Capítulo 4 Quatro

Livia Carter.

No banheiro, fiz o básico, lavei as mãos e retoquei a maquiagem. Meus cachos ainda estavam dignos, obrigada.

Quando saí...

Fui prensada contra a parede com a força de alguém que não sabe o próprio tamanho. Minhas mãos foram presas ao alto da minha cabeça, e a respiração quente tocou minha face. Quase gritei por ajuda, mas fui interrompida por aquele cheiro.

O perfume denunciou o idiota antes mesmo que eu pudesse reconhecer seu rosto.

- Dá pra tirar suas mãos de mim ou tá difícil? - rosnei, encarando aqueles olhos negros tão cheios de raiva quanto... desejo?

Mason.

Óbvio que seria Mason.

O universo me odeia de graça.

- Qual é o seu jogo, Carter? - ele disparou, a voz baixa, dura, carregada de veneno. - Você vem ao aniversário da minha noiva... mal olha pra mim, dança daquele jeito só para me provocar... - sua mão apertou minha cintura - e agora tá dando trela pro meu irmão. O que você quer com tudo isso?

Ele parecia intoxicado - drogado talvez, e isso de alguma forma tornava tudo pior.

- E la vamos nós. - respondi, tentando manter a paciência que eu definitivamente não tinha. - Não sei que tipo de droga você andou usando, mas claramente não fez um bom efeito. Agora você vai me soltar, eu vou voltar pra mesa, e ninguém precisa sair daqui sem um rim. Entendido?

Ele aproximou o rosto do meu, tão perto que senti a respiração quente.

- Você não consegue ficar perto de mim sem me desejar - ele sussurrou, como se estivesse anunciando alguma verdade absoluta do universo. - Conheço o seu jogo, Carter. Finge ser amiga da Samantha, mas tá só esperando a primeira chance pra dar o bote.

Eu pisquei.

Depois pisquei de novo.

E então ri.

De incredulidade. De raiva. De nojo.

- Você tá se ouvindo? - perguntei lenta e friamente. - Tá ouvindo a MERDA que saiu da sua boca?

Os olhos dele arderam.

Toquei no ponto certo.

- Dane-se se você tá aqui ou que é noivo da minha amiga - continuei, sem desviar o olhar. - Você me ta tentando me tirar do serio desde que chegamos e agora quer pagar de ofendido? Poupa-me do seu teatro, Mason.

Senti o aperto diminuir. Leve, quase imperceptível.

Fraqueza momentânea.

- E, se você tem a mínima intenção de ter filhos algum dia, eu sugiro que me solte agora.

Ele sorriu.

Aquele sorriso perigoso que precede burrice.

- E se eu não soltar? O que de tão horrível pode acontecer? - sibilou, voz carregada de desafio.

Pois bem.

Ele pediu.

- Isso.

Em um movimento fluido, forte e preciso - a mão que estava presa escapou, desceu, e meu joelho encontrou o destino com perfeição cirúrgica.

Mason caiu com um gemido gutural, xingando tudo o que existe e o que ainda vai existir.

- Eu avisei - declarei, ajeitando a bolsa no ombro antes de seguir meu caminho.

Voltei para a mesa como se nada tivesse acontecido, embora meu coração batesse tão rápido que poderia facilmente ser confundido com trauma ou adrenalina.

- Onde você tava? - Summer perguntou, já chamando atenção de todo mundo.

- Banheiro - respondi, simples. - E, bem, tô indo embora.

Summer fez aquela cara de cachorro abandonado na chuva.

- Você prometeu.

- Estou exausta. Nos vemos depois. E não precisa se preocupar - disse com um sorriso tranquilizador - já liguei para o Tyler. Ele tá vindo me buscar.

Samantha, ainda na vibe festa-infinita, tentou me convencer a ficar por mais algumas horas. Usei duas ou três mentiras leves sobre meu irmão ser impaciente, e finalmente consegui escapar.

Do lado de fora da boate, o ar fresco me atingiu como um presente dos céus.

Chamei um táxi e me joguei no banco, sentindo cada músculo do meu corpo implorar pela minha cama.

Tudo o que eu queria era dormir.

E esquecer Mason por algumas horas.

Mason Miller.

Ela estava absurda naquele maldito vestido - um golpe certeiro de beleza que grudou na minha pele, no meu ar, e até no tecido da minha camisa. O perfume dela ficou preso em mim depois que se foi, e, droga, eu devia ter segurado aquela mulher por mais tempo. Lívia Cárter é a razão do meu desejo e da minha insônia há dois anos. Sempre impecável, sempre chamando atenção, sempre me provocando com um simples olhar.

Sim, eu transformei a vida dela no escritório num inferno particular. Sim, isso faz de mim um babaca. Mas, inferno, ela fica perfeita quando está irritada: o semblante fechado, os braços cruzados, aquele bufar impaciente... e o revirar de olhos que me destrói.

Dois anos tentando - falhando mais do que acertando - apenas para que essa mulher percebesse que ela nunca saiu da minha cabeça.

E aí, do nada, Christopher aparece. Um papinho leve, um sorriso besta... e pronto, conseguiu o número dela em minutos. Em minutos, enquanto eu venho implorando por migalhas de atenção há anos. Sinceramente, já posso cavar minha cova.

Não que Christopher não mereça. Ele é um bom homem, um irmão de ouro, gentil, educado, cavalheiro. Ficou viúvo recentemente - minha cunhada tirou a própria vida há alguns meses - e desde então ele anda quebrado por dentro.

Foi ideia minha trazê-lo hoje. Eu só não esperava que ele fosse mirar justamente na minha mulher. Sim, minha. Lívia será minha esposa - o fato de ela não saber disso ainda é detalhe.

Falando em casamento... é tudo fachada. Samantha e eu cursamos um período da faculdade juntos e acabamos bons amigos, apesar da diferença de idade. Ela até já foi modelo de campanhas da empresa da família.

A situação é simples: Samantha precisava de um empurrão na carreira. E eu, como bom amigo, topei ajudar. Afinal, o que promove melhor alguém do que ser noiva de um dos homens mais poderosos do país?

E, claro, eu também ganhava com isso. Na minha mente genial, Lívia surtaria de ciúmes e acabaria aos meus pés - como todas as outras.

Que idiota eu fui. Ela nunca será como todas as outras.

Respiro fundo, passo a mão pelos cabelos e tento recompor o pouco de dignidade que restou. Ainda sinto o impacto do golpe porque, honestamente, a desgraçada me acertou bonito.

- Tudo bem, irmão? - a voz de Christopher me puxa de volta. Só percebo que voltei para nossa mesa quando olho ao redor. - Parece perturbado. Ansioso pro casamento, talvez? - ele brinca.

- Recebi uma ligação. Algo da empresa - minto, tentando soar convincente.

- Você é um homem de sorte, Mason. Samantha é uma bela mulher - ele comenta, observando-a dançar com algumas amigas. E, embora eu devesse focar na minha futura noiva fake, minha mente só conseguia perseguir a imagem de Lívia, que nesse momento já devia estar do outro lado da cidade.

Provavelmente furiosa porque eu estraguei a noite dela.

Parabéns, Mason, você conseguiu de novo, penso, enquanto viro o drink de uma vez só.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo