Capítulo 4 Assistido?
Depois de alguns minutos, um homem alto, na casa dos vinte e poucos anos, aproximou-se da baia dela. — Olá, Raven, bem-vinda ao Grupo JC. Sou Charlie Gardner, gerente de trainees corporativos aqui na filial de Londres. Vou treiná-la durante o período do seu estágio. Então você vai se reportar a mim sobre tudo. Gostou do seu novo local de trabalho?
— Bom dia, senhor. Sim, o ambiente aqui é positivo, e estou ansiosa para começar a trabalhar.
Ele sorriu, satisfeito, e puxou uma cadeira para se sentar ao lado dela. Nos minutos seguintes, explicou sobre a empresa e todo o processo de produção, enquanto Raven o ouvia de olhos arregalados.
— Interessante, não é? — perguntou ele com um sorriso, e Raven assentiu. — Você parece tão jovem, Raven. Se importa se eu perguntar a sua idade?
— Tenho vinte anos, senhor — respondeu ela, gostando do jeito amigável dele, um contraste gritante com o chefão da empresa.
— Isso faz de você a mais jovem de todo o escritório. Você também estuda?
— Ah. Sim, eu estudo, mas sou muito dedicada e não vou deixar meu trabalho ser prejudicado, senhor — disse ela, sentindo-se envergonhada.
— Por favor, me chame de Charlie — disse ele, com um brilho divertido nos olhos.
Raven assentiu, achando bastante estranho chamar o chefe pelo primeiro nome logo no primeiro dia de trabalho.
Ele lhe passou trabalho e explicou como completá-lo dentro do prazo. Depois que ele saiu, Raven começou a trabalhar em sua primeira tarefa, mas os pelos da nuca se arrepiaram em alerta. Parecia como se alguém a estivesse observando. Olhando ao redor por todo o escritório, viu que ninguém estava olhando para ela. Talvez fosse apenas o estresse e o nervosismo pregando peças em sua mente. Quando se acomodasse depois de alguns dias, ficaria bem.
A carga de trabalho era tanta que já tinha passado muito do horário do almoço e ela não conseguira pegar nada para comer. Se estivesse na faculdade, suas amigas a teriam arrastado até o Little Cafe e a entupido de comida. As amigas dela adoravam comer e sempre garantiam que ela nunca pulasse nenhuma refeição. Pensando nelas, de repente Raven se lembrou de que havia se esquecido de avisá-las sobre seu estágio. Tinha saído do campus sem informar nenhuma delas! Elas deviam estar muito preocupadas com ela.
Um rapaz veio em direção à baia dela e parou ao lado de sua mesa. — Ei, nunca vi você por aqui antes. Fugiu da escola? — Ele sorriu da própria piada quando uma mulher de cabelos escuros, da idade dele, se juntou a ele, olhando para Raven com interesse.
— Haha, hilário! Eu pareço uma colegial para você? — Raven lançou um olhar fulminante ao homem, mas ele apenas continuou rindo.
— Cala a boca, Danny. Oi, eu sou a Chloe e este é o Danny. É hora do almoço. Você gostaria de se juntar a nós? — perguntou Chloe.
— Oi, eu sou a Raven. Adoraria comer alguma coisa. Estou faminta. — Ela desligou o computador, pegou a mochila e saiu com eles. Logo, mais algumas pessoas se juntaram ao grupo e todos foram para a cafeteria do escritório almoçar.
Um rapaz bonitinho sentou-se ao lado dela. — Eu sou Thomas. Fico bem ao lado da sua baia — disse ele, estendendo a mão para cumprimentá-la.
— Ah, eu não tinha reparado em você. Desculpa — disse Raven, com as bochechas corando de vergonha.
— Você é uma gracinha — disse ele com um sorriso, e Raven corou ainda mais.
— Para de paquerar, Thomas — disse outra garota, puxando uma cadeira e se sentando com eles. — Não liga para ele. Ele flerta com todo mundo. Aliás, eu sou Lucy, da equipe de design.
— Oi, entrei hoje como estagiária — informou Raven.
— Nós sabemos! Você está sob o comando de Charlie Gardner — disse Chloe, revirando os olhos. — Ele é um chefe durão, mas não sei como esqueceu de latir hoje depois de conhecer você. — Todos caíram na gargalhada, mas Raven não compartilhou da diversão deles.
— Juro, eu também percebi — disse Lucy.
— Ele foi muito profissional comigo — disse Raven, franzindo a testa diante da insinuação deles.
— Pessoal, vamos pegar nossos pedidos — disse Thomas, levantando-se. Danny e Lucy também foram com ele buscar a comida. Raven também ia se levantar quando Chloe segurou sua mão. — Nem precisa. Eles vão trazer — disse ela.
— Então, conta. Como você conseguiu entrar aqui? Você tem só vinte anos, e a Van Halen é muito criteriosa com perfeição e experiência — perguntou Chloe.
— Não tem muito o que contar. Teve uma prova escrita e uma entrevista no campus da nossa faculdade, e eu fui selecionada — informou ela, evitando detalhes desnecessários.
— Não me diga que o próprio Van Halen selecionou você? — ela perguntou, incrédula.
— Sim, mas Anthony Baker conduziu a entrevista na presença do senhor — explicou Raven, para que não entendessem a situação de forma errada.
— Então você deve ser muito boa no que faz — disse Chloe, com admiração.
Raven corou. — Ainda estou aprendendo — disse ela. Os outros trouxeram a comida, e todos atacaram famintos. Quando ela estava prestes a dar uma mordida no hambúrguer, Charlie Gardner se aproximou da mesa deles.
— Se importam se eu me juntar a vocês? — perguntou ele, com os olhos fixos em Raven. Todos se entreolharam, mas ninguém teve coragem de recusar. Afinal, eram todos trainees, e ele era o chefe a quem se reportavam.
— Então, Raven, está gostando daqui? — perguntou Charlie, puxando uma cadeira e sentando-se à sua frente.
— Gosto do ambiente, senhor — respondeu ela, percebendo que ele já tinha feito aquela pergunta antes. Os outros tornaram a se entreolhar, se comunicando em silêncio por meio da própria linguagem de sinais.
— Então, em qual faculdade você estuda? — Raven conseguia ver as expressões entediadas nos rostos deles enquanto toleravam o interrogatório.
— Estou na Faculdade de Moda de Coventry, Sr. Gardner.
— Me chame de Charlie, por favor — disse o Sr. Gardner. Lucy engasgou e quase caiu da cadeira. Charlie Gardner era um idiota bonitão que só sabia sobrecarregar os estagiários com trabalho e mais trabalho. Aquilo era um lado completamente novo dele, e todos estavam chocados demais para dizer qualquer coisa. Raven corou com a atenção indesejada que estava recebendo.
— Sim, Srta. Andrew, você terminou os designs do projeto mais recente? Você já está atrasada para a entrega.
— Sim, senhor, vou terminar hoje — prometeu Lucy.
— Eu terminei. Vou voltar ao trabalho — disse Raven, levantando-se. Ela queria escapar da atenção de Charlie Gardner.
— Eu também vou voltar — disse Charlie Gardner, levantando-se também. Os outros gemeram e lhe lançaram um olhar de solidariedade. Raven foi até o elevador com Charlie Gardner. Ficou mexendo nos dedos, inquieta, ciente do olhar assustador dele. Nenhum dos dois disse uma palavra. A porta se abriu, e ele saiu com ela. No momento em que Raven saiu do elevador, teve a mesma sensação estranha de estar sendo observada. Olhou em volta, mas não conseguiu ver ninguém. Charlie Gardner a acompanhou até sua baia, para seu desgosto. Ele puxou uma cadeira e se sentou ao lado dela, verificando sua primeira tarefa.
— Sr. Gardner, venha para a minha sala, agora — ecoou da porta a voz furiosa de Ralph Van Halen, seus olhos raivosos fixos diretamente na baia de Raven. Todos pareceram aflitos ao ver o grande chefe, furioso. Charlie Gardner se levantou nervosamente e foi em direção à porta. Raven se abaixou e se escondeu da vista de Ralph Van Halen enquanto ele esperava pelo Sr. Gardner. Logo os dois desapareceram em algum lugar, e sussurros abafados começaram a circular à sua volta. Raven continuou trabalhando e enviou o material por e-mail para o Sr. Gardner. Depois de ter sido chamado, Charlie Gardner não voltou nenhuma vez à sala deles, e todos estavam preocupados.
— Eu adoraria ver ele sendo demitido — disse Lucy.
— Eu também — disse Chloe.
— Terminei por hoje. Vou ao Oxygen hoje à noite tomar um drinque. Quem topa ir comigo? — perguntou Danny, olhando para Raven com interesse. Raven nunca tinha ido a um lugar assim antes, porque seus pais eram rígidos demais e não aprovavam esse tipo de coisa. Ela sabia que o Oxygen era uma boate agitada ali perto, já que era bastante famosa até entre seu grupo de amigos.
— Por que vocês não vão lá para casa em vez disso? — disse Thomas, percebendo o desinteresse de Raven.
— Pode contar comigo — disse Chloe, animada.
— Eu também — disse Lucy, pulando para cima e para baixo.
— E você, Raven? — perguntou Thomas.
— Eu... — começou Raven, mas, antes que pudesse falar, um Sr. Rogers muito aflito entrou correndo na sala.
— Srta. Porterfield, o Sr. Van Halen mandou chamá-la ao escritório dele agora mesmo — informou ele, ofegante.
— Ah... — O rosto de Raven desabou, e ela ficou olhando para o Sr. Rogers com nervosismo. O que ele queria agora?
O telefone dele vibrou, e ele atendeu com uma expressão grave no rosto.
— Sim, senhor. Eu a informei. Ela está indo — disse, em pânico. Depois de desligar, olhou para Raven.
— Por que você ainda está aqui?
— Já estou indo, senhor — disse Raven com um suspiro, pegando a mochila e caminhando em direção aos elevadores. Ela passou a língua pelos lábios, nervosa, sem saber o que ele queria daquela vez. Depois da última reunião, não esperava que ele a chamasse de novo. Tinha pensado que não precisaria mais interagir com ele.
Ela chegou ao andar dele tomada pelo pavor e caminhou até o escritório, rezando em pensamento. Bateu de leve à porta, tentando controlar as batidas descompassadas do coração.
— Entre — veio a resposta imediata. Ela empurrou a porta e espiou para dentro. Ele não estava à mesa, onde deveria estar. Abrindo mais a porta, entrou na sala. Viu-o sentado no sofá do outro lado do cômodo, com o laptop e um monte de arquivos espalhados à sua frente.
— Sim, senhor? — perguntou, hesitante, mas ele não ergueu os olhos do trabalho.
— Sente-se e me ajude com esses arquivos — rosnou ele. Raven se sentou no sofá ao lado dele, sem saber exatamente que tipo de ajuda ele precisava. Ela não entendia por que ele sempre parecia tão zangado. Com o maxilar travado e o rosto vermelho de raiva, ele despejou uma montanha de arquivos diante dela, assustando-a.
— Que pena que você não vai poder ter sua noitada de diversão — disse ele, sarcasticamente, enquanto Raven o encarava de boca aberta.
