorriu.

— Eu sabia que você estava pensando nele.

Apontei a caneca.

— Eu estava pensando no caso.

Nós duas rimos.

O telefone tocou. Lívia atendeu.

— Enfermagem... Sim... Entendido.

Desligou.

— Emergência na ala clínica.

Terminei o café de um gole.

— Você sempre aparece com café nas horas erradas.

— Pelo menos a intenção é boa.

— Isso eu nunca duvidei.

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Quando o plantão acabou, o cansaço pesava nos ombros.

Mas ainda tinha um último paciente.

Como nos últimos dias, deixei o quarto 307 por último.

Bati duas vezes. Nenhuma resposta.

Girei a maçaneta. O quarto estava vazio.

A cama arrumada. O soro retirado.

Meu coração acelerou.

— Senhor De Luca?

Silêncio.

— Está me procurando, doutora?

Virei-me. Miguel estava junto à janela. Camisa social escura, ajustando os punhos. O paletó na poltrona.

Já não parecia paciente. A postura firme havia voltado.

Soltei o ar que prendia.

— O senhor quase me deu um susto.

— Achei que médicos não se assustassem.

— Não quando os pacientes ficam onde devem.

Aproximei-me.

— Recebeu autorização pra ficar de pé?

— Ainda não.

— Então por que está vestido?

— Não gosto de aventais.

Tentei manter a seriedade.

— O senhor gosta de dificultar meu trabalho.

— Achei que diria que sou seu pior paciente.

Afastei a camisa pra examinar o curativo. Uma pequena mancha vermelha.

Suspirei.

— Eu avisei.

Ele olhou pro curativo e depois pra mim. Um sorriso discreto.

— Acho que a senhora venceu.

Troquei a gaze. Tudo em ordem.

A porta abriu. Enrico entrou com uma pasta.

— Doutora Rossi. Espero não estar interrompendo.

— De forma alguma.

— A papelada da alta está pronta.

Fechei a prancheta.

— Só me resta reforçar: nada de esforço pelos próximos dias.

Olhei direto pra Miguel.

— Seria bom seguir as recomendações.

Ele sustentou meu olhar.

— Vou fazer o possível.

— Espero que o seu "possível" seja suficiente.

Os três sorrimos.

Caminhei até a porta.

— Foi um prazer, senhor De Luca. Boa recuperação.

— Doutora.

Voltei-me.

Ele me observava com a mesma serenidade.

— Obrigado. Não apenas por salvar minha vida...

...Mas por me lembrar que ainda existem pessoas que fazem pelo motivo certo.

Não encontrei resposta. Sorri.

— Cuide-se.

Saí sem olhar para trás.

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Assim que a porta fechou, Enrico olhou pra Miguel.

— Está pensando no colar?

Miguel ficou em silêncio.

— Achei que fosse só isso.

Vestiu o paletó.

— Mas não é.

— O colar despertou minha atenção — fez uma pausa. — Mas a dona dele... ela é diferente.

— Diferente como?

— Não quis saber quem eu era. Não tentou me impressionar. Não teve medo. Apenas fez o trabalho dela.

Enrico cruzou os braços.

— Isso o incomodou?

Miguel balançou a cabeça.

— Não. Me deixou curioso.

Olhou pra porta por onde ela saiu.

— Descubra quem é a doutora Clara Rossi.

Enrico assentiu.

— Acha que tem ligação com a emboscada?

Demorei alguns segundos pra responder.

— Não sei. Mas quero descobrir por que alguém como ela carrega aquele colar.

Abriu a porta.

— E, principalmente... por que a sensação de conhecê-la parece muito mais antiga do que deveria.

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