Capítulo 5 CAPÍTULO 5
NIKOLAI VOLKOV
Após ter finalmente provado a minha inocência, não só aos Harrington, mas a todos ali , voltei ao quarto onde Angeline ainda estava encolhida na cama, um farrapo de dor e lágrimas.
— Vamos agora! — ordenei, ignorando o choro convulsivo que sacudia seus ombros.
Ela tentou se levantar, mas um gemido de dor — que me deu um prazer sádico e fugaz — escapou de seus lábios, e suas pernas fraquejaram. Sem gentileza alguma, peguei um roupão que estava sobre uma cadeira e a envolvi. Depois, sem hesitar, a ergui nos braços. Ela era leve demais, um peso insignificante e quebrado contra meu peito.

A carreguei escada abaixo, passando por todos os presentes como se eles fossem fantasmas. Nenhum dos Harrington ousou dizer uma palavra. Victoria apenas sorriu, seu veneno final.
Dentro do carro enquanto planejava o que fazer, ela permaneceu em silêncio, mas seus soluços abafados sob o véu eram a trilha sonora da minha fúria. O ódio dentro de mim não arrefecia; crescia, alimentado pela impotência do momento.
"Se ela sabia quem eu sou, por que aceitou participar desse maldito circo? Ela, assim como os demais, merece cada gota do meu ódio. Vou me encarregar de fazê-la pagar também."
Foi quando meu telefone tocou. A voz do meu homem de confiança do outro lado da linha me trouxe notícias que transformaram meu ódio em algo mais negro. Desliguei e soltei uma risada seca, sem humor.
— O que seus pais ainda pretendem fazer? Já não basta o nosso "maravilhoso casamento", querida? — minha voz era um chicote no silêncio do carro. — Ainda querem cavar a cova mais fundo.
Angeline ficou tensa. O choro parou por um instante, substituído por um silêncio carregado de medo.
— Como assim, senhor? — ela sussurrou, a voz um fio cortado pelo terror.
— Meus homens estão de olho neles — expliquei, cada palavra uma facada. — E os viram seguindo até a toca de Ivan Chernov. Seu pai e sua mãe, querida, não se contentaram em me prender a você. Agora correm para se aliar ao meu inimigo mortal, para tentar se proteger da minha fúria. É uma audácia… admirável.
— Senhor, eu… eu não sei, eu… — ela gaguejou, perdida.
— Cale a boca. Canso da sua voz — cortei, e ela se calou instantaneamente. — Dei uma chance a eles para tentar fugir. Poderia acabar com tudo ali mesmo. Mas não… queria ver até onde ainda iria a audácia deles. E, pelo visto, são audaciosos demais. Vou dar tempo ao tempo.
Fiz uma pausa, deixando o peso das palavras pairar no ar. Voltei-me ligeiramente para ela, embora ela ainda estivesse coberta.
— Quanto a você… já sei o que vou fazer.
Nesse momento, um tremor violento percorreu o corpo dela. Um tremor de medo puro, profundo. E eu… confesso que gostei muito, muito mesmo disso. Angeline, para minha satisfação, era apenas um peso morto. Livrar-me dela seria bem mais fácil do que eu pensara.
Levei-a para uma mansão afastada. Não era um lugar excessivamente decadente ou em ruínas, mas era frio, sombrio e sem qualquer beleza. Era exatamente o que eu pretendia que fosse para ela: uma prisão, não um lar.
Tão feia quanto seu rosto: uma fortaleza antiga e sombria, de pedras escuras. Dentro, o ar era frio e úmido e o silêncio era absoluto, quebrado apenas por nossos passos ecoando nos corredores vazios. Móveis pesados e empoeirados, tapeçarias desbotadas com cenas de caça que pareciam sádicas naquele contexto. Este não era um lugar para viver; era um lugar para desaparecer. Era exatamente isso que eu queria. Usava tal lugar para interrogatórios, para fazer inimigos esquecerem a luz do sol.
Levei-a até um quarto no final de um corredor escuro. O aposento era vasto, mas vazio. Uma cama de ferro com um colchão fino, uma cômoda de madeira lascada, uma janela pequena e suja que deixava entrar uma luz mortiça. O clima era pesado, escuro, e gelado. Tão decadente quanto o resto.
— Este é o seu quarto — declarei, minha voz ecoando na penumbra. — Você não sairá daqui sem minha permissão.
Eu pretendia deixá-la ali, naquele exato momento. A equipe mínima que a manteria no lugar — um cozinheiro surdo e um guarda com olhos mortos — era mais de carcereiros do que empregados. Ela estaria completamente só até eu decidir o que faria no final com ela.
Mas antes de partir, antes de virar as costas e deixar a porta se fechar sobre ela, algo aconteceu.
Angeline, ainda envolta no roupão, cambaleou para longe de mim e encostou-se na cômoda, como se precisasse de algo sólido para se segurar. Respirou fundo, um som trêmulo e rouco. E então, lentamente, suas mãos se levantaram até o rosto. Com movimentos hesitantes, ela pegou a borda do véu — aquele símbolo de nossa farsa, de sua vergonha, de minha humilhação — e puxou.
O tecido deslizou, caindo aos seus pés em um leve ruído de seda.
E pela primeira vez, sem barreiras, sob a luz pálida e cruel do luar que entrava pela janela suja daquele quarto-prisão, eu vi novamente o rosto de Angeline Harrington. A cicatriz estava lá, sim, uma linha rosa e irregular contra a pele pálida. Mas desta vez, sem a plateia, sem a pressão, foi diferente. Não houve aquele embrulho inicial de nojo, mas uma contração estranha no estômago. Um desconforto.
E então, antes que eu pudesse virar as costas e enterrar esse sentimento com raiva, a voz dela mudou. Não era mais o sussurro aterrorizado de antes. Era uma voz baixa, mas clara, carregada de uma dor que não era física. Uma dor que vinha de um lugar muito mais fundo.
— Por quê? — ela perguntou. Não "por quê, senhor Volkov?". Apenas "por quê?". Como se fosse uma pergunta para o universo, para a maldade que a cercava, e eu fosse apenas o canal mais próximo. — Por que você fez isso? O que eu fiz para merecer tudo isso?
