Capítulo 2 Ela se mudou para o quarto de Edith
Ela já tinha tentado antes — cortando os próprios pulsos —, mas a encontraram e a levaram para o hospital.
“Sua vadia venenosa! Você não tem o direito de morrer! Você vai viver e pagar, e eu vou fazer questão de te ver sofrer.”
As palavras de Alexander ecoavam dentro da cabeça dela.
Ele tinha razão. Ela tinha cometido um pecado imperdoável. Nem merecia encontrar Edith no inferno.
Então Caroline parou de tentar morrer. Por mais destruída que ficasse, ela continuaria viva — porque Edith tinha pedido isso a ela.
Na manhã seguinte, Caroline voltou para a Mansão Neville.
A casa antiga e grandiosa estava cheia do barulho de uma reunião de família. Mas aquele som não tinha nada de acolhedor: cada rosto conhecido por quem ela passava parecia endurecer numa máscara de desprezo, e os olhares a cortavam como facas.
“Como é que ela ainda tem a cara de pau de aparecer aqui?”
“Ela matou a própria irmã e roubou o noivo dela. Nunca vi uma mulher com o coração tão frio.”
“Ouvi dizer que essa tentativa de suicídio foi até armada, só pra ganhar pena. ‘Sem vergonha’ nem chega perto.”
Caroline mantinha a cabeça baixa; cada comentário sussurrado se apertava contra ela, até as paredes do corredor parecerem entortar e ondular na visão periférica.
Ela precisava do remédio, mas o frasco estava na bolsa, e ela não conseguia se obrigar a tirá-lo dali na frente deles.
Na parede ao fundo estava o retrato da família:
seu pai, Damon Neville;
sua mãe, Isabella York;
a própria Caroline; e Edith, sorrindo como luz de sol, o braço enlaçado no de Caroline.
Nenhum deles sabia, naquela época, que seis meses depois a família estaria estilhaçada, sem conserto.
“Caroline! Você veio!”
A voz era doce, doce demais — quase grudenta; um fio de mel envenenado descendo da escadaria.
Caroline ergueu os olhos e viu Celeste descendo os degraus quase saltitando, com movimentos leves e ansiosos.
Ela era a filha adotiva que Damon e Isabella tinham acolhido no ano passado — um curativo cuidadosamente colocado sobre a ferida aberta e sangrando que a morte de Edith tinha deixado para trás.
Ela era uma substituta, e fazia o papel com a dedicação de uma atriz de método.
Naquele dia, Celeste usava um vestido amarelo-claro — o tom favorito de Edith. O cabelo escuro estava cacheado e preso daquele jeito suave, sem esforço, como Edith sempre usava.
A imitação era tão óbvia que virava uma encenação feita só para arrancar aprovação dos pais.
O olhar dela correu até o pulso de Caroline, e Celeste levou a mão à boca, arfando. “Meu Deus… o que aconteceu com seu pulso?”
A mão de Caroline se mexeu num reflexo, puxando o punho da blusa para baixo e cobrindo os hematomas feios, roxos e negros, que Alexander tinha deixado na pele dela na noite anterior. “Não foi nada. Eu tropecei.”
Celeste inclinou a cabeça, e a expressão dela se afiou em algo astuto. “O Alexander te bateu de novo?”
“Ela mereceu!”
A voz de Isabella cortou o ar quando ela saiu da sala de estar, com um olhar tão frio como se estivesse encarando uma desconhecida.
“Roubar o homem da irmã… se ela apanhasse até morrer, seria justiça.”
“Mãe, não fala isso…”
Celeste passou o braço pelo de Isabella, mas o tom vinha carregado de veneno.
“A Caroline só foi… levada pela paixão, não foi? Porque, se não, por que ela estaria tão ansiosa pra casar com o Alexander logo depois de a Edith ser enterrada?”
As palavras acertaram com precisão cirúrgica, reabrindo a ferida que nunca ia cicatrizar.
Os olhos de Isabella se encheram de lágrimas. “Minha pobre Edith… como ela pôde morrer por causa de uma coisa tão sem coração…”
Caroline baixou o olhar de novo. Ela não discutiu. Sabia que não adiantava.
Três dias depois do funeral de Edith, ela tinha ido até Alexander e pedido que ele se casasse com ela.
Todos acharam que ela tinha enlouquecido.
O corpo da Edith mal tinha esfriado, e a própria irmã — o sangue mais próximo — estava tentando ficar com o homem que Edith tinha amado.
Alexander recusou, claro.
Mas Caroline não parou.
Ela continuou tratando-o com a mesma devoção, mesmo enquanto ele despejava insultos nela, chamando-a do tipo mais baixo de mulher a pisar na Terra.
Então, um dia, todas as grandes plataformas de Grandhaven explodiram com um escândalo: a filha mais velha da família Neville e o chefão da máfia da família Hamilton estavam envolvidos em segredo havia anos, e o túmulo da irmã mal tinha sido fechado quando os dois foram morar juntos.
Fotos acompanhavam a manchete.
As imagens eram granuladas, mas nítidas o bastante para identificar Caroline e Alexander.
Depois, alguém provou que as fotos eram montagens feitas por IA, mas ninguém ligou. O pedido de casamento era prova suficiente.
Os círculos empresariais da cidade tremeram com a notícia.
As duas famílias eram pilares do submundo de Grandhaven e, sob o peso esmagador da indignação pública, Alexander finalmente concordou em se casar com ela.
Todo mundo dizia que ele tinha sido encurralado, que a própria Caroline tinha vazado a história e encomendado as fotos falsas. Na verdade, ela não fazia ideia de onde aquilo tinha vindo.
Mas não importava. Ela já carregava a culpa pela morte de Edith. Mais um crime no nome dela não significava nada.
— Chega. Todos vocês. — A voz de Damon cortou os soluços de Isabella.
Ele atravessou o cômodo até Caroline. Os olhos dele suavizaram por uma fração de segundo ao ver as marcas no braço dela, mas o calor se apagou quase antes de surgir.
— Já que você está aqui, fique para o jantar.
Era um jantar fadado a ser tudo, menos tranquilo.
A voz de Celeste soou clara e cantada.
Ela entreteve a mesa com histórias sobre o mais recente baile beneficente e o novo cavalo de montaria, e os parentes reunidos ao redor assentiam com sorrisos complacentes, enchendo-a de elogios.
Caroline ficou no canto mais distante da longa mesa de mogno, comendo em silêncio, em pequenas mordidas.
Em certo momento, ela esticou a mão com os hashis e colocou um pedaço de carne perfeitamente selado na tigela de arroz de Damon.
Ele parou por um instante, não disse nada e voltou a comer.
Mas, quando Caroline lavou a louça mais tarde, viu a carne ainda ali, intocada, na tigela dele.
Ele ainda não conseguia perdoá-la.
Abrindo a torneira, ela pegou o primeiro prato e então reparou num copo de cristal rosa no armário.
Era o favorito de Edith — aquele pelo qual Caroline tinha juntado dinheiro por meses para dar a ela de presente no aniversário de vinte e um anos.
Caroline abriu a porta do armário, os dedos indo na direção do copo.
— Não encosta nisso!
O grito de Isabella foi afiado o bastante para cortar o ar.
Ela correu até lá, bateu a porta do armário com um estrondo ensurdecedor, e as costas da outra mão acertaram a bochecha de Caroline num tapa que ecoou.
— Não ponha essas suas mãos imundas nas coisas da Edith!
A ardência na bochecha não era nada perto da dor no peito.
Caroline abaixou a cabeça, com a voz quase num sussurro.
— Desculpa.
Damon apareceu na porta.
Ele segurou o braço de Isabella antes que ela batesse de novo, puxando-a para trás com firmeza, mas sem brutalidade.
— Chega, Isabella.
Ele se virou para Caroline, com a expressão pesada de cansaço.
— Se você não tem um motivo para estar aqui, não volte. Esta casa não te acolhe.
O coração dela deu um salto, e Caroline tentou protestar.
— Mas eu prometi à Edith—
— Não diga o nome dela!
A voz de Isabella se quebrou de raiva.
— Você matou ela! Você levou ela para aquele cais! Por que não foi você no lugar dela?
