Capítulo 5 Capítulo 05
— KAMILLY
O silêncio que se abateu sobre o escritório pareceu mais denso, mais pesado do que antes. Eu finalizava a organização dos últimos contratos, mantendo os dedos estáveis sobre o papel, mas sentia o peso do olhar dele queimando nas minhas costas — e já não era apenas desconfiança. Era fúria contida, como se cada palavra que eu havia proferido tivesse atravessado a armadura que ele levara anos para forjar.
De repente, ele se levantou com um movimento brusco, e o som da cadeira rangendo sobre o assoalho polido provocou um arrepio que não vinha do presente, mas de um passado que eu acreditava ter deixado para trás. Ele atravessou a sala em passos largos e parou diante de mim, tão próximo que eu podia sentir o calor que emanava do seu corpo, a sua presença avassaladora preenchendo todo o espaço ao meu redor. Quando falou, a voz era áspera, cortante, carregada de uma ameaça que vibrou no ar entre nós:
— Você acha que me decifrou? Que pode entrar aqui, destilar algumas palavras bonitas e me desafiar como se fôssemos iguais? — rosnou, baixo e perigoso, encurralando-me sem sequer estender a mão. — Eu não sou um homem bom, Kamilly. E se continuar cutucando o que não compreende, posso te destruir de formas que você sequer consegue imaginar. Posso tomar tudo que você tem. Deixá-la sem um tostão, sem ninguém, sem nenhum lugar para onde correr. Você entendeu o alcance disso?
Aquelas palavras — sem nenhum lugar para onde correr — atingiram-me como um soco no estômago. O ar fugiu dos meus pulmões por um instante. De repente, o escritório se desfez e eu estava de volta a um quarto pequeno, com janelas trancadas, ouvindo uma voz que dizia exatamente as mesmas coisas, todas as noites. Se você tentar sair, eu te encontro. Você não é nada sem mim. Ninguém mais vai te querer. Ruan. O nome que eu não pronunciava há anos ecoou na minha mente como um alarme silencioso, trazendo de volta o peso opressivo de uma gaiola que eu havia demorado tanto tempo para escapar.
Respirei fundo, uma vez, duas, ancorando-me no agora. E quando ergui os olhos para encontrar os dele, não havia medo neles. Apenas uma tristeza antiga, e uma firmeza que eu havia aprendido na marra.
— Eu entendi — disse, baixa mas sem vacilar, mantendo o queixo erguido. — E ouvi essas mesmas frases, com exatamente o mesmo tom, durante três anos. De um homem que jurava me amar todas as noites e me aprisionava todas as manhãs. Ruan. Ele dizia que eu era dele, que ninguém mais seria capaz de me amar, que se eu o deixasse, eu estaria perdida para sempre. Que eu não era nada sem ele.
Vi a fúria nos traços dele se dissolver em uma perplexidade genuína, mas continuei, a voz estável, costurando cada palavra com a mesma dignidade que eu precisara reunir para sobreviver:
— Eu vivia sob regras que não eram minhas. Não podia sair sem explicação, não podia receber visitas sem permissão, não podia ter uma opinião que não coincidisse com a dele. E por muito tempo eu acreditei que era verdade — que eu não era capaz, que eu precisava de alguém para me guiar. Até que um dia percebi: o medo não é escudo. É prisão. E eu decidi que nenhum homem jamais diria para onde eu posso ir, com quem posso falar, ou quem eu sou. Ninguém mais deterá a chave da minha própria vida.
Fitei-o nos olhos, sem recuar um milímetro, mesmo que o coração batesse mais forte não por ele, mas pela força de tudo que eu havia superado.
— O senhor pode me ameaçar o quanto quiser. Pode me demitir hoje mesmo. Mas não vai conseguir me assustar com isso. Porque eu já sobrevivi ao pior que um homem pode oferecer. E saí inteira. Estou aqui, trabalhando, reconstruindo o meu caminho. E ninguém — absolutamente ninguém — vai me fazer sentir que não tenho o direito de existir exatamente como sou.
Ele permaneceu imóvel, como se minhas palavras tivessem o atingido fisicamente. A boca entreabriu-se sem que nenhum som emergisse. Os olhos, antes duros e impenetráveis, amoleceram por um instante — breve, mas perceptível — como se pela primeira vez ele não estivesse vendo apenas a sua secretária, mas a mulher que havia lutado para chegar até ali.
— Eu não sou ele — afirmou, a voz rouca e baixa, quase um sussurro.
— O senhor ainda não é — concordei, suave mas firme. — Mas não use as mesmas armas que ele. Porque elas não funcionam comigo. E porque elas revelam que o senhor também está preso, senhor. Preso ao seu próprio medo de se aproximar de alguém que não teme você.
Virei-me devagar e voltei à minha mesa, empilhando os últimos documentos com mãos que não tremiam, embora por dentro ainda sentisse o eco distante daquelas palavras antigas. Mas eu não me encolhi. Não baixei a cabeça. Não mais.
E senti que, atrás de mim, ele permaneceu ali. Em silêncio. Me olhando de um jeito diferente. Como se finalmente, após anos de muralhas, alguém tivesse conseguido enxergar para além de tudo que ele insistia em mostrar.
