Capítulo 2 Maju 1
Depois de um longo dia puxado de trabalho e um insistente cliente chamado Eduardo ficar o dia todo no meu pé, eu enfim consigo voltar para casa. O meu trabalho é bem longe do Morro do Alemão, onde moro. Lá eu não tenho muitas amizades e nem ando na rua, nunca fui nos bailes ou nas festas. Só tenho uma única amiga que se chama Jenifer, ou melhor, Pretinha. Nós crescemos juntas e ela é bem diferente de mim, tem uma alma de pipa voada e fica até mesmo no meio dos caras perigosos. Porém eu não tenho muita coragem e passo bem longe deles por medo mesmo. O único que ainda converso é o Jeferson, irmão dela, e o Madson, que ela anda pegando escondido de todos. Mas minha mãe não gosta muito e diz para eu sempre correr deles, principalmente do Imperador. Deste eu tenho muito medo. A fama dele é de homem frio e calculista que mata sem piedade. A Dani, filha da amiga da minha mãe, se envolveu com ele e só anda com a cara quebrada.
Penso enquanto as horas passam dentro do ônibus.
Assim que chego na ponta do morro, já fico desanimada, mas fazer o quê, né? A vida não é fácil para ninguém e principalmente para uma favelada como eu. Penso, subindo. Os vapores da entrada começam a soltar conversa.
Vapor 1 — Nossa, chegou a princesinha da favela, mano. O melhor do meu plantão é ver ela passando para ir pra casa.
Vapor 2 — A mulher mais linda que a favela já viu. Por ela eu largo até essa vida de bandido...
Eles comentam e eu finjo não ouvir, continuo subindo até que vejo uma movimentação na pracinha e uma aglomeração. Lá está a Dani brigando com alguém novamente por causa do Imperador. Ela não muda e não cansa de pagar mico. E pensar que no passado éramos amigas... Eu nunca pensei que no futuro ela estaria nessa situação, tão mudada, tão diferente. A mesma com olhos verdes e uma mini blusa rosa, os cabelos compridos. Olha que o comentário da favela toda é que ele bancou cirurgias plásticas para ela e até deu dinheiro para ela colocar o cabelo. Eu fico observando ela.
A gritaria continua e eu fico ali tentando passar para ir embora, ficando impedida pela multidão. O povo começa a gritar, fotografar e ela humilha a menina pegando uma tesoura para cortar o cabelo. Nesse momento escuto um barulho de motos e, quando vejo, lá está o Imperador e o Morte, os dois ali no meio da confusão. O povo abre espaço e consigo vê-lo ali sem camisa mostrando as suas tatuagens. E não posso negar: ele é muito bonito.
Ele também é um diabo e eu tenho pena da Dani, que vive se rastejando a esse homem frio. Eu não queria estar na pele dela... Penso olhando para eles até ver ele pegar a arma e dar tiros para cima. Eu saio dali rápido me escondendo. Eu nunca cruzei com ele, ele nunca me viu e nem deve saber da minha existência. E isso é bom, porque pessoas assim devemos ter distância.
Vou caminhando até chegar na minha casa e lá eu vou direto para o meu quarto. Pego uma roupa e saio dali indo direto para o banheiro, onde tomo um banho frio e visto um pijama. Me sinto completamente confortável e vou descendo as escadas para arrumar a mesa do jantar, pois daqui a pouco a minha mãe chega e eu quero curtir um final de tarde ao seu lado. Com esse pensamento vou direto para a cozinha preparar a janta e, nesse momento, escuto a voz da doida da Jenifer.
Jenifer — Miga, cheguei!
Maju — Oi, doidinha, entra aí. A porta tá aberta... disse gritando da cozinha e logo ela veio.
Jenifer — Oi, meu amor lindo. Como foi hoje no trabalho?
Maju — Oi, amiga. Foi tranquilo e cansativo como sempre.
Jenifer — E o bonitão da Zona Sul? Me conta se vocês já ficaram.
Maju — Ainda não, amiga. Ele me chamou para sair, porém eu ainda não confirmei se vou. Não sei, amiga, se devo.
Jenifer — Aí, amiga, para disso. Deixa de fazer cu doce. Eu quero só ver quando você vai dar essa piriquita, mulher. Tu já tem 22 anos e nada. Não sabe o que tá perdendo.
Maju — Aí não é assim as coisas não. Eu preciso me apaixonar, eu quero que seja especial. Só isso, amiga.
Jenifer — Tá bom, tu que sabe. E enquanto isso eu vou continuar curtindo.
Maju — Curtindo com um homem perigoso, amiga. Cuidado.
Jenifer — Aí, amiga, ele faz gostoso. Pena que é descarado e não fica só comigo.
Maju — E aí tu faz papel de trouxa igual a Daniela.
Jenifer — Não, amiga, não mesmo. A besta anda por aí pagando de fiel e querendo bater em todo mundo por causa do Imperador, e ele passando a rola na favela toda.
Maju — Pois é. E cuidado para você não acabar assim. Hoje mesmo estava chegando do trabalho e estava rolando a maior briga aí da Daniela com alguma mulher. O Imperador e o Morte chegaram bem no meio e eu imagino até o fim dela.
Jenifer — Ficar com o rosto todo inchado de porrada, né, minha gostosa?
Maju — Meu Deus, só pode ser louca de se submeter a isso.
Jenifer — Amiga, a fama é que o Imperador faz gostoso e todas querem sentar pra ele. A Dani foi brincar e se apaixonou, quer vida fácil, dinheiro e curtição ao lado dele, então tem que pagar o preço, amiga.
Maju — Pois é. Então analisa porque o Madson não é flor que se cheire.
Jenifer — Tá bom, Maju, eu sei me cuidar. Relaxa, eu só tô brincando e ele também. Porém eu vim aqui te chamar pra irmos no baile amanhã.
Maju — Não sei não, acho melhor não, amiga.
Jenifer — Pensa com carinho, amiga, pfvr. Bom, agora vou lá em casa que talvez eu receba uma visita hoje.
Maju — Eu imagino até quem é essa sua visita, dona Jenifer.
Jenifer — Aí, amiga, sou jovem. Eu curto hoje, amanhã me arrependo com o rabo ardendo... Ela diz e sai correndo. Eu fico ali rindo das maluquices dela e continuo cozinhando, desligo o forno e me deito no sofá para assistir TV e acabo pegando no sono.
Desperto assustada e olho no relógio vendo que já são 22h e a minha mãe ainda não chegou. Isso é estranho demais, pois ela sempre chega às 19h. Eu não entendo. Me levanto preocupada e já achando que aconteceu algo e, quando pego o telefone para ligar, a porta da casa é aberta e minha mãe aparece com uma cara abatida.
Maju — Mãe? O que foi? Por que a senhora está assim?
Maria — Filha, eu passei mal no trabalho e fui levada ao hospital. Lá fiz uma bateria de exames e descobri que estou com câncer, meu amor. A minha patroa me demitiu.
Maju — Calma, mãe, vai ficar tudo bem. A senhora é forte. Fica em casa descansando e se cuidando e eu continuo trabalhando e cuidando das despesas da casa.
Maria — Meu amor, eu só tenho um mês de vida.
Maju — Como assim, mãe? Tá brincando comigo?
Maria — Não, meu amor, eu não estou brincando não. Eu preciso fazer uma cirurgia no valor de 40 mil. Eu não tenho esse dinheiro, então eu vou morrer.
Maju — Meu Deus, isso não. A gente dá um jeito, mãe. Eu não sei, podemos tentar fazer alguma coisa. Sei lá, vamos falar com o dono do morro, pedir emprestado ou com o Madson. Ele namora com a Jenifer, ele pode nos ajudar, a gente vai pagando aos pouquinhos.
Maria — Não, minha filha, nada disso. Não pense nisso, não se meta com esses homens.
Maju — Eu não quero te perder, minha mãe... digo me levantando e saindo dali sem rumo, com lágrimas nos olhos.
Como eu ia viver sem a minha mãe? Isso não era justo. Sempre nós duas, uma pela outra, e agora essa bomba. Eu não sei o que fazer, mas não quero perder a minha mãe. Eu não posso viver uma vida sem ela. Isso me acabaria. Eu preciso dar um jeito, preciso arranjar uma solução para isso. Não sei como, mas preciso... Fico sem rumo até chegar na casa da Jenifer e bater na porta. De imediato quem abre é o irmão dela, o Jeferson.
Jeferson — Maria Júlia, o que tá acontecendo? Que cara é essa, menina? E as roupas que você está vestida...
Eu não consigo responder, apenas fui até a Jenifer e a abracei sem nem perceber mais nada.
Jenifer — Se acalma, amiga. O que foi?
Maju — A minha mãe está muito doente. Só tem um mês de vida e eu preciso de 40 mil reais. Não sei viver sem ela.
Jenifer — Calma, meu anjo. Vai dar tudo certo. Eu vou tentar te ajudar.
Maju — Menor, você tem como me ajudar? Me empresta e eu pago.
Menor — Eu não tenho esse dinheiro todo não...
O Morte, que também estava ali, disse:
Morte — Vai dar tudo certo, Mama.
Maju — Como, Madson, se eu não tenho como salvar a minha mãe? Me ajuda, Madson.
Morte — Eu não tenho como te ajudar, mas eu sei quem pode te ajudar.
Maju — Quem?
Morte — O Imperador. Só que ele vai cobrar esse favor.
Menor — Ficou doidão? Querendo entregar a Maju na mão do Imperador? Ela não merece isso não.
Jenifer — Eu concordo. Ela não merece ele mesmo e eu não vou deixar ela fazer essa merda.
Maju — Eu aceito. Fala com ele pra mim, pfvr.
Madson — Você tem noção do que ele vai querer em troca, Maju?
Menor — É lógico que ela não tem e não deve se meter com ele...
Maju — Tudo bem. Eu quero. Eu preciso salvar a minha mãe.
Madson — Blz. Eu vou falar com ele e te digo. Provavelmente eu faça esse encontro com vocês amanhã no baile e ele não vai negar. Eu tenho certeza que ele vai ficar louco. Você é muito linda.
Maju — Tudo bem. Eu suporto só uma noite e depois fico livre.
Menor — Não acho que vai ser só uma noite não, mas tudo bem. Eu só espero que você tire isso da cabeça.
Maju — Fica calmo. Eu vou ficar bem. Eu sei o que estou fazendo. É pela minha mãe.
