Capítulo 3 Apenas um selecionado?

Raven não conseguia entender por que tinham escolhido apenas ela, quando deveriam admitir três estagiários. No entanto, ela não tinha coragem de perguntar mais nada a Anthony Baker e ficou quieta, olhando pela janela na direção para onde iam.

Em trinta minutos, chegaram ao enorme prédio de quinze andares, com três alas, na Wigmore Street. Os olhos de Raven se arregalaram diante do magnífico edifício de escritórios onde ela trabalharia pelos próximos cinco anos. O sr. Baker dirigiu direto para o estacionamento do subsolo e a conduziu até os elevadores.

— O Departamento de Produção e a Sede de Produção Corporativa ficam no décimo quarto andar desta ala. A outra abriga as equipes de RP, marketing e RH. Há mais uma ala onde ficam Financeiro, TI e outros departamentos — informou Anthony Baker.

— Ah, então eu vou trabalhar aqui, no Departamento de Produção? — perguntou Raven, animada, torcendo para ficar o mais longe possível de Ralph Van Halen.

— Não tenho certeza, srta. Porterfield. Isso cabe ao senhor decidir — respondeu ele.

Eles chegaram ao décimo quarto andar, e o elevador parou. O sr. Baker saiu a passos firmes e Raven o seguiu, olhando ao redor para o escritório decorado com bom gosto. Ele a fez esperar na ampla área de recepção, onde um jovem de expressão séria comandava o lugar com eficiência. Ao vê-lo, Raven teve a impressão de que Ralph Van Halen devia ser um chefe extremamente rígido. Não era de se admirar que o rapaz não tivesse nem tempo para respirar!

Anthony Baker saiu de uma sala no fim do corredor e caminhou até onde ela estava sentada, esperando pacientemente para ser chamada.

— Srta. Porterfield, pode entrar. O senhor está esperando por você — avisou ele, indo em direção aos elevadores.

Raven se levantou, nervosa, e caminhou até a sala indicada, com o coração martelando forte dentro da caixa torácica. Ela esperava que Anthony Baker estivesse presente na reunião, mas, com ele indo embora, não sabia como encarar Ralph Van Halen sozinha. Parou diante da porta, fez uma oração silenciosa e então olhou para o elevador. Será que ela podia fugir e nem aceitar o emprego?

— Srta. Porterfield, por favor, entre — ordenou uma voz rouca, pelos alto-falantes perto da sua cabeça.

Ela se assustou e deu um pulo, olhando ao redor. De onde vinha aquela voz? Ele estava observando enquanto ela rezava pela própria segurança? Meu Deus! Que vergonha! Será que ele percebeu a hesitação dela? Talvez já estivesse se arrependendo da decisão de admitir uma funcionária inexperiente como ela!

Raven respirou fundo, abriu a porta e espiou para dentro. Ainda bem que ele estava sentado bem longe, atrás de uma enorme mesa de mogno. O escritório dele tinha um ar escuro, caro, contemporâneo e neutro que combinava com a personalidade dele. Ela entrou e fechou a porta atrás de si. O coração trovejava no peito, apreensivo, porque ela sabia o que estava prestes a acontecer. Talvez ele falasse sobre o beijo que ela lhe deu sem querer. Será que ele iria puni-la?

Hesitando um pouco, deu passinhos curtos até a mesa. Para sua sorte, ele estava concentrado em algum trabalho e não levantou os olhos para ela. Raven parou à sua frente, apoiando-se na mesa para não vacilar.

— Sente-se — ordenou ele, ainda sem olhar para cima, e Raven se perguntou como ele sabia que ela estava ali.

Ela se sentou em silêncio, torcendo as mãos no colo de nervoso. De tão perto, dava para ver que ele era absurdamente bonito. Na verdade, bonito demais para o próprio bem. Parecia estar no fim dos vinte — talvez vinte e oito, mais ou menos. Isso o deixava oito anos mais velho que ela! Droga! Por que ela estava comparando a idade dele com a sua?

“Você tem um namorado, pelo amor de Deus, Raven”, lembrou a si mesma.

— Se já terminou de me encarar, podemos trabalhar? — disse ele, ríspido, ainda olhando os papéis em sua mão.

A mandíbula de Raven caiu de surpresa. O homem tinha olhos na testa?

— Eu não estava encarando. Eu estava pensando no trabalho — corrigiu ela, com as bochechas coradas.

— É mesmo? Aqui está o acordo que você precisa assinar antes de começar a trabalhar conosco — disse Ralph Van Halen, empurrando os papéis em que estava mexendo na direção dela.

Raven pegou os documentos e os examinou. Pareciam papéis legais de contrato.

— Leia com bastante atenção antes de assinar — disse Ralph Van Halen, finalmente encarando-a diretamente nos olhos.

Ela assentiu e baixou o olhar imediatamente para não dar nenhum sinal errado. Enquanto lia em silêncio, tinha plena consciência do olhar intenso dele sobre ela, mas não ergueu os olhos nenhuma vez. Os documentos diziam tudo o que havia sido discutido na entrevista. Ela não podia deixar a empresa antes de completarem cinco anos. Pegou a caneta mais próxima e assinou, erguendo o olhar quando sentiu uma presença ao lado da sua cadeira.

Para sua surpresa, Ralph Van Halen estava em pé ao lado dela, olhando para o documento que ela havia assinado. Quando ele tinha se levantado da cadeira? Ela empalideceu com a proximidade dele e se levantou também, entregando-lhe os documentos assinados. Ele os pegou devagar de suas mãos trêmulas e os deixou sobre a mesa, sem tirar os olhos dos dela. Raven tentou se recompor e baixou o olhar para os próprios pés, nervosa.

— Por que você me beijou? — exigiu ele, furioso, olhando para o rosto corado dela, seus lábios trêmulos e seus olhos grandes e inocentes, enquanto ela ainda estava em choque com a repentina pergunta.

— E-eu sinto muito — murmurou ela, num sussurro quase inaudível, olhando para todos os lados para evitar o olhar dele.

Num movimento rápido, ele afastou a cadeira que estava diante dela e avançou, apoiando os braços sobre a mesa, um de cada lado dela. Presa entre a mesa e o corpo rígido dele, Raven engoliu em seco, lutando por ar.

— Por que você me beijou, Raven? — perguntou ele, quase em desespero.

Raven ergueu os olhos para ele, admirada com a forma como seu nome soava tão exótico no tom carregado pelo sotaque dele.

— E-eu, na verdade, perdi uma aposta. Então minhas amigas me obrigaram a beijar... — antes que pudesse terminar a frase, ele a interrompeu.

— Você tem o hábito de beijar desconhecidos aleatórios por causa das suas amigas? — perguntou, furioso.

— Não, eu nunca beijei ninguém antes... — começou ela, mas ele não tinha o hábito de escutar.

— Chega de besteira, srta. Porterfield. Você me beijou para conseguir este estágio. Eu conheço gente do seu tipo — disse ele com dureza.

Raven o encarou, de boca aberta, sentindo-se profundamente insultada pelas palavras dele. Ela não precisava se rebaixar tanto para realizar seus sonhos, quando havia se formado no topo da turma com a maior média.

— Eu não preciso me rebaixar tanto para realizar meus sonhos, senhor. Eu não conhecia o senhor quando concordei em cometer o maior erro da minha vida. O senhor pode ficar com seu estágio. Eu consigo um bom estágio com base no meu esforço e na minha inteligência — disse ela, tentando empurrá-lo para sair.

Lágrimas arderam em seus olhos por causa daquelas palavras cruéis. Ela não queria trabalhar na empresa dele. No entanto, ele não se moveu nem um centímetro; apenas ficou observando-a atentamente.

— Eu sou o maior erro da sua vida, Raven? — perguntou, enquanto ela tentava inutilmente escapar dele.

— Sim. Eu já estou em um relacionamento e sinto muito por tudo o que aconteceu. Não quero mais aceitar este estágio — disse ela, mas ele continuou sem se mover, encarando-a com uma expressão sombria.

— Você tem namorado?

— Sim, senhor. Vou me casar com ele no ano que vem — anunciou. — Eu só aceitei a aposta porque só estudantes frequentam aquele café e ninguém nunca usa terno lá. Se o senhor não tivesse chegado usando terno, eu não teria precisado beijá-lo. Foi azar nosso, na verdade. Sinto muito mesmo — disse ela outra vez. — Por favor, me deixe ir.

— Você não pode — disse ele, em voz baixa.

Ela ergueu os olhos para ele, confusa.

— Não posso?

Ele se recompôs, soltou a mesa e se endireitou.

— Você não pode deixar a empresa antes de cinco anos, srta. Porterfield. Você assinou um contrato conosco.

Raven ficou paralisada, como uma estátua. O contrato! Ela tinha se esquecido completamente dele.

Ele voltou para a cadeira e falou no interfone, impaciente. Alguns minutos depois, um homem baixo, de óculos, entrou na sala.

— Sim, senhor, o senhor precisava de mim?

— Sim, Kendrick. Esta é Raven Porterfield, nossa nova estagiária do Departamento de Produção. Ela é sua responsabilidade agora. Mostre a ela seu posto de trabalho e informe o que precisa ser feito.

— Por favor, venha comigo, srta. Porterfield. Sou Kendrick Rogers, gerente assistente de Produção.

Raven olhou para Ralph Van Halen, mas ele já a havia dispensado. Vendo-o ocupado com o trabalho, ela seguiu silenciosamente o sr. Rogers para fora da cova do leão. Estava grata por escapar. O sorriso voltou aos seus lábios ao perceber que trabalharia em um andar totalmente diferente, com um chefe simpático e gentil.

Ela chegou ao décimo andar, onde trabalharia pelos próximos cinco anos. O sr. Rogers a conduziu até sua baia.

— Vá se acomodando, srta. Porterfield. Vou mandar alguém explicar tudo para você, certo? — disse ele, e Raven assentiu.

Ela se sentiu muito mais relaxada naquele ambiente aberto e positivo ao seu redor. O escritório amplo, minimalista e mobiliado de forma esparsa, salpicado de plantas por todos os lados, fez com que ela esquecesse a atitude confusa de Ralph.

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