Capítulo 5 Deixando ela em casa

Raven quis contestar o comentário cheio de julgamento dele, mas não queria irritá-lo ainda mais. Ele já tinha uma péssima opinião sobre ela. Ela se perguntou como ele sabia dos planos deles. Será que tinha espiões por perto para vigiar seus funcionários? Talvez.

Ela se recompôs e pegou o arquivo que estava por cima. Não fazia ideia do que fazer com aquilo e lançou um olhar discreto para ele. Ralph Van Halen escolheu exatamente aquele momento para erguer os olhos para ela, impaciente.

— Estes são documentos importantes, todos guardados de qualquer jeito. Verifique em que pasta cada um deve ir e organize tudo nas respectivas pastas. Fui claro? — perguntou ele, impaciente, sustentando o olhar dela.

Raven assentiu.

— Sim, senhor — respondeu num sopro, pegando o enorme maço de documentos dele.

Aquilo levaria a noite inteira! Aquilo nem era trabalho dela, mas como poderia argumentar? Afinal, ele era o chefe. Será que não tinha nenhuma assistente pessoal para fazer tudo aquilo? Quanto mais rápido terminasse, mais cedo poderia ir para casa. Ela se concentrou no trabalho. Nos minutos seguintes, fez apenas isso, com dedicação, procurando os documentos e separando-os de acordo com o lugar de cada um. Era um trabalho muito cansativo e entediante, nada a ver com ela, mas não reclamou nem uma vez. Também não ergueu os olhos uma única vez para ver o que seu chefe estava fazendo. Seu pescoço ficou rígido e seu estômago roncou, mas ela continuou sem parar até terminar.

Por fim, acabou. Fechou o último arquivo e fechou os olhos cansados, aliviada. Agora podia ir para casa. Ao abrir os olhos, finalmente olhou para cima. Para seu horror, Ralph Van Halen estava sentado, encarando-a fixamente, com a cabeça apoiada na mão. O laptop dele estava fechado, como se já tivesse terminado o trabalho e estivesse esperando por ela. Havia quanto tempo ele estava observando? Ela não fazia ideia. Corando furiosamente, levantou-se.

— Terminei o trabalho, senhor. Onde devo guardar estes arquivos? — perguntou com cortesia.

— Podem ficar para amanhã. Já está tarde — retrucou ele, levantando-se.

Raven olhou para o relógio de pulso e soltou um suspiro ao ver que já eram onze horas. Como o tempo tinha passado tão depressa? Ela não sabia! Tirou o celular da mochila e arregalou os olhos ao ver dez chamadas perdidas do pai. Eles deviam estar preocupados com ela!

Ralph observou a expressão dela com interesse. Estava claro que ela não fazia ideia da hora. Talvez o namorado estivesse esperando em casa, afinal, ela tinha lhe dito que estava em um relacionamento. Seu sangue ferveu e sua mandíbula se contraiu só de pensar nisso.

— Posso ir, senhor? — perguntou ela, com uma expressão ansiosa.

— Seu namorado está esperando por você em casa? — perguntou ele, com desgosto, mas ela estava preocupada demais com os pais para prestar atenção em qualquer coisa.

Raven correu em direção à porta sem perceber que não tinha carro para ir para casa. Ela nunca tinha viajado sozinha de metrô tão tarde da noite. Talvez devesse pegar um táxi. Entrou no elevador, mas, para sua surpresa, ele não se fechou, e Ralph também entrou com ela, o rosto sombrio e irritado.

— Anthony trouxe você da faculdade, não foi? — perguntou ele.

Será que os pais dela já tinham ido à polícia? Estariam procurando por ela por toda parte? Ela nunca tinha ficado fora até tão tarde da noite. A família de Raven morava havia quarenta anos em uma casa de dois andares num bairro nobre de Fulham. Seus pais lhe deram o carro antigo deles no aniversário de dezoito anos e insistiram para que ela o usasse. Eles tinham ido bem no negócio de desenvolvimento de software até recentemente. Mesmo assim, ela sempre usava o metrô para ir à faculdade.

— Sim, senhor. Vou pegar um táxi.

Ralph se sentiu um pouco culpado por tê-la prendido por tanto tempo.

— Eu vou levar você para casa. Sem discussões — ordenou.

Para sua surpresa, ela não retrucou e o seguiu docilmente até o carro.

— Me dê seu endereço, Raven.

Ela lhe disse o endereço, com a voz sonolenta de sono. Tinha acordado às quatro da manhã para terminar um trabalho e já não conseguia mais se manter acordada.

Ralph dirigiu para o endereço que ela lhe deu. Estava muito curioso para saber com quem ela morava. Será que chegaria em casa e beijaria o namorado do mesmo jeito que o tinha beijado pela manhã? Uma inquietação estranha tomou conta de todo o seu corpo.

— Então, seu namorado deve estar preocupado em casa, certo? — insistiu ele mais uma vez, mas de novo não houve resposta.

Será que a garota era surda ou muda? Frustrado e irritado por estar sendo ignorado, ele lançou um rápido olhar na direção dela, pronto para lhe dar uma bronca. No entanto, para sua surpresa, encontrou-a profundamente adormecida no banco ao lado. Ela parecia tão inocente, e sua pele cremosa brilhava sob a luz dos postes, que ele sentiu uma fisgada no coração.

Ao chegar à casa dela, ele estacionou o carro bem em frente. Desligando a ignição, virou-se e a observou em silêncio. Não queria acordá-la. Ela parecia tão etérea, como um anjo. Em seus vinte e oito anos de vida, Ralph nunca havia se sentido amolecer por garota alguma. Sua reação a uma garota que acabara de conhecer o deixava perplexo. Embora mal a conhecesse, sua mente não dava ouvidos à lógica. Ele ansiava reviver aquele beijo outra vez. Talvez, depois de outro beijo, voltasse a se sentir normal.

“Ralph, ela é oito anos mais nova que você e já tem namorado. Nunca mais beijaria você”, lembrou sua voz interior.

Ele nunca acreditou em relacionamentos. Para ele, sexo casual, sem compromisso e de uma vez só era um estilo de vida. Sua boa aparência, dinheiro e posição sempre o tornavam popular entre as mulheres. Nunca houve falta de mulheres dispostas a aquecer sua cama, e ele não era nenhum santo. Tirava proveito disso e vivia intensamente.

Então por que aquele beijo inocente era tão especial para ele? Por que o desejava de novo e de novo? Ele estendeu a mão e tocou a bochecha dela, acariciando-a com o dorso da mão. Era tão macia que ele poderia continuar a noite inteira sem se cansar. Ela devia estar extremamente exausta para ter adormecido assim no carro dele. Ralph fitou sua boca ligeiramente entreaberta enquanto ela dormia. Será que poderia passar o polegar ali e sentir novamente seu calor e sua maciez?

De repente, ela se mexeu, e ele ficou imóvel. Para sua surpresa, ela se aninhou em sua mão. Ralph sentiu o coração se abrandar diante daquela reação. Queria puxá-la para perto e beijá-la como fizera naquela manhã.

— Raven, chegamos à sua casa — sussurrou no ouvido dela, inspirando seu cheiro doce.

— Hum — ela murmurou, mexendo-se um pouco e voltando a dormir.

— Acorde, ou eu vou beijar você de novo — sussurrou em seu ouvido.

— E-eu d-desculpe, senhor. A-acabei dormindo — gaguejou ela, abrindo bem os olhos. — Obrigada. Já estou indo.

Ela abriu a porta, desceu e cambaleou até a entrada, enquanto Ralph permaneceu sentado no carro, em silêncio, observando-a tocar a campainha. A porta se escancarou, e ele ouviu uma voz masculina gritando com ela. Do carro, não conseguia ver o homem. Seria o namorado?

Ralph não conseguiu mais ficar sentado vendo aquele homem descarregar sua raiva em Raven. Como ele ousava falar com ela daquele jeito? Ela já estava tão cansada. Ele foi até a porta a passos largos e então viu o homem que gritava com Raven, enquanto ela recebia toda a bronca em silêncio. Os traços dele se pareciam com os de Raven, e ele já era velho.

— Me desculpe, pai. Não vai acontecer de novo — disse ela mansamente ao pai.

Ralph congelou. Era o pai dela! Ele avançou para salvar a garota da ira do pai. Afinal, se Raven estava atrasada, a culpa era dele.

— Sr. Porterfield, não é culpa dela ter chegado tarde — começou, mas o pai dela lançou-lhe um olhar fulminante.

— Quem diabos é você?

— Senhor, hoje houve uma entrevista no campus da faculdade de Raven. Ela entrou para a minha empresa como estagiária. Sou Ralph Van Halen, chefe de produção, sócio e fundador da JC Group Inc. Como estávamos terminando um trabalho, Raven acabou ficando presa no escritório. Da próxima vez, tenho certeza de que ela vai avisar o senhor — explicou.

A boca do pai dela se abriu ao reconhecer Ralph imediatamente.

— Obrigada por trazer nossa filha, Sr. Van Halen — disse uma mulher, saindo de dentro da casa.

Ralph sorriu para ela.

— Sou Eva Porterfield, mãe de Raven. Este é James Porterfield, pai de Raven — apresentou ela.

— Olá, prazer em conhecê-los. Está tarde. Preciso ir — disse a eles, e foi embora sem olhar para Raven outra vez. Sabia que ela o observava, e, se olhasse para ela, não conseguiria partir.

Ele foi embora e dirigiu até sua casa com imagens do rosto adormecido de Raven atravessando sua mente. Já passava muito da meia-noite quando chegou à sua enorme e extensa mansão. Estacionando o carro, destrancou a porta principal o mais silenciosamente possível. Sabia que sua avó estaria dormindo, e o menor ruído sempre a acordava.

Sua avó era a única presença permanente em sua vida desde que seus pais haviam se separado quando ele tinha cinco anos. Foi ela quem o criou, dando-lhe o amor e o cuidado de pai e mãe. Ele nunca sentiu a ausência dos pais por causa da avó. Ela amava aquela casa, que seu avô construíra para ela, e se recusava a morar em qualquer outro lugar. Foi por causa dela que Ralph voltou para Londres e passou a maior parte do tempo ali com a avó, na casa de sua infância.

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