Capítulo 5 Você se atreve a roubar dos mortos

Celeste se moveu depressa, os saltos estalando no piso polido, até alcançar Caroline e pousar a mão com delicadeza no braço dela.

Virando-se para Patricia, ofereceu um sorriso suave.

— Sra. Clark, por favor… perdoe a Caroline só dessa vez. Ela não tem passado bem ultimamente. O médico disse que ela está com depressão grave, e às vezes não consegue controlar o que faz.

Na superfície, parecia que ela estava defendendo Caroline.

Mas aquelas palavras — tão cuidadosamente escolhidas — carregavam um peso que fez os olhos dos convidados esfriarem, o desprezo ficando mais afiado.

Algumas mulheres trocaram olhares. Os cochichos recomeçaram, baixos e venenosos.

— Depressão? Isso é mais fingimento de desequilíbrio.

— Usar isso como desculpa pra fugir da responsabilidade… que coisa patética.

Os lábios de Patricia se curvaram num sorriso de deboche.

— Depressão? Não me convence. Quando você erra, você assume. Isso é o mínimo de educação.

— A senhora tem toda a razão. Educação importa — respondeu Celeste, ainda com um tom caloroso, mas com cada sílaba afiada como uma lâmina. — É que… desde que a Edith morreu, a Caroline ficou emocionalmente fragilizada. Nossos pais e o Alexander vivem se preocupando com ela, a ponto de adoecer. Sra. Clark, a senhora é conhecida pela sua generosidade. Por favor, perdoe ela dessa vez. Tenho certeza de que, se a Edith estivesse olhando lá de cima, não ia querer ver a Caroline assim.

A menção a Edith mudou o clima no salão. As conversas emperraram.

Todos os convidados se lembravam daquela tragédia de cinco anos atrás.

Os olhares na direção de Caroline ficaram ainda mais frios, como gelo encostado na pele.

A testa de Alexander se franziu. O nojo nos olhos dele já não era sutil; era uma tempestade prestes a explodir.

Celeste passou o braço no dele, erguendo o rosto para encará-lo.

— Alexander, deixa pra lá. A Caroline já sabe que errou. Vamos dar um pouco de dignidade pra ela… por favor?

A postura de Celeste era humilde, a expressão era o retrato da bondade.

Se Caroline não tivesse percebido as entrelinhas — a insinuação silenciosa de que ela era ingrata — talvez acreditasse que Celeste realmente queria ajudá-la.

O olhar duro de Alexander ficou em Caroline por um longo momento, até que ele se virou para Patricia.

— Sra. Clark, eu vou reparar a ofensa desta noite. Vou mandar o melhor estilista refazer o seu vestido exatamente como a senhora quiser. Isso a satisfaz?

Os olhos de Patricia se estreitaram, mas ela assentiu, a contragosto.

Ainda assim, lançou a Caroline um olhar cortante.

— Só porque a Celeste pediu. Mas tem gente que precisa aprender o seu lugar.

A festa continuou, mas o peso daqueles olhares seguia Caroline como uma sombra da qual ela não conseguia se livrar.

Ela se recolheu no canto mais afastado, desejando poder se dissolver na escuridão e sumir.

Celeste apareceu de novo, com a voz macia.

— Caroline, você está bem? Você não parece bem.

Caroline balançou a cabeça, sem dizer nada.

O estômago dela começou a doer, uma pressão surda que se retorcia mais fundo a cada respiração. Uma película fina de suor se formava na testa.

— Aqui, bebe um pouco de água.

Celeste enfiou um copo na mão dela, enquanto a outra palma repousava de leve nas costas de Caroline.

— Eu sei que isso é difícil pra você, mas você precisa ser forte. Se a Edith estivesse aqui, ela ia ficar preocupada demais com você.

Ao ouvir o nome de Edith, os dedos de Caroline tremeram, e a água chacoalhou perigosamente perto da borda.

Caroline pousou o copo, sem disposição para entrar na encenação gentil de Celeste.

Ela se virou para procurar um lugar onde se sentar, mas a mão de Celeste segurou o braço dela.

— Você parece desconfortável. Deixa eu te levar até o lounge pra você descansar um pouco.

Caroline se desvencilhou.

— Não, eu tô bem.

— Pelo menos deixa eu te trazer alguma coisa pra comer. Você não encostou em nada hoje à noite, encostou? — A voz de Celeste era doce, mas a mão dela já ia na direção da bolsa de Caroline. — Vou pegar uns docinhos pra você. Espera aqui.

Os dedos dela ficaram um instante no fecho, o movimento suave e sem pressa.

Ela abriu o zíper e fechou de novo, tão rápido que dava para não notar.

Caroline, com a cabeça pesada e os olhos fechados enquanto massageava as têmporas, não percebeu nada.

— Você não precisa… — Caroline começou, mas Celeste já tinha atravessado a sala em direção à mesa de comes e bebes.

Minutos depois, ela voltou com um pratinho de doces finos e o encaixou nas mãos de Caroline.

— Come alguma coisa. Senão você vai desmaiar.

Caroline encarou o prato. Ela tinha perdido o apetite, mas, do outro lado da sala, o olhar frio de Alexander encontrou o dela e a prendeu ali. Era uma ordem silenciosa. Um lembrete.

Ela se obrigou a dar uma mordida. O doce era enjoativo, derretendo e deixando um fundo estranho, amargo, que ela não conseguia identificar.

A festa se arrastou até meia-noite. Quando o último convidado foi embora, Caroline estava cansada demais para quase conseguir ficar de pé.

Ela tentou ajudar a arrumar, mas o mordomo a interceptou.

— Senhora, o sr. Hamilton mandou a senhora voltar para o seu quarto. Não precisamos da sua ajuda.

A dispensa foi cortante, no tom que se usa com um empregado indesejado.

Caroline não discutiu. Virou-se para a escada.

Ao passar pela sala de estar, ela viu Alexander e Celeste na varanda, bem próximos, as cabeças inclinadas uma para a outra.

A luz da lua desenhava a curva da bochecha de Celeste e, por um segundo fugaz, o perfil dela foi o de Edith.

O peito de Caroline se apertou. Ela desviou o olhar depressa e subiu correndo.

Ela nem se deu ao trabalho de trocar de roupa.

Desabou na cama, encolhendo-se.

A dor no estômago piorava, um aperto implacável que fazia o ar falhar. Ela pensou em pegar algum remédio, mas os membros pareciam de chumbo.

A porta se escancarou e, então:

— Levanta.

A voz de Alexander era fria o suficiente para congelar o ar.

Caroline se sentou com esforço.

— O que foi? — perguntou, a voz mal acima de um sussurro.

Ele não respondeu. Acendeu o abajur, inundando o quarto com uma luz quente que não suavizou em nada a expressão dele. Na mão, ele segurava um colar.

Uma corrente de prata, com um pingente de diamante rosa em forma de coração, cercado por pedrinhas menores que captavam a luz como gotas de orvalho.

A respiração de Caroline travou. A mente dela ficou em branco.

Era o colar de Edith, o presente de Alexander no aniversário de dezoito anos dela, o que Edith tinha guardado como um tesouro a vida inteira.

No dia do funeral, a mãe de Edith o tinha colocado dentro do caixão para que ficasse com ela para sempre.

Ele deveria estar enterrado. Deveria ser intocável.

— Qual é a sua explicação?

— Eu… eu não sei… — a voz de Caroline tremia. — Por que você está com isso?

— Eu encontrei na sua bolsa. — o tom de Alexander era afiado como lâmina. — Você me enoja. Roubar dos mortos?

— Eu não roubei! — Caroline tentou se levantar, mas o corpo a traiu, fazendo-a cair de volta na cama. — Eu nunca toquei nas coisas da Edith. Você sabe disso. Eu nunca nem entrei no quarto dela!

— Então como isso foi parar na sua bolsa? Entrou lá sozinho?

— Eu não sei… eu juro que não sei… Hoje à noite, só a Celeste mexeu na minha bolsa. Ela disse que queria…

— Cala a boca!

O rugido dele encheu o quarto. A mão de Alexander disparou e se fechou na garganta de Caroline, empurrando-a para baixo, contra o colchão.

— Você ousa acusar a Celeste? Ela ficou te defendendo a noite inteira, e é assim que você retribui?

Caroline arranhou o pulso dele, fraca. A visão embaçou, os ouvidos zunindo. A escuridão ia avançando pelas bordas.

Por entre a névoa, ela ouviu a sentença dele, cada palavra como uma porta batendo com força.

— Ponham ela no porão.

— Não… não! — a voz dela se partiu num grito de pânico, a palavra rasgando a garganta.

No porão, eles mantinham três cães ferozes. Na noite de núpcias, ele a tinha jogado lá por uma semana. Ela saiu de lá com a perna quebrada.

Uma dor cortou o couro cabeludo quando ele a arrastou para fora da cama. O mundo inclinou e, então, ela estava no piso de concreto gelado daquele lugar.

No escuro, três pares de olhos brilhavam com uma luz verde, selvagem.

— Por favor! Me tira daqui! — a voz de Caroline estava rouca, desesperada. Mas a porta de ferro bateu e se fechou.

Um segundo depois, os cães avançaram.

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