Capítulo 2 CAPÍTULO 2
NIKOLAI VOLKOV
ATUALMENTE…
“Idiota”. Agora eu sabia que nenhum Harrington esquece uma ofensa. E Victoria, com sua falsa beleza etérea e seu orgulho doentio, era a pior de todos. Aquele não foi um simples "não". Para ela, foi uma declaração de guerra. E hoje, ao ser forçado a casar com a irmã que ela despreza, vejo com clareza absoluta: esta é a sua vingança.
Ela não podia me ter, então me amarra a uma "deformada" para me punir. Torna-me marido da mulher que é um símbolo de tudo que ela considera inferior, só para me lembrar, todos os dias, que no fim quem foi rejeitado foi eu por ela.
“Maldita ”. A palavra ecoa na minha mente agora, entrando no hall da mansão. Cerro os punhos até os nós dos dedos ficarem brancos.
Então a lembrança do que aconteceu a noite passada, substituindo a visão dos portões.
A FESTA DOS 23 ANOS de VICTORIA…
O convite foi uma armadilha tão evidente que até um recruta verde da Bratva teria desconfiado. Mas a minha arrogância – a mesma que me fez acreditar que um "não" seria suficiente – foi maior. Aceitei.
Agora sei que era tudo um plano, um plano de aniquilação social, arquitetado com uma crueldade que até eu, em meus piores dias, admiraria.
Os Harrington tinham dois problemas para resolver. O primeiro era a obsessão doentia de Victoria por vingança. O segundo era o "fardo" que era a filha mais velha, Angeline – a jovem de rosto marcado que manchava a imagem "perfeita" que eles tanto cultivavam. Uma vergonha que eles escondiam nos cantos mais escuros da mansão.
A ambição deles era dupla, e genial em sua perversidade: livrar-se de Angeline, casando-a com um homem influente que, uma vez ligado a eles pelo sangue de um casamento, traria seu poder para o clã. E, ao mesmo tempo, dar a Victoria e seus pais a vingança sádica perfeita: forçar Nikolai Volkov com uma "deformada" que eles próprios trouxeram ao mundo e que criaram como zero a esquerda.
Na festa, Victoria me cumprimentou com um sorriso doce como um veneno, seus olhos azuis gelados. Ofereceu-me uma taça pedindo um brinde que eu idiota, bebi.
A droga era potente, incolor, inodora. Não demorou para o mundo começar a girar, as luzes se fundirem em manchas borradas. Senti o chão ceder sob meus pés.
— Você não parece bem, Nikolai — ouvi a voz de Victoria, fingindo preocupação. — Deixe-me levá-lo para um quarto para você descansar.
Minha visão já estava escurecendo. Senti seus braços me envolvendo, me guiando. O último pensamento coerente que tive foi de puro desprezo por minha própria fraqueza. Depois, apenas escuridão…
AO AMANHECER…
A consciência voltou como um golpe, brutal e repentino. A minha cabeça latejando, enquanto o mundo girava ao meu redor.
Meus olhos se abriram para um quarto desconhecido. E então, senti — o calor de um corpo suave contra o meu. O peso de um braço alheio sobre o lençol.
O que vi fez o meu sangue gelar instantaneamente. Uma mulher. Ela estava de costas para mim e completamente despida, seus ombros eram finos, e a pele delicada e pálida. O cabelo escuro esparramava-se no travesseiro.
Meu instinto, ainda embotado pela droga, foi de alerta. “Quem diabos era aquela?” Como se sentisse o peso do meu olhar, ela se moveu. Um suspiro, um tremor. E então, ela se virou.
Naquele momento senti meu mundo parar, em seu rosto, uma enorme cicatriz.
Uma linha violenta que serpenteava da têmpora até a boca, uma marca de brutalidade eternizada em traços delicados. Era uma jovem. E eu não a conhecia. Não fazia ideia de quem era ela.
Nossos olhos se encontraram. Os dela, verdes, se arregalaram de horror. Ela abriu a boca para gritar.
— Cale-se maldita! — rosnei, minha voz um rugido áspero que ecoou no quarto silencioso.
O susto a fez emudecer, mas não a acalmou. Ela se encolheu, puxando os lençóis para cobrir o corpo nu, um tremor incontrolável percorrendo-a.
— Quem é você? — sussurrou, a voz um fio de horror. — O que está fazendo na minha cama? Nu?
Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu com violência.
E lá estavam eles. Victoria na frente, com um sorriso vingativo. Atrás, os Harrington — Richard com seu olhar de falsa decepção, Elizabeth com a mão no peito, fingindo choque.
— Meu Deus! — Elizabeth exclamou, a sua voz rra i puro teatro — Nikolai… você… você desonrou minha filha! E a minha pobre filha Angeline foi… criada em um internato!
O velho Richard avançou, seu olhar de aço perfurando-me. — Você corrompeu a pureza dela sob o meu teto! Na nossa tradição, você sabe o preço. Vai assumir e se casar com ela. Um homem do seu posto deve dar o exemplo!
E então, Victoria. Seus olhos azuis brilhavam com um ódio triunfante enquanto percorriam a cena: eu, ainda atordoado na cama, e a irmã, a "deformada", tremendo como uma folha.
Ela riu, um som gelado. — Quem diria, Nikolai? Resistiu a mim por ter gostos tão… peculiares. Gosta do circo dos horrores, é? — Seus olhos se voltaram para a irmã. — E você, irmãzinha? Criada como santa, e afinal… é uma vadia.
— Não! — a garota gritou, desesperada. — Isso não é verdade! Nunca dormi com ele, nem o conheço! Por que ele está no meu quarto?
Ela chorava, tremia, parecia à beira de um ataque. E eu… eu quase caí naquela atuação. Quase.
Mas não era tão idiota. O óbvio estava bem ali diante dos meus olhos. A peça final daquela maldita armadilha, era justamente, a falsa inocência, o desespero coreografado. Ela estava no jogo, assim como todos os Harrington. Foram cúmplices para me prender a essa… coisa.
Não era um erro. Era uma armadilha, perfeita e sádica.
O rugido do motor da limusine ao desligar me arranca do passado. Estou de volta. Diante da minha nova prisão. Com a mulher que foi o instrumento da minha queda.
Olho para Angeline, ainda encolhida em seu canto. O véu é um símbolo de tudo isso: uma cobertura para uma verdade nojenta. E eu fui o tolo que caiu no conto de fadas podre deles.
Mal cruzei a soleira do salão principal da mansão, puxando Angeline como um fardo ao meu lado, quando me deparei com aquela cena grotesca. Meu pai, Ivan Volkov, e os outros senhores do clã, assim como os Harrington, já nos esperavam.
Ao olhar para o rosto triunfante de Victoria e dos seus pais, meu sangue ferveu, mas me controlei.
O olhar gélido do meu pai ainda me lembrava da maldita vergonha que senti quando mais tarde, quando cheguei a mansão Volkov e tive que contar a meu pai na seu escritório.
— Foi uma armadilha, pai — expliquei, minha voz carregada de uma raiva contida. — Eles me drogaram. Puseram aquela mulher na minha cama.
Ivan Volkov, o Velho Urso, olhou para mim, seu rosto marcado por rugas e desconfiança. O silêncio dele era mais assustador que qualquer gritaria.
— E você caiu, filho — ele finalmente disse, sua voz um rosnado baixo. — Caiu como um novato. Agora está preso a essa maldita família está preso os… Harrington.
— Estou preso a nada — retruquei, meus olhos fixos nos dele. — O casamento é só um pedaço de papel. E vai ser a desculpa perfeita para acabar com eles.
Ele estudou meu rosto por um longo momento, a decepção nos seus olhos lentamente dando lugar a um brilho de resignação sombria.
— Espero que saiba o que está fazendo, Nikolai — ele resmungou, virando-se para a janela. — Você é o Pakhan agora. Suas decisões afetam a todos nós.
— Sei muito bem o que faço, pai — respondi, a imagem de Victoria sorrindo queimando na minha mente. — Sei perfeitamente.
E sabia. Organizei aquele casamento idiota eu mesmo. Para eles, era a minha rendição. Para mim, era a primeira pá cavando a cova deles, ninguém brinca com Nikolai Volkov.
