Capítulo 7 Sem o direito de respirar
A primeira coisa que Caroline percebeu quando seus olhos se abriram, tremulando, foi o cheiro forte, estéril, de antisséptico no ar.
Ela piscou, com a mente lutando para se recompor. A última coisa de que se lembrava era da clínica — o rosto apavorado de Hannah e a dor rasgando seu estômago, como se alguém estivesse arrancando ela por dentro.
— Você acordou! — a voz de Lina estava iluminada de alívio, embora os olhos estivessem inchados e vermelhos de tanto chorar.
Caroline virou a cabeça e a viu sentada na beira da cama. Assim que seus olhares se encontraram, Lina apertou o botão de chamada com a mão trêmula.
— O que... aconteceu comigo? — a voz de Caroline saiu rouca, arranhada.
— Você desmaiou. Hemorragia interna no estômago — Lina disse, tensa. — O médico falou que foi sangramento agudo por úlcera... estresse, má alimentação, anos se exigindo demais. Quando trouxeram você, sua pressão estava perigosamente baixa. Você quase...
Ela não terminou, mas Caroline entendeu.
Quase não sobreviveu.
Talvez isso nem tivesse sido tão ruim, ela pensou, vagamente.
Mas as palavras seguintes de Lina cortaram a névoa.
— Quando os médicos examinaram você... — os lábios de Lina tremeram, e as lágrimas voltaram a cair — eles viram os seus machucados. As marcas de mordida no seu braço. E... tantas cicatrizes antigas. Eles me perguntaram o que tinha acontecido, e eu... eu não soube o que dizer.
A mão de Caroline, por instinto, puxou a manga larga da camisola do hospital. As marcas de mordida estavam bem enfaixadas, mas o decote amplo não escondia os hematomas espalhados pela clavícula e pelo pescoço.
Hematomas que Alexander tinha deixado.
— Lina... não pergunta — ela disse, fraca.
— Mas! — a mão de Lina disparou, agarrando os dedos de Caroline. — Esses machucados... não são acidentes, são? Quem fez isso? Foi o senhor Alexander Hamilton? Ele bateu em você? Como ele pôde—
— Lina! — a voz de Caroline subiu, cortante, antes de se quebrar numa crise de tosse.
Lina rapidamente serviu água, apoiando-a para que ela conseguisse beber em pequenos goles.
Quando Caroline recuperou o fôlego, olhou para Lina com algo muito perto de uma súplica. — Promete que você não vai fazer nada. Que você não vai falar nada. Tudo isso... eu mereço.
— Como assim, merece?! — os olhos de Lina se arregalaram. — Ninguém merece isso! Você é a pessoa mais gentil que eu conheço. Você já salvou tanta gente. Você não devia viver assim! Eu vou chamar a polícia, eu vou—
— Não! — a mão de Caroline disparou, segurando o pulso de Lina com uma força surpreendente.
— Se você ainda me considera sua chefe... sua amiga... não chama a polícia. Por favor, Lina.
O desespero estilhaçado no olhar dela fez Lina parar no meio da frase. Era difícil conciliar a mulher frágil e machucada à sua frente com a psicóloga confiante e brilhante que todo mundo chamava de prodígio cinco anos atrás.
O que aquela tragédia tinha destruído?
— Mas... por quê? — a voz de Lina falhou. — Por que você aguenta isso? O que você fez?
Por dentro, Caroline gritou a resposta: “Eu matei a minha irmã. Eu destruí a minha família. Eu roubei a felicidade da minha irmã. Estar viva é o pior crime que eu já cometi.”
Mas ela não disse em voz alta. Só fechou os olhos. — Lina... me deixa descansar um pouco. Por favor.
Lina quis insistir, mas um médico e uma enfermeira entraram, obrigando-a a se afastar.
O médico a examinou, num tom firme. — Srta. Neville, sua úlcera é grave. Você vai precisar de pelo menos uma semana em observação. Você está desnutrida, anêmica e tem múltiplas contusões e lacerações, antigas e recentes. Como seu médico, eu preciso perguntar: como você teve esses ferimentos?
Caroline encarou o teto, com o olhar perdido. — Eu... fui descuidada.
O médico não acreditou, mas a recusa dela em conversar só lhe deixou um suspiro. — Vou prescrever analgésicos e terapia nutricional. Por favor, descanse. Estresse emocional é um gatilho importante para o seu quadro.
Quando eles saíram, o quarto voltou a ficar silencioso.
Caroline se sentia esgotada, mas o sono não vinha. Ficou ali, deitada, os olhos presos no teto, a mente vazia.
Ela não soube dizer quanto tempo tinha passado quando a porta se abriu, suave.
Uma figura apareceu na entrada, hesitante.
Caroline virou a cabeça — e congelou.
Era o pai dela.
A garganta se apertou. — Pai... — a palavra se quebrou num soluço.
Damon entrou, colocando uma cesta de frutas no criado-mudo. Os olhos dele percorreram o rosto pálido e abatido dela; os lábios tremeram antes que ele finalmente dissesse:
— Você... está bem?
Ela assentiu, mas as lágrimas vieram com mais força.
Fazia quanto tempo que ele falava com ela naquele tom calmo? Desde a morte de Edith, o olhar dele tinha sido só dor e decepção — até ele parar de olhar para ela por completo.
Ele se sentou na cadeira ao lado da cama dela, em silêncio por um bom tempo.
— Isabella... foi te ver — ele disse de repente.
O estômago de Caroline se revirou.
— Aquele documento... — Damon hesitou. — Foi uma decisão minha.
Caroline fechou os olhos.
Ela suspeitava, mas ouvir ele admitir parecia uma lâmina cravada direto no peito.
— Eu não estava tentando te obrigar — Damon disse, a voz falhando. — É só que... a Celeste é atenciosa. Ela faz sua mãe sorrir. Esses últimos cinco anos foram difíceis pra ela. Às vezes eu vejo a Celeste usando as cores preferidas da Edith, com o cabelo arrumado do jeito que a Edith gostava, e... sua mãe ri. Eu acho... que talvez isso signifique alguma coisa.
Ele olhou para ela, a dor tremulando nos olhos. — Caroline... eu não te odeio. Mas toda vez que eu te vejo, eu me lembro da Edith. Eu me lembro daquele dia no necrotério... ela era tão jovem. Tão fria.
A voz dele quebrou.
— Eu não consigo viver com isso. Me desculpa.
Cinco anos, e finalmente ela ouviu ele dizer aquilo.
Mas ali, agora... o que ela deveria sentir? Alívio? Encerramento? Por que ainda doía tanto?
— Pai... eu é que devia pedir desculpas — ela sussurrou. — Eu matei a Edith. Eu destruí a nossa família. Você e a mamãe me odeiam, e vocês têm razão. Eu assinei aquele documento por vontade própria. O legado da família Neville... nunca foi feito pra uma criminosa como eu.
— Não fala isso. — A mão de Damon se ergueu, como se fosse tocar o cabelo dela, mas parou no meio do caminho. O olhar dele caiu no relógio, e a expressão mudou.
— Eu tenho que ir. Sua mãe não sabe que eu estou aqui. Se ela descobrisse...
Ele não terminou, mas Caroline entendeu.
Se Isabella soubesse, teria um ataque de fúria.
— Você devia ir — Caroline disse, forçando um sorriso. — Eu estou bem. De verdade.
Ele se levantou, olhando para ela uma última vez, os olhos pesados com algo que ela não conseguia nomear. Então ele assentiu e saiu depressa, como se estivesse fugindo de algo insuportável.
Caroline ficou olhando para a porta, as lágrimas descendo em silêncio pelo rosto.
Aquele calorzinho breve foi como um fósforo riscado no inverno — acabou antes de conseguir aquecê-la de verdade.
Mas pelo menos ele veio.
Pelo menos ele disse “me desculpa”.
Talvez aquela faísca fraca desse pra aguentar mais um pouco.
Quando Lina saiu para buscar roupas e itens de higiene, Caroline ficou sozinha, deitada, encarando o gotejar lento do soro no acesso.
A porta se escancarou.
Alexander entrou, com o frio grudado nele. Ele fechou a porta atrás de si e foi até a cama, parando por cima dela, imponente.
— Fazer papel de doente combina com você — ele disse, a voz escorrendo daquele desprezo familiar.
O coração dela afundou.
— Eu não estou fingindo — ela murmurou.
— Não? — Ele deu um sorriso de canto, puxando o cobertor para olhar o soro e os curativos. — Sangramento no estômago? Estresse demais? Caroline, você é ótima em desculpas. Qual é o plano — se esconder no hospital pra fugir da punição? Ou talvez usar esse teatrinho patético pra arrancar pena... do seu pai?
Ela virou a cabeça num solavanco, encarando-o. — Você...
— Como é que eu sei? — Ele se inclinou, apoiando as mãos de cada lado da cama, o nojo escancarado. — Isso aqui é Grandhaven. Nada acontece aqui sem eu saber. Seu pai entrou escondido, ficou menos de dez minutos e saiu como um ladrão. Você achou que isso significava que ele te perdoou? Que ele amoleceu?
— Eu não... — As lágrimas arderam nos olhos dela.
Por que ela sempre chorava na frente dele?
— Acorda — Alexander disse, endireitando-se. — Ele veio porque é fraco. Ele não consegue te odiar como sua mãe odeia, mas também não consegue te encarar. Então ele fica se escondendo, mentindo pra si mesmo. Mas lembra...
A mão dele agarrou o queixo dela.
— Ninguém vai te perdoar. Nem seu pai. Nem sua mãe. Nem eu. A única coisa pra que você serve é viver tempo suficiente pra pagar pelo que fez. Então para com esses joguinhos e cumpre o seu papel. Entendeu?
Ela olhou para ele — para o rosto que ela tinha amado por anos.
Um dia, aqueles olhos castanho-escuros tinham sido cheios de ternura por Edith.
Agora, só havia ódio.
— Entendi — ela disse, com a voz oca.
Ele limpou os dedos com um lenço, jogou no lixo e se virou para sair.
Na porta, ele parou. — Amanhã à noite tem uma negociação. Você vai. Se vista direito. Não me faça passar vergonha.
A porta se fechou.
Caroline ficou encarando o teto. A dor no estômago tinha voltado.
Mas, comparada ao vazio no peito, não era nada.
Quando Lina voltou, encontrou Caroline ainda olhando para cima, as lágrimas encharcando o travesseiro.
— Caroline... — A voz de Lina tremeu.
— Lina — Caroline sussurrou — eu mereço isso. Eu não devia estar viva. Viver... é a minha punição.
