Capítulo 4 Esta é sua nova punição
Ela manteve os olhos fechados, se preparando para o único som que acabaria com tudo.
O clique do gatilho, o estampido, o silêncio misericordioso depois… mas ele nunca veio.
Em vez disso, Alexander soltou uma risada baixa, sem humor.
O peso metálico encostado na testa dela sumiu. Quando Caroline abriu os olhos, ele estava inclinado sobre ela, com a mão segurando o queixo dela, obrigando-a a encarar o olhar dele.
— Quer morrer? Acha que a morte vai lavar seus pecados? Caroline, você é mesmo ingênua.
A mente dela estava vazia, e o pulso martelava surdo nos ouvidos.
— A morte seria bondade demais pra você.
Ele a soltou de repente e tirou um lenço do bolso, limpando os dedos como se a pele dela o tivesse contaminado de alguma forma.
O pano branco saiu limpo, mas, mesmo assim, ele o jogou no chão com desprezo calculado.
— Você vai viver. Vai viver cada dia com o peso da sua culpa esmagando você. Essa é a sua punição.
Sem olhar de novo, ele se virou e passou um braço pela cintura de Celeste.
— Vamos embora.
Celeste, aconchegada nele, inclinou a cabeça e lançou para Caroline um sorriso triunfante por cima do ombro.
Os olhos de Caroline ficaram presos na porta enquanto ela se fechava atrás deles. Ele tinha ido embora.
Mas o frio oco no peito dela dizia que aquilo não tinha acabado.
A partida dele não significava que o tormento tinha terminado — significava que uma nova rodada estava prestes a começar.
Quando Caroline voltou para casa naquela noite, o apartamento já não parecia mais dela.
Várias empregadas desconhecidas iam e vinham, arrumando flores caras em vasos de cristal e alinhando as mesas com taças de champanhe.
— Senhora, a senhora voltou — cumprimentou-a uma empregada mais velha, dando um passo à frente. — O senhor Hamilton mandou avisar que amanhã à noite vai haver uma recepção aqui. Ele pediu a sua ajuda nos preparativos.
Caroline piscou.
— Uma recepção? Ninguém me disse nada sobre—
— O senhor Hamilton disse que não havia necessidade de avisar a senhora — interrompeu a empregada, entregando-lhe uma lista datilografada. — Aqui estão o menu e as exigências para a montagem de hoje à noite. Por favor, dê uma olhada. Ah, e o seu vestido foi entregue no seu quarto — o senhor Hamilton escolheu pessoalmente.
Caroline pegou a lista e passou os olhos pelas linhas cheias de instruções. Ao olhar para as empregadas correndo de um lado para o outro, a verdade pesou no estômago dela.
Era de propósito.
Ele queria que ela ficasse dentro da própria casa, com o título de anfitriã, e ainda assim rebaixada ao papel de criada. Era humilhação embrulhada em cerimônia, uma declaração clara de que, naquela casa, ela não era nada.
Ela subiu as escadas em silêncio.
Sobre a cama havia uma caixa grande de presente.
Ao levantar a tampa, encontrou um vestido longo, num tom fechado de verde-escuro. O corte era simples a ponto de parecer austero, completamente fora de lugar para um evento formal.
Nem era um vestido de festa de verdade — parecia mais algo tirado do fundo do armário.
Mesmo assim, ela o vestiu e ficou diante do espelho.
O tecido caía frouxo no corpo magro dela; o tamanho grande demais a fazia parecer menor, mais frágil.
A cor apagava o pouco de calor que ainda restava na pele, deixando o rosto pálido e abatido.
Um sorriso sem humor roçou os lábios dela quando estendeu a mão para a maquiagem.
A mulher que a encarava de volta tinha olhos fundos e maçãs do rosto marcadas.
A beleza que um dia fizera dela o orgulho de Grandhaven tinha desaparecido.
Ela tinha vinte e sete anos, mas o reflexo poderia passar pelo de uma mulher dez anos mais velha.
Às sete, os convidados começaram a chegar.
Caroline ficou à porta da cozinha, observando homens de terno sob medida e mulheres reluzindo de joias encherem a sala com risadas e conversa.
Alexander estava no centro de tudo, um copo na mão, Celeste ao lado.
Ela estava radiante, com a maquiagem impecável e o sorriso ensaiado à perfeição, agarrada ao braço dele.
—Alexander, e quem é essa? —perguntou um dos convidados, num tom carregado de curiosidade fingida.
Os olhos de Alexander encontraram Caroline do outro lado do salão.
Os lábios dele se curvaram num sorriso que não tinha nada de acolhedor. —Minha empregada doméstica, Caroline.
Um murmúrio de reconhecimento percorreu o grupo. As expressões mudaram — algumas para desdém, outras para um divertimento mal disfarçado.
—Então é ela… a irmã que causou a morte do próprio irmão.
—Ouvi dizer que ela o prendeu num casamento com algum truque nojento. Sem vergonha.
—Como é que a família Neville pôde gerar uma filha dessas…
Os julgamentos sussurrados a atingiam como agulhas finas.
Ela baixou a cabeça e se esgueirou de volta para a cozinha, conferindo as bandejas e os copos como se o barulho atrás dela não passasse de chiado.
—Caroline! —a voz do mordomo cortou o tilintar. —Estamos com pouco espumante. Desça até a adega e traga mais duas caixas.
Ela assentiu e foi para o porão.
Quando voltou, com os braços doendo de tanto carregar as caixas, a festa já tinha chegado ao auge.
A banda tocava um jazz animado, e os casais balançavam pela pista de dança.
Alexander e Celeste estavam entre eles.
O corpo de Celeste estava quase inteiramente colado ao dele, as bochechas coradas, os olhos brilhando de adoração.
Ele mantinha um braço na cintura dela e segurava o drinque com o outro, inclinando-se de vez em quando para murmurar algo que a fazia rir baixinho.
Das sombras, Caroline observou, uma dor se abrindo no peito. Anos atrás, Edith estivera naquele mesmo lugar, naquele mesmo abraço, com um sorriso forte o bastante para aquecer a noite mais fria.
Naquela época, o olhar de Alexander tinha sido terno, sem defesas.
Agora, ele olhava para outra mulher — uma que imitava cada gesto de Edith — como se ela fosse a original.
—O que você está parada aí?
A voz de Patricia Clark a puxou de volta. O tom da mulher era cortante, impaciente.
—Você não está vendo que os nossos copos estão vazios? Sirva o vinho.
Caroline correu até lá, as mãos tremendo enquanto enchia as taças.
O tremor a traiu, e um respingo de espumante caiu na seda do vestido de Patricia.
—Meu Deus! Meu vestido! —o grito de Patricia cortou a música. —É sob medida!
As cabeças se viraram. As conversas pararam.
Alexander soltou Celeste e veio a passos largos. O olhar dele foi da mancha que se espalhava na saia de Patricia ao rosto pálido de Caroline.
—Desculpa, eu não quis… —Caroline começou, mas ele a ignorou e se dirigiu a Patricia:
—Srta. Clark, eu peço desculpas. Vou indenizar a senhora dez vezes pelo dano.
—Indenizar? Você acha que isso é sobre dinheiro? —a voz de Patricia atravessou o salão. —Eu mandei fazer isso para hoje à noite. Está arruinado.
—Então o que a senhora quer que seja feito? —perguntou Alexander, a voz calma, calma demais.
Os lábios de Patricia se curvaram num sorriso frio. Ela apontou para Caroline. —Faça ela se ajoelhar e limpar.
O salão ficou em silêncio absoluto. Todos os olhos estavam neles agora — alguns chocados, outros se divertindo, outros ansiosos pelo espetáculo.
Caroline encarou Patricia, depois Alexander. O ar sumiu dos pulmões dela.
Ele sustentou o olhar dela com olhos cor de ardósia. —Você ouviu. Ajoelhe-se. Limpe o vestido da Srta. Clark.
Ele concordou. Sem hesitar. Sem nem fingir que ia discordar.
Ela devia ter sabido que não podia esperar nada diferente.
Anos de humilhação, de punições que não deixavam marca, mas somavam anos de crueldade silenciosa, tinham preparado Caroline para aquilo — não era novidade.
Mas, naquela noite, Alexander tinha arrastado tudo para a luz, arrancando dela até o frágil escudo da privacidade.
—Alexander… —a voz dela saiu baixa, quase suplicante.
—Ajoelhe-se —ele repetiu, a palavra sem emoção.
A visão dela vacilou.
Caroline sentia o peso de cada olhar no salão, cada um com um tipo diferente de julgamento. Não havia saída.
Então ela dobrou os joelhos, descendo até o chão.
—Espera!
A voz afiada cortou o silêncio pesado como vidro se estilhaçando.
