CapĂ­tulo 2 đŸ„€ Capitulo 1 đŸ„€

● Alexander Blake ●

Estaciono meu carro na garagem e respiro fundo, apoiando a cabeça no volante por alguns segundos. Preciso de coragem para enfrentar o furacĂŁo triplo que me espera dentro de casa. TrĂȘs pequenos coraçÔes impacientes. TrĂȘs mundos que giram em torno de promessas, rotina, e, acima de tudo, da saudade.

Esse não era o tipo de aniversårio que eu havia imaginado para eles. A ideia original era perfeita - uma viagem para a Flórida, alguns dias na casa de praia dos avós, castelos de areia, mergulhos no mar, risadas... talvez um ou dois arranhÔes no joelho e uma quantidade absurda de sorvete. Mas a vida - essa senhora que adora atrapalhar - decidiu mudar os planos sem aviso prévio.

No fim, fiquei preso a reuniÔes interminåveis, contratos urgentes e uma empresa que teima em exigir mais de mim do que deveria. Me vi afogado em compromissos quando tudo que eu queria era estar presente.

Pego o bolo, de maneira quase acrobĂĄtica, com uma mĂŁo, e seguro com a outra as sacolas recheadas de presentes. Abro a porta da cozinha com dificuldade, empurrando-a com o ombro, e dou de cara com trĂȘs pares de olhos castanhos, fixos em mim com uma intensidade que sĂł crianças magoadas conseguem carregar.

- VocĂȘ prometeu, papai - dizem as gĂȘmeas ao mesmo tempo, suas vozes uma mistura de mĂĄgoa e acusação.

Suspiro fundo antes de enfrentĂĄ-las. O peso da culpa me cai sobre os ombros como uma avalanche silenciosa.

- VocĂȘ prometeu que chegaria cedo, que farĂ­amos uma noite de cinema como fazĂ­amos com a mamĂŁe - diz Maya, seus olhos grandes e Ășmidos cravados nos meus, como se tentassem encontrar uma explicação plausĂ­vel para o meu atraso.

- E mais uma vez, vocĂȘ nĂŁo cumpriu - completa Marie, com os braços cruzados e a expressĂŁo espantosamente parecida com a da mĂŁe quando estava decepcionada comigo.

A dor bate forte no peito.

Quatro anos. Quatro longos e silenciosos anos desde que perdi a mulher da minha vida. A mĂŁe dos meus filhos. O coração da nossa casa. Ainda me lembro do Ășltimo aniversĂĄrio em que estĂĄvamos todos juntos. Ela cantava parabĂ©ns desafinado de propĂłsito sĂł pra ver as gĂȘmeas darem risada. E Lucca, envergonhado, escondia o rosto no meu braço. Desde que ela se foi, temos caminhado sobre cacos de saudade, tentando juntar os pedaços da nossa rotina. Mas algumas noites sĂŁo mais difĂ­ceis que outras - como essa.

Antes que eu conseguisse abrir a boca para tentar uma explicação qualquer, Lucca - meu pequeno grande homem - se adiantou.

- O papai estava ocupado - ele disse, surgindo atrĂĄs das irmĂŁs. - Ele me ligou avisando que ia se atrasar. Estava... socorrendo um filhote de cachorro que encontrou na estrada.

Eu pisquei, surpreso. Um filhote?

- Por isso ele demorou - finalizou, dando-me um leve aceno com a cabeça. Um pacto silencioso entre nós dois.

As gĂȘmeas arregalaram os olhos, o brilho da curiosidade substituindo, aos poucos, a sombra da decepção.

- É verdade, papai? - perguntou Maya, jĂĄ com um sorrisinho tĂ­mido nos lĂĄbios. - VocĂȘ salvou um cachorrinho?

- E a gente pode ver ele? - MaitĂȘ se aproximou empolgada. - Podemos ficar com ele?

Pigarreei, tentando parecer convincente.

- É verdade, sim - improvisei, colocando um pouco de drama na voz. - Mas ele está sendo cuidado na clínica. Estava bem machucado... Mas quando ele melhorar, vamos buscá-lo. E sim, podemos ficar com ele.

As duas começaram a pular e gritar de alegria, dando voltas pela cozinha como se tivessem acabado de ganhar um unicórnio. Lucca, com um sorrisinho orgulhoso, me ajudou a colocar os presentes sobre a mesa.

- Salvo pela criatividade do filho mais velho - murmurei para ele, e ele apenas deu de ombros, como quem dissesse: "Alguém tem que manter essa casa de pé."

- Onde estĂĄ a tia de vocĂȘs? - perguntei, me referindo Ă  Jade, minha irmĂŁ que veio de Boston especialmente para cuidar deles neste fim de semana.

- EstĂĄ dormindo - responderam os trĂȘs em unĂ­ssono, com uma naturalidade que me fez estreitar os olhos de imediato.

A essa altura da vida, eu jĂĄ aprendi a identificar quando meus filhos estĂŁo escondendo alguma coisa. E, meu Deus, eles raramente estĂŁo sem esconder alguma coisa. Depois da terceira babĂĄ ter saĂ­do da casa chorando, alegando que tinha sido perseguida com um sapo no travesseiro e "amaldiçoada" por Marie com uma canção bizarra em latim que ela aprendeu sabe-se lĂĄ onde, nenhuma agĂȘncia quis mais nos atender.

Sim. Um sapo verdadeiro, que eles conseguiram nĂŁo sei onde, sobre o travesseiro, e uma mĂșsica ritualĂ­stica cantada por duas meninas de na Ă©poca sete anos.

Elas sĂŁo talentosas. E um pouco assustadoras, para ser honesto.

A Ășltima babĂĄ anterior Ă  minha irmĂŁ teve a brilhante ideia de tentar impor horĂĄrios rĂ­gidos. Resultado: trancaram-na do lado de fora com o alarme ativado e fingiram que ela estava invadindo a casa. Foi a polĂ­cia quem me ligou naquela noite. Foi... constrangedor.

Perfeito! Aqui estå a continuação com mais detalhes cÎmicos e expressivos, mantendo o equilíbrio entre humor e a personalidade do Sebastian como pai:

- O que fizeram com sua tia dessa vez? - pergunto, tentando manter a compostura. Minha voz sai com firmeza, mas suavizo o tom. É o aniversĂĄrio das gĂȘmeas, afinal. Ainda assim, nĂŁo posso parecer um completo banana. A autoridade tem que existir... nem que seja de fachada.

NĂŁo recebo nenhuma resposta imediata. Maya finge estar extremamente concentrada nos pratos. Marie subitamente encontra um interesse profundo em dobrar um guardanapo. E Lucca apenas ergue os ombros como quem diz: nĂŁo me meto.

Antes que eu pressione mais, ouço passos pesados no corredor, e então a imagem surge na porta da cozinha, me fazendo engasgar com a saliva e segurar o riso com tanta força que quase me då uma hérnia.

- Mas que diabos... - murmuro, completamente sem filtro.

Jade aparece com os cabelos desgrenhados, espetados em direçÔes que desafiam a gravidade. O rosto estå completamente coberto por maquiagem infantil - base rosa-choque, círculos vermelhos nas bochechas, uma sobrancelha desenhada com canetinha verde-limão e o que parece ser um bigode torto pintado com batom escuro. Um verdadeiro palhaço de filme de terror.

- VOCÊS. TRÊS. - ela grita, apontando com o dedo manchado de tinta. - Colocaram sonífero no meu suco! E depois me trancaram na sala de cinema com musicas infantis tocando em em um looping por CINCO HORAS ALEXANDER!

As gĂȘmeas caem na gargalhada. Maya se dobra sobre a mesa, quase derrubando os pratos. MaitĂȘ chega a escorregar no chĂŁo de tanto rir. Lucca morde o lĂĄbio inferior, claramente tentando manter a pose de "irmĂŁo mais velho responsĂĄvel", mas seus ombros tremem com a risada contida.

- Achamos que vocĂȘ iria gostar tia... - Maya diz entre risos. - Eram as preferida da mamĂŁe...

- E a maquiagem - completa Marie, orgulhosa - foi porque a tia prometeu que poderĂ­amos testar nossas novas habilidades.

Jade me lança um olhar mortal.

- Eu vou precisar de terapia. E talvez de um padre.

- Talvez uma garrafa de vinho ajude por enquanto - digo, segurando o riso, mesmo com a culpa dançando no meu peito.

Apesar do caos, hå algo reconfortante naquela cena. As risadas delas, a bagunça, até a frustração tragicÎmica da minha irmã - tudo aquilo me lembra que, de alguma forma, ainda estamos vivos. Ainda estamos juntos. E mesmo sem ela aqui, sem o nosso eixo... hå amor. E onde hå amor, hå esperança. E confusão. Muita confusão.

Suspiro fundo e sirvo uma fatia generosa de bolo para cada um.

- TĂĄ bom. VocĂȘs venceram. Mas por favor, por favor, nĂŁo enfiem mais sonĂ­fero em ninguĂ©m. Temos um fim de semana inteiro pela frente... e eu preciso da minha sanidade atĂ© segunda.

- Sem promessas - respondem as gĂȘmeas em unĂ­ssono, os olhos brilhando com aquele fogo sapeca que jĂĄ destruiu uma piscina inflĂĄvel, trĂȘs celulares e a dignidade de sete babĂĄs.

Deus me ajude.

CapĂ­tulo Anterior
PrĂłximo CapĂ­tulo