Capítulo 1 CAPÍTULO 1
NIKOLAI VOLKOV
A igreja fedia a pecado para mim.
Não era pior do que os meus. Não pelo que já fiz — mas pelo que estou prestes a fazer.
O silêncio ali dentro era denso, quase sufocante. Permaneci parado à porta por alguns segundos, respirando fundo antes de entrar.
Estou numa bela enrascada.
— Senhor, precisa entrar. A noiva está chegando.
Apertei o maxilar, sentindo a irritação ferver.
— Não tenho pressa em me casar com uma mulher deformada — respondi, finalmente, andando pelo corredor.
No altar, até o padre evitava meu olhar. Os bancos estavam quase vazios. Dezesseis testemunhas apenas. Dezesseis cúmplices do meu assassinato social.
Entre todas, o olhar mais cortante era o do meu pai.
Ivan Arkady Volkov. O Velho Urso. O homem que me moldou a ferro e fogo, cujas leis carrego tatuadas na pele e na alma. Em seus olhos havia uma única palavra: decepção.
Era por respeito a ele — e pela tradição que nos mantém acorrentados à Bratva — que eu ainda estava ali. O último fio que me impedia de incendiar aquela igreja inteira.
Não sustentei seu olhar por muito tempo.
Meu foco se prendeu imediatamente às três figuras sentadas na primeira fileira.
Elizabeth Harrington, com o sorriso plastificado de sempre. Richard, o velho, com olhos de carcereiro — o homem que entregou a própria filha a um lobo por pura ambição. E Victoria. A arquiteta dessa armadilha. Seu sorriso fino era puro veneno, injetado direto na veia.
— Cobra venenosa… — murmurei para mim mesmo.
Uma trindade maldita.
E então, no fim do corredor que levava ao meu inferno particular, estava ela.
Angeline Harrington.
Imóvel sob um véu branco tão denso que parecia querer devorá-la. O que deveria simbolizar pureza, para mim não passava do pano que embrulha uma mercadoria danificada.
Meu destino havia sido amarrado àquela cicatriz, e eu não sabia o que desprezava mais: a família que me impôs isso ou o reflexo patético de quem eu estava me tornando.
O padre começou a cerimônia:
— Estamos reunidos hoje para celebrar a sagrada união…
— Pule a encenação, padre — interrompi, sem paciência. — Vá direto aos votos. Ninguém aqui veio por fé.
Alguns murmúrios se espalharam pelo recinto. O padre se calou por um instante. Os ombros da noiva estremeceram levemente sob o véu.
Então, uma voz suave escapou debaixo do tecido:
— Sim… por favor, vamos em frente.
A calma daquela frase me desconcertou por um segundo. Mais resignação do que medo.
Ignorei.
Constrangido, o padre acelerou o rito. Meus votos saíram mortos, mecânicos, como se outra pessoa falasse por mim.
Chegou o momento que todos aguardavam em silêncio tenso.
— Pode levantar o véu da noiva.
Dei um passo à frente. Ergui as mãos e segurei o tecido fino, levantando-o.
A cicatriz foi a primeira coisa que vi.
Uma linha irregular, rosada, descendo da têmpora direita até o canto da boca. Uma marca de violência gravada na pele pálida. Meu cérebro, intoxicado pela raiva, registrou apenas isso: falha. Deformidade. Noiva imposta.
Não vi o verde opaco dos olhos marejados. Não percebi o tremor sutil do lábio inferior. Enxerguei apenas a imperfeição que selava minha derrota.
Baixei o véu com um gesto brusco, cortando a cena. A visão me revirou o estômago.
O padre, atrapalhado, concluiu:
— Pelo poder que me foi concedido… eu os declaro marido e mulher.
As palavras caíram secas, como pedras em um poço vazio.
Marido e mulher.
Carcereiro e prisioneira.
Mal cruzamos a porta da igreja, Richard se aproximou, sorrindo, a mão estendida.
— Parabéns, Nikolai. Que seja uma união…
— Guarde suas falsidades, Richard — cortei, encarando sua mão como se fosse lixo. — E saia da minha frente antes que eu mostre quem realmente sou.
O sorriso dele congelou.
Passei por ele sem dizer mais nada, focado no carro que me levaria à mansão Harrington. Onde, enfim, começaria a desmontar a fraude deles.
Era só uma questão de tempo.
A caminho da mansão, a minha mente já trabalhava a mil, calculando cada movimento, que faria para expor aquela fraude. Até que, olhando de lado, um sorriso cruel e involuntário curvou o canto da minha boca.
Lá estava ela. Minha noiva deformada. Encolhida no canto oposto da limusine, tentando ocupar o mínimo de espaço possível. O véu ainda cobria o rosto, um último refúgio patético.
A ironia era tão cortante que eu precisei dar voz a ela.
— Por que o medo, senhora Valkov? — minha voz soou baixa e áspera dentro do carro. — Não foi você mesma quem procurou entrar na caverna do lobo?
Ela estremeceu, mas não respondeu. O silêncio dela era mais irritante que qualquer resposta. Antes que eu pudesse cutucar mais o monstrinho, o carro parou.
“Chegamos”. Faria toda a sua família pagar, em breve, a começar por ela. Ao avistar os portões da mansão se abrindo, os flashes em minha mente voltaram como a força de um soco…
A FESTA DA BRATVA, HÁ DOIS ANOS ATRÁS…
A luz baixa da festa, o som abafado de jazz caro, o cheiro de poder e perfume no ar. E então, ela. Victoria Harrington. Loira, esbelta, vestindo um vestido que custava mais que o carro da maioria dos homens. E seus olhos azuis… prometiam tudo e não significavam nada.
Foi ela quem me puxou para o jardim. A audácia quase me fez rir, quase.
— Não podemos ser observados, senhor Volkov — sussurrou, seus dedos escorregando pelo meu braço antes de se prenderem à minha nuca.
E então, seus lábios, encontraram os meus. O beijo ousado, carregado de uma sensualidade treinada que sabia provocar uma resposta. E meu corpo respondeu, é claro que respondeu. Qualquer homem com sangue nas veias teria cedido.
Mas eu não sou movido apenas por desejo. Sou movido por cálculo.
Ela se afastou um centímetro, ofegante, um sorriso triunfante de vencedora nos lábios.
— Acho que não é tão frio quanto dizem, pois aparentemente gostou do meu beijo. Afinal, ficou tão calado, mas…— Sua mão desceu do meu peito, um toque deliberadamente lento e provocador. — ...Outro homem já teria me tomado aqui mesmo, no jardim.
O desejo que fervia em mim congelou instantaneamente, transformado em desprezo. "Tomado?". Como se eu fosse mais um cachorro faminto seguindo uma migalha que ela condescendia em jogar.
Afastei-a com uma frieza que fez o sorriso dela esmorecer. Minha voz saiu baixa, e cortante.
— Não confunda meu silêncio com fraqueza, senhorita Harrington. E não pense que sua oferta é algo que eu deseje.
Seus olhos arregalaram. A arrogância deu lugar a um brilho de incredulidade.
— Eu não quero você — continuei, cada palavra uma faca cravada no ego inflado dela. — Nem agora. Nem nunca. Guarde seus beijos para alguém que goste de mulheres fáceis.
As lágrimas vieram rápidas, mas eram lágrimas de orgulho ferido, não de dor. E não me comoveu. Eu não me comovo.
Virei as costas e deixei-a lá, tremendo de raiva e humilhação. Naquele momento, achei que era o fim. Um capítulo fechado. Um insulto pequeno que uma garota mimada superaria.
