Capítulo 3 Capítulo 03

— KAMILLY

Sentei-me na cadeira ergonômica, puxando a primeira pasta contra o peito antes de abri-la sobre a madeira escura. Respirei fundo, controlando a pulsação acelerada que batia nos meus ouvidos não por pavor, mas pela descarga bruta de adrenalina percorrendo as minhas veias. O medo era um luxo que eu havia aprendido a descartar anos atrás, quando a fome e a inclemência da vida tentaram me esmagar. Um homem rico franzindo o cenho e destilando grosseria não era nada comparado ao que eu já enfrentara para chegar até ali.

O escritório era uma fortaleza de vidro, aço e superfícies gélidas, um reflexo exato da alma do homem que o habitava. Cada metro quadrado daquele andar exibia riqueza, poder e uma opulência sufocante. Mas o verdadeiro peso do ambiente não vinha da decoração de grife; vinha dele. Sebastian exalava uma presença esmagadora, magnética e perigosa, preenchendo cada centímetro da sala apenas com a sua projeção. O som rítmico da sua caneta sobre o papel, o ranger abafado do couro da poltrona, a aura de um predador à espreita… Eu sabia que ele estava me fitando. Seus olhos queimavam nas minhas costas, rastreando cada micro-movimento meu, buscando a menor brecha onde pudesse fincar as garras.

Não virei o rosto. Não precisei. Minha espinha estava reta como uma lâmina.

O silêncio denso foi rasgado pela voz dele, baixa, cortante como um estilhaço de vidro:

— Você não me teme, não é?

Lenta e deliberadamente, ergui o queixo. Girei o tronco o suficiente para encará-lo sem curvar a espinha, mantendo os meus olhos firmes nos dele. Sebastian estava recostado na borda da própria mesa, os braços cruzados sobre o peito largo, analisando-me como se eu fosse um enigma complexo e insolúvel.

— Eu reconheço a sua autoridade como meu chefe — respondi, minha voz saindo perfeitamente controlada, serena e firme. — Mas respeito profissional não se confunde com submissão cega. E eu não tenho medo do senhor, senhor Sebastian. Não importa quanta autoridade o senhor exerça, nem o tamanho do seu império.

Ele franziu a testa com força, os traços endurecendo ainda mais, visivelmente atordoado por ouvir aquilo. Era óbvio que ninguém ousava falar com tanta clareza há anos.

— Deveria — retrucou ele, o tom carregado de uma ameaça sutil, quase predatória. — Todo mundo treme diante de mim. Eu sou exatamente o tipo de perigo que este mundo produz.

Mantive o olhar fixo, sem piscar, sem recuar um milímetro sequer.

— O meu temor tem outras origens, senhor Sebastian. Eu temo a escassez, temo perder quem amo, temo a dor daqueles que não têm voz. Mas temer um homem? Um ser humano de carne, osso e falhas? Não. O senhor respira o mesmo ar que eu, tem um coração batendo no peito — mesmo que insista em mantê-lo trancado sob camadas de orgulho e frieza calculada.

Sebastian emitiu uma risada curta, seca, absolutamente vazia de humor, um som que feriu o ar ao redor.

— Você não faz a menor ideia do abismo onde enfiou os pés, garota. Não sabe do que sou capaz quando decido destruir alguém.

— Então me mostre — desafiei, mantendo a serenidade intacta, a voz firme cortando o espaço entre nós. — Prove nas atitudes, não nas ameaças. Eu não vim aqui para mendigar aprovação nem para abaixar a cabeça diante de nenhum tirano. Estou aqui pelo meu trabalho. E enquanto a minha entrega for irrepreensível, nenhuma cara feia ou blefe seu vai me mover daqui.

Ele desencostou da mesa, dando um passo à frente. A sua presença física expandiu-se, pesada e intimidadora, projetando uma sombra sobre o meu espaço. Parou a poucos centímetros de mim, testando os meus limites, esperando ver a minha fachada rachar. Eu permaneci inabalável, sustentando aquele olhar escuro e profundo que parecia capaz de derreter aço.

— Você é perigosamente teimosa — murmurou ele, a voz reduzida a um rosnado baixo. — E essa insolência pode custar caro. Ainda não decidi se vou admirar isso ou quebrar essa sua postura.

— E o senhor é profundamente isolado — retruquei instantaneamente, sem o menor tremor na voz. — Se continuar vendo desafio em tudo que não se curva a você, vai afastar quem realmente quer somar. Julgue o meu valor pelo que entrego, não pelo seu próprio medo de perder o controle.

Ficamos em silêncio por longos segundos. Os olhos dele faiscaram em uma mistura complexa de fúria contida e, pela primeira vez, um vislumbre genuíno de perplexidade. A armadura dele trincou por um instante breve antes que ele a selasse novamente, erguendo a muralha de gelo.

Sebastian virou-se bruscamente, retornando para trás da sua mesa, embora a mandíbula continuasse cerrada com força.

— Termine o que eu pedi — ordenou ele, a voz fria como o inverno. — E não se iluda com essa sua confiança. Continuo sendo o seu chefe. E os erros continuam sendo inadmissíveis.

— Sim, senhor — respondi, voltando os olhos aos documentos com a mesma calma inabalável. — E o senhor logo vai perceber que erros não fazem parte do meu vocabulário.

Não precisei olhar para trás para saber que ele continuava me observando. Mas agora o silêncio era diferente — mais leve, mais silencioso, como se pela primeira vez em muito tempo, alguém tivesse entrado ali e não tivesse se curvado. E no fundo, eu tinha a certeza de que isso era exatamente o que ele precisava, mesmo que ele mesmo ainda não conseguisse admitir.

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