Capítulo 3 Por que me incriminar?

A raiva dela se desfez em soluços. Damon a puxou para os braços, apertando-a com força.

Ele olhou por cima do ombro dela para Caroline e balançou a cabeça. “Vai! Sai agora!”

A sala virou um caos.

Todos os olhos estavam nela, observando como se ela fosse a piada de um trote cruel.

Caroline cambaleou para fora da Mansão Neville, as pernas pesadas e trêmulas, o ar frio mordendo a pele.

Quando finalmente chegou ao apartamento, o peito parecia oco, como se tivesse deixado o que restava do coração naquela casa.

A televisão ligou sozinha, como sempre fazia agora.

Alexander mandara instalar aquilo — um loop de vídeos de família, um lembrete constante dos pecados dela.

Na tela, Edith aos quinze corria pela beira do mar, a risada levada pelo vento. “Caroline, vem me pegar!”

Depois, aos dezoito, Edith estava na cozinha, toda polvilhada de farinha, as mãos ocupadas modelando um bolo.

“Quando eu casar com o Alexander, vou assar alguma coisa bem doce pra ele todos os dias.”

Então, aos vinte, ela estava na festa de aniversário, um vestido azul de chiffon esvoaçando enquanto ela se apoiava no ombro de Alexander.

“Caroline, eu estou bonita?”

Cada sorriso era uma lâmina, cortando o peito de Caroline.

Ela não queria admitir, mas tinha amado Alexander — amava desde os dezesseis, desde a primeira vez que o viu. Nunca disse uma palavra, porque sabia que Alexander só enxergava Edith.

Então ela se afastou em silêncio. Até o dia em que ouviu que eles estavam noivos. Num vendaval de ciúme e orgulho, ela saiu de casa… e levou a irmã à morte.

“Fui eu… eu sozinha…” Caroline caiu de joelhos, os soluços rasgando o apartamento vazio.

Ela queria morrer. Queria que tudo acabasse.

Correu para o banheiro, escancarou o armário de remédios e despejou na palma da mão todos os antidepressivos e calmantes para dormir que tinha.

Um punhado não bastou — colocou outro, enfiou tudo na boca e engoliu à força com água.

Os comprimidos ficaram presos na garganta.

Ela tossiu com violência, cuspindo alguns, mas a visão já estava embaçando.

O chão veio ao encontro dela e, quando ficou ali, deitada e encarando o teto, uma calma estranha se instalou.

“Edith… eu tô indo”, sussurrou.

Quando acordou de novo, estava numa cama de hospital.

Ouviu o médico falando com Alexander do lado de fora da cortina.

“Ela teve um episódio depressivo agudo, com sintomas severos de ansiedade. Precisa ser internada para tratamento.”

Alexander estava ao pé da cama, de costas para ela, a voz pingando desprezo.

“Depressão? Ela só quer que todo mundo olhe pra ela. Essa mulher é capaz de qualquer coisa.”

Caroline mordeu com força o lábio, enterrando o rosto no cobertor. As lágrimas escorreram em silêncio pelos cantos dos olhos.

Dia após dia, ano após ano, ela vivera sob aquele peso — sob o ódio de todos à sua volta. Até a morte lhe era negada.

Na mente, ela sussurrou para Edith: “Eu não aguento mais… não aguento mesmo.”

Quando recebeu alta, Caroline arrastou o corpo exausto até a clínica onde trabalhava.

Lina, a recepcionista, encarou-a, chocada. “Dra. Neville… essas olheiras estão horríveis.”

Caroline não respondeu. Ela se jogou no trabalho, como se preencher as horas pudesse, de algum jeito, preencher o vazio dentro dela.

Por volta das três da tarde, a porta do consultório dela se escancarou.

Alexander estava ali, com quatro homens de terno preto atrás dele.

Celeste estava ao lado dele, com o braço entrelaçado no dele, sorrindo com doçura.

“A Celeste não tem dormido bem ultimamente”, disse Alexander, com a voz carregada de autoridade. “Você é psicóloga. Dê um jeito nela.”

Caroline olhou para ele, depois para Celeste, e voltou às anotações.

“Se ela está com dificuldade para dormir, o ideal é procurar um neurologista ou um especialista em sono.”

Alexander deu um passo à frente, e o ar ao redor dele pareceu se fechar como um torno.

“Você não me ouviu? Eu disse que você vai tratar dela.”

Caroline ergueu o olhar para encontrar o dele e só viu ódio ali. Ela sabia que ele não tinha vindo por ajuda médica — tinha vindo para machucá-la.

A voz de Celeste era suave, quase conciliadora. “Alexander, talvez a Caroline não se sinta à vontade para me atender.”

“Ela é perfeitamente capaz”, disse Alexander, estreitando os olhos para Caroline. “Dá pra começar agora, dra. Neville?”

O título saiu cuspido como um insulto. Ele já tinha dito mais de uma vez que ela não merecia ser chamada de doutora.

Caroline puxou o ar devagar. Ela sabia que não tinha como escapar. Fez um gesto para Celeste se deitar na maca de atendimento.

Alexander foi até a janela e passou a observá-la sem piscar.

“Celeste, quando começou a insônia?”, perguntou Caroline, num tom profissional.

“Ai… faz mais ou menos uma semana”, respondeu Celeste, com descaso. “Talvez seja porque eu me mudei pro quarto da Edith. Ainda estou me acostumando.”

A caneta de Caroline parou no ar, acima da folha. A mãe dela tinha deixado Celeste morar no quarto da Edith.

Ela se obrigou a continuar escrevendo.

“Você tem algum hábito antes de dormir? Celular, café…?”

“O Alexander conversa comigo toda noite até tarde”, disse Celeste, olhando para ele com um sorriso. “A gente fala da Edith, do passado. Ele diz que eu sou tão parecida com ela — tão viva, tão brilhante.”

Caroline apertou a caneta com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.

Celeste inclinou a cabeça.

“Caroline, você está bem? Você tá pálida.” Ela estendeu a mão na direção de Caroline, mas, no meio do movimento, soltou um grito repentino. “Caroline, por que você tá me machucando?”

Caroline franziu a testa. “Eu nem encostei em você.”

“Por que você tá me machucando?”

Celeste repetiu, virando-se para Alexander com os olhos cheios de lágrimas.

“Ela deve me odiar — odiar que eu tenha tudo o que a Edith tinha.”

Alexander avançou e agarrou o pulso de Caroline. Os olhos dele estavam frios e debochados. “Qual é o problema? Você pode pegar as coisas da Edith, mas ninguém mais pode?”

Caroline olhou para os dois — dois atores em perfeita sintonia — e não sentiu nada além de vazio.

“Peça desculpas pra Celeste”, ordenou Alexander.

Caroline baixou a cabeça em silêncio.

“Peça desculpas!” O aperto dele aumentou, e uma fisgada de dor subiu pelo braço dela.

“Eu não fiz nada de errado. Por que eu deveria pedir desculpas?” A voz dela saiu firme.

Algo frio encostou na testa dela. Alexander tinha puxado a arma, com o cano apontado bem entre os olhos dela.

Suspiros encheram o cômodo. A voz de Lina tremia. “Sr. Hamilton… ela é sua esposa…”

“Cala a boca!” O olhar de Alexander a cortou. “Ou eu mato você também.”

Lina se calou, com o rosto pálido.

“É a última vez que eu vou dizer.” O dedo de Alexander se curvou no gatilho, e a voz dele estava afiada o bastante para cortar o ar. “Peça desculpas.”

Caroline ergueu a cabeça, olhando para o homem que ela tinha amado por dez anos sem nunca admitir. Agora ele estava pronto para matá-la.

E, por um instante, ela sentiu alívio. Se morresse pelas mãos de Alexander, talvez Edith parasse de culpá-la. Talvez o tormento acabasse.

“Vai”, ela sussurrou. “Atira.”

Ela fechou os olhos, com o coração estranhamente calmo. “Me mata… por favor.”

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