Capítulo 5 O caminho de Casa
O sedã preto deixou lentamente o estacionamento do Hospital Santa Helena.
Apoiei a cabeça no banco e fechei os olhos. O movimento do carro fazia o ferimento sob as costelas protestar a cada irregularidade do asfalto.
Não era insuportável.
Mas estava ali. Lembrando a cada quilômetro que alguém quase conseguira me matar.
Ao meu lado, Enrico fingia observar a cidade. Eu o conhecia bem demais.
Desde que saímos do hospital, ele me lançava olhares discretos, certificando-se de que eu estava bem.
Conhecia cada uma das minhas cicatrizes.
E sabia quando eu escondia a dor.
As ruas de Castelverde di Valente deslizavam pela janela. Casais nas calçadas de pedra. Turistas na praça central. O aroma de pão saía das cafeterias.
Era uma tarde bonita. Tranquila.
Ninguém imaginava que horas antes um homem chegara ao hospital entre a vida e a morte.
Fechei os olhos de novo.
"...É um colar de família."
A voz da doutora Clara Rossi voltou à minha mente.
Calma.
Segura.
Franzi a testa.
Era apenas um colar.
Então por que aquele pingente de prata insistia em ocupar meus pensamentos?
— Está pensando nela?
Abri os olhos e o encarei.
— Em quem?
Ele sorriu de canto.
— Na doutora.
Soltei um suspiro.
— Estou pensando no colar.
— Claro...
Não discuti.
— Está sentindo muita dor? — ele perguntou.
— Já senti piores.
— Você sabe que isso não responde.
— E você sabe que não vai conseguir outra resposta.
Ele sorriu, resignado.
Depois de tantos anos, aprendera que insistir raramente mudava minha opinião.
— Se abrir esse curativo outra vez...
Olhei pra ele.
— Desta vez não vou levá-lo ao hospital.
Arqueei uma sobrancelha.
— Não?
— Vou chamar a doutora Rossi. Ela parece ser a única capaz de fazê-lo obedecer.
Permaneci sério.
Depois, apesar de mim mesmo, sorri.
Curto. Mas suficiente pra fazê-lo rir.
— Essa foi baixa.
— Funcionou.
Desviei o olhar pra estrada.
— Não se acostume.
— Tarde demais.
O silêncio voltou. Não era desconfortável.
Era o silêncio de quem compartilha uma vida inteira.
O centro histórico ficou para trás. As construções antigas deram lugar às colinas.
Logo surgiram os vinhedos. Fileiras alinhadas acompanhavam o relevo, formando um tapete verde.
A chuva da madrugada ainda deixava no ar o perfume de terra molhada.
Respirei fundo.
Casa.
Minutos depois, os grandes portões de ferro apareceram.
No centro, o brasão da família De Luca.
Dois lobos protegiam um antigo escudo.
Abaixo, uma inscrição em latim.
Fortitudo et Fides.
Força e Fidelidade.
Os portões se abriram antes que reduzíssemos a velocidade.
O carro percorreu a estrada ladeada por ciprestes.
Ao longe, a Villa De Luca surgiu entre os vinhedos.
Imponente. Elegante. Construída em pedra clara, parecia desafiar o tempo.
Mais do que uma residência.
Era o coração da família De Luca.
Observei em silêncio. Sempre gostei de voltar.
Naquele dia, a sensação era diferente.
Quando o carro fez a última curva, meus olhos foram para além dos vinhedos.
A floresta.
Densa.
Antiga.
A Reserva de Monte Nero cobria toda a encosta atrás da Villa.Mesmo sob a luz do dia, a mata parecia envolta em sombras.
Os moradores inventavam histórias. Uivos à noite. Figuras entre as árvores.
Um leve sorriso surgiu.
Os homens criavam lendas pra explicar o que não compreendiam.
E às vezes chegavam perto demais da verdade.
O sedã parou diante da escadaria.
Um funcionário abriu a porta.
— Bem-vindo de volta, senhor.
Assenti.
Ao colocar os pés no chão, uma pontada atravessou meu lado.
Quase imperceptível.
Quase.
Endireitei a postura antes que alguém notasse.
Enrico notou.
Como sempre.
Mas desta vez não disse nada.
Apenas caminhou ao meu lado.
Atravessei a porta principal.
O aroma de madeira antiga se misturava ao café recém-passado.
O hall estava igual. Piso de mármore refletindo a luz das janelas.
Retratos dos antigos De Luca observavam quem cruzava o salão há gerações.
Por um instante, tudo parecia como deveria.
A tranquilidade durou pouco.
Passos apressados ecoaram.
Um dos seguranças surgiu quase sem fôlego.
— Senhor De Luca.
Voltei-me.
— Fale.
Ele olhou rápido pra Enrico.
— Encontramos um dos homens da emboscada.
O salão silenciou.
— Onde?
— Próximo ao antigo moinho, a alguns quilômetros do ataque.
— Vivo?
A hesitação respondeu antes das palavras.
— Não, senhor. Apenas o corpo.
Enrico soltou o ar.
Eu permaneci imóvel.
— Como morreu?
— Um disparo na cabeça. À queima-roupa. Execução.
Caminhei até a janela. Lá fora o vento balançava as videiras.
Quem organizara a emboscada não queria deixar rastros.
Não bastava tentar me matar. Eliminava quem pudesse levar até ele.
— Documentos?
— Nada.
— Celular?
— Também não.
Assenti. Tudo planejado. Cada detalhe.
— E o veículo?
— Roubado. Placas frias. Foi incendiado depois de abandonado.
Fechei os olhos.
Não havia improviso. Havia método. Precisão.
Voltei-me pro segurança.
— Cometeram um erro.
Ele franziu a testa.
— Qual, senhor?
Minha voz saiu baixa.
— Eu sobrevivi.
Ninguém respondeu. Não precisava.
Enquanto eu respirasse, a caçada começava.
— Reúna todos os chefes de segurança. Reforcem cada acesso à Villa. Revisem as câmeras. Falem com nossos contatos.
Pausa breve.
— Alguém viu alguma coisa. Sempre há.
— Sim, senhor.
Ele saiu.
Enrico aproximou-se.
— Está pensando nos Belladonna?
— Ainda não.
Ele estranhou.
— Ainda não?
— Se fossem eles, fariam questão que eu soubesse.
Enrico calou-se.
Era verdade.
Os Belladonna transformavam medo em mensagem.
Aquilo era diferente. Silencioso. Cirúrgico.
Olhei pra floresta além dos vinhedos.
Havia uma peça fora do lugar. Só não sabia qual.
Passos de novo.
Enrico voltou com um estojo de madeira escura.
Colocou sobre a mesa. Reconheci.
Abri a tampa.
Duas cápsulas repousavam ali.
Peguei uma. Girei entre os dedos.
O metal absorvia a luz. Escuro. Opaco.
Inconfundível.
Enrico observava.
— Tem certeza? — perguntou.
Continuei olhando.
— Infelizmente.
Fechei a mão.
— Achei que toda a obsidiana negra tivesse sido destruída.
Ele franziu a testa. Aquelas palavras não significavam nada pra ele.
— Isso muda alguma coisa?
Ergui os olhos.
— Muda tudo.
O silêncio voltou.
Uma batida firme na porta.
— Entre.
Outro segurança.
— Senhor... os chefes já chegaram.
Fechei o estojo. Guardei a cápsula no bolso interno.
Respirei fundo.
Quando falei, minha voz já não era do homem que saíra do hospital.
Era a voz do chefe da família De Luca.
Fria.
Segura.
— A partir de agora, ninguém entra ou sai da Villa sem minha autorização.
— Sim, senhor.
— Avise nossos aliados. Sem rumores. Sem especulações.
Olhei fixo nele.
— Digam apenas que alguém iniciou uma guerra.
Pausa.
— E cometeu o maior erro da própria vida.
— Será feito.
Assim que ele saiu, Enrico se aproximou.
— Acha que os outros estão preparados?
Caminhei até a porta dupla da sala de reuniões. Segurei a maçaneta.
Fiquei imóvel por um instante.
— Eles não precisam estar.
Empurrei a porta.
Do outro lado, os principais homens da família De Luca levantaram-se.
O silêncio tomou a sala.
Todos aguardavam.
Porque sabiam.
Quando eu convocava uma reunião assim...
A paz havia terminado.
