Capítulo 8 O sabor do que você deve a ela
Três dias depois, Caroline saiu do hospital antes de o corpo estar completamente recuperado.
Os médicos tinham avisado que uma hemorragia no estômago exigia repouso, mas repouso era um luxo que ela não tinha. Lina tentou convencê-la a ficar mais tempo, mas Caroline apenas balançou a cabeça. Alexander tinha dito que ela iria a uma negociação, e Alexander nunca mudava de ideia só porque alguém estava doente.
O carro que ele mandou não a levou de volta para o apartamento. Em vez disso, foi direto para um estúdio de beleza sofisticado.
Celeste já estava lá, parada diante de um espelho, experimentando joias. Quando viu Caroline, abriu um sorriso doce o bastante para deixar o ar perigoso.
— Caroline, você está bem melhor — disse ela, calorosa, aproximando-se para entrelaçar o braço no de Caroline. — O Alex me pediu para te ajudar a escolher algo para hoje à noite. Não se preocupa... eu vou garantir que você fique perfeita.
Caroline tentou puxar o braço de volta, mas o aperto de Celeste não cedeu.
Ela foi conduzida a um provador, onde vários profissionais se lançaram sobre ela, medindo seu corpo, discutindo tecidos, murmurando sobre cabelo e maquiagem. Celeste comandava todo o processo, e Caroline se mexia como uma marionete, deixando estranhos decidirem cada detalhe.
A escolha final foi um vestido de veludo azul-escuro — de corte discreto, impecavelmente ajustado para esconder seu corpo frágil e as marcas na pele. Celeste mesma fez a maquiagem dela, aplicando uma base pesada para disfarçar a palidez e as sombras roxas sob os olhos, e então pintou seus lábios com um vermelho que forçava vida ao rosto.
— Caroline... você está linda — disse Celeste atrás dela, os olhos presos ao reflexo no espelho. O tom era suave, mas havia algo ali que arranhava os nervos de Caroline. — Só é uma pena... por mais linda que você seja, você não é a Edith.
Os dedos de Caroline se fecharam com força na barra do vestido.
Ao cair da noite, Alexander chegou.
O olhar dele percorreu Caroline por alguns segundos, indecifrável, antes de dizer simplesmente:
— Vamos.
A negociação seria em um galpão abandonado nos arredores da cidade.
Enquanto o carro cortava a noite, Caroline observava as luzes passarem em risco pela janela. Ela não sabia sobre o que era a reunião, mas, se Alexander tinha escolhido levá-la, não seria algo inofensivo.
— Escuta — Alexander disse de repente. — Quando a gente entrar, você fica do meu lado. Não fala. Não anda por aí. Sua função é ficar parada. Entendeu?
Ela assentiu.
Entendeu perfeitamente — ela era só enfeite, um acessório. Talvez até uma refém, ou um escudo. No submundo, levar uma mulher para a mesa era comum. Era uma demonstração de status... e, às vezes, uma fraqueza calculada.
O carro parou em frente ao galpão.
Seguranças vestidos de preto vieram ao encontro deles. Alexander saiu primeiro, e Caroline foi atrás. O vento atravessou o tecido fino do vestido, e ela estremeceu.
Alexander olhou para ela uma única vez, não disse nada e seguiu em direção às portas do galpão.
Ela apressou o passo para não ficar para trás.
Lá dentro, a iluminação era fraca. Uma mesa comprida ocupava o centro, ladeada por homens dos dois lados. Na cabeceira estava sentado um homem careca e corpulento, com uma cicatriz irregular cortando o rosto — John, o chefe de uma família em ascensão do lado leste.
A cadeira em frente a ele estava vazia, claramente reservada para Alexander.
Quando Alexander entrou, a boca de John se curvou num sorriso, exibindo um dente de ouro.
— Alexander, finalmente apareceu. Trouxe companhia? O quê, com medo de eu te devorar vivo? — O olhar dele deslizou por Caroline com insolência calculada.
Alexander se sentou. Caroline ficou um pouco atrás dele, consciente do jeito como John e os homens dele a examinavam, como predadores de sangue-frio. Ela baixou os olhos para os próprios sapatos, desejando desaparecer.
A discussão começou.
Era sobre dividir território — vários quarteirões do tráfico. John queria mais. Alexander recusou. As palavras eram calmas, mas as pontas eram afiadas o bastante para que até Caroline sentisse o corte.
A tensão se apertou como uma corda.
— Alexander, não força a sorte — John disse de repente, a voz ficando gelada. — Aquelas ruas são minhas. Você vai abrir mão delas, querendo ou não.
O sorriso de Alexander foi fino.
— John, aqui não é o lado leste. Em Grandhaven, quem decide sou eu.
A risada de John foi curta e feia. Os olhos dele foram para Caroline.
— Ouvi dizer que essa é a sua esposa. A filha preciosa da família Neville... aquela que matou a própria irmã. Bonitinha, até. Mas eu fico pensando... ela é tão boa na cama quanto a irmã que durou tão pouco?
O olhar de Alexander congelou.
— Fica no assunto — ele disse, seco.
— O que foi? Peguei num ponto sensível? — o sorriso de John se abriu ainda mais. — As duas irmãs na sua cama... deve ser bem sentimental. Mas me diz, Alexander... ela vale arriscar seus negócios? Vou te fazer uma proposta. Me dá aquelas ruas, e eu nunca mais menciono suas escapadinhas. Que tal?
O corpo de Caroline travou. A vergonha queimou por dentro como fogo em palha seca.
Os lábios de Alexander se curvaram — não de diversão, mas de algo mais cortante. Ele se levantou, ajustando as abotoaduras com uma calma calculada.
— Parece que a gente terminou por aqui — disse ele. — John, eu te dei uma chance.
O sorriso de John vacilou. Ele também se levantou, e as mãos dos homens dele foram direto para as armas.
— Que porra você está fazendo?
— Estou dizendo... — a voz de Alexander veio lenta, quase entediada — ...que você não vai encostar um centímetro naquelas ruas. E o que você acabou de dizer... não me desceu.
Das sombras lá em cima, vários pontinhos vermelhos floresceram — miras a laser, fixas em John e nos homens mais próximos dele.
O rosto de John perdeu a cor.
— Você... você planejou isso?
Alexander não respondeu. Ergueu a mão, só um pouco.
— Façam.
O primeiro tiro estalou no ar.
Não veio dos atiradores. Um dos homens de John sacou e atirou na direção de Alexander.
A bala não acertou nele — acertou Caroline.
A mão de Alexander disparou, puxando-a para perto num piscar de olhos. O projétil rasgou o veludo no braço dela, cortou a pele, fez o sangue jorrar.
Ela gritou, mas a voz foi engolida pelo caos.
Tiros explodiram por toda parte.
Os homens de John revidaram; os seguranças de Alexander responderam. O galpão virou um campo de guerra — balas cortando o ar, clarões de disparos faiscando no escuro.
Alexander arrastou Caroline para trás de uma mesa de aço tombada. O braço dela ardia, e o sangue escorria quente pela pele.
Vultos se moviam na névoa. O ar estava pesado de pólvora e do gosto metálico de sangue.
Era familiar demais.
As docas. O tiroteio. Gritos. Edith num vestido branco, desabando numa flor vermelha...
— Não... não... — Caroline se encolheu, tremendo com violência. Tapou os ouvidos com as mãos, os olhos apertados.
Não ver. Não ouvir. Não lembrar...
— Olha pra mim — a voz de Alexander cortou, fria, acima dela.
Ela balançou a cabeça, com força.
Ele arrancou as mãos dela das orelhas e obrigou o queixo dela a subir.
Ele se agachou diante dela, os dedos presos no cabelo dela, puxando o olhar dela para a carnificina.
— Olha, Caroline — ele sibilou. — Vê como eles morrem. Bala furando carne, sangue espirrando, a vida escorrendo. Olha.
— Não! — ela gritou, se debatendo, mas o aperto dele era de ferro.
Ela viu um homem agarrar o peito, cambalear para trás antes de cair, o sangue formando uma poça embaixo dele. Viu um dos seguranças de Alexander levar um tiro na cabeça e cair na hora. Viu John atirar de trás de um pilar, e então se contorcer quando um disparo de sniper rasgou o ombro dele.
Sangue. Em todo lugar.
— Edith... — a voz de Caroline saiu distante, quebrada. — A Edith foi assim... tanto sangue... ela mandou eu correr... ela me empurrou...
Na mente dela, o vermelho se espalhava sob o corpo de Edith, infiltrando-se até os pés dela. Ela olhou para baixo, e o vermelho estava nos sapatos dela.
O corpo de Alexander enrijeceu.
Os olhos dele tremularam — algo pesado, indecifrável — e então o ódio voltou, engolindo tudo.
— Sim. Ela te empurrou — ele disse, apertando ainda mais. — Ela levou a bala. Ela morreu. Você viveu. Então olha. Lembra disso. Você deve isso a ela.
O mundo ficou vermelho, queimando através das lágrimas dela.
Os disparos rarearam. Os homens de John estavam mortos ou feridos. Os sobreviventes se ajoelharam, se rendendo.
Alexander a soltou e endireitou o paletó.
— Limpem isso — ordenou aos homens dele.
Depois olhou para ela, ainda encolhida no chão.
— Vamos.
Caroline não se mexeu.
As pernas dela não sustentavam. Ela se sentia à deriva, como se pairasse acima do próprio corpo em ruínas.
Alexander parou na porta e franziu a testa, olhando para trás.
— Eu preciso te convidar?
Ela se obrigou a levantar, usando o braço que não estava ferido para se apoiar na mesa. Precisou tentar várias vezes até conseguir cambalear atrás dele.
No carro, ela se encolheu no canto mais distante.
A cabeça latejava. O estômago revirava, a náusea arranhando a garganta. Ela levou uma mão à boca, mas um som abafado escapou.
— Quietinha — disse Alexander, com irritação na voz.
Ela mordeu o lábio, tentando obedecer, mas os tremores não paravam.
Ele lançou um olhar para ela. Sob a luz fraca, o rosto dela estava pálido como um fantasma, riscado de lágrimas e com a maquiagem borrada. O sangue tinha encharcado o vestido, deixando manchas escuras.
Ele não sentiu nada além de aborrecimento.
No meio do caminho, quando passaram perto do Central Green, Alexander falou:
— Para o carro.
O motorista encostou.
Alexander se virou para ela.
— Desce.
