CapĂtulo 3 đ„CapĂtulo 2 đ„
â Aneliese Moore âą
Os almoços de domingo na casa dos meus pais são uma combinação perfeita entre tentativas frustradas de me arranjarem um pretendente e sessÔes de julgamento disfarçadas de conversas amåveis. Tudo isso enquanto exaltam a "vida perfeita" da minha irmã, Emily.
Com o tempo, aprendi a simplesmente aparecer, sorrir quando necessĂĄrio, observar tudo comendo em silĂȘncio, pensar na bagunça que o Sirius - meu cachorro - deve estar fazendo sozinho em casa e, depois de tudo, ir embora com a satisfação de ter sobrevivido a mais um fim de semana em "famĂlia".
Tedioso, eu sei. Mas entendam: eu nĂŁo sou a pessoa mais sociĂĄvel do mundo. E com a minha melhor amiga, Layla, fora da cidade em uma viagem de trabalho, fiquei sem desculpas plausĂveis para escapar dessa vez.
Por isso estou aqui, sentada à mesa da sala de jantar, com um prato à minha frente e a mente longe, calculando quantos dias faltam para minhas férias e cogitando meu próximo destino. Enquanto isso, Emily se gaba dos procedimentos mais recentes realizados pelo meu cunhado - como se tivesse ela mesma feito as cirurgias com as próprias mãos.
Tedioso, eu sei. Mas a comida da minha mãe continua impecåvel, então quem sou eu para desperdiçar lasanha de forno e queijo derretido por causa de uma reunião disfarçada de julgamento?
- Ane, querida, nĂŁo vai nos contar como andam as coisas na sua vida? - pergunta minha mĂŁe, pela primeira vez em quase uma hora de conversa. Talvez apenas para manter as aparĂȘncias, ou quem sabe buscando uma nova brecha para criticar minhas escolhas.
- Sem dĂșvidas a vida de Emy estĂĄ bem mais interessante, mamĂŁe. - respondo com um sorriso polido. - Na minha, nada de novo. Continuo na mesma empresa, no mesmo cargo... vivendo perigosamente no piloto automĂĄtico.
Claro que eu poderia mencionar que estou prestes a ir para a BĂ©lgica com meu chefe, para mais uma de suas convençÔes internacionais. Mas sinceramente? Prefiro manter minha paz de espĂrito. NĂŁo vale a pena desperdiçar energia tentando explicar que, sim, estou bem, mesmo sem um noivo, dois filhos e um perfil perfeito no Instagram.
- Continuo a dizer que vocĂȘ estĂĄ perdendo tempo trabalhando como uma simples secretĂĄria. - A voz do meu pai ecoa pela sala com a firmeza habitual, como se estivesse discursando para uma plateia que precisa ser convencida. - Com um currĂculo como o seu, vocĂȘ deveria estar dirigindo aquela empresa, nĂŁo servindo cafezinho para um magnata qualquer.
- Meu currĂculo nĂŁo Ă© tĂŁo impressionante assim, papai. - respondo com um leve sorriso, tomando um gole de suco com a maior calma do mundo. - E, apesar disso, eu gosto do que faço. O senhor Blake Ă© um Ăłtimo patrĂŁo.
Claro, ótimo exceto quando estå de TPM, como costumo classificar os dias em que ele decide implicar com a cor do grampeador ou com o café que, segundo ele, estå "mornamente inaceitåvel". Mas vå lå, ninguém é perfeito.
- Se ele fosse tão bom patrão, jå teria reconhecido seu valor. - Minha mãe entra no coro, com aquela doçura afiada que só ela domina. - Quem sabe até mesmo lhe promovido a um cargo mais digno do seu talento.
Ah, se eles soubessem. Se tivessem ideia de que meu salĂĄrio faz corar boa parte dos gerentes e diretores da empresa... Mas claro, pra quĂȘ jogar fatos quando preferem viver em novelas mentais onde sĂł a vida da Emily importa?
- Estou bem onde estou, mamãe. - digo num tom plåcido, espetando meu macarrão com a tranquilidade de quem estå muito acostumada a esses diålogos. - Gosto do que faço, e isso é o suficiente pra mim.
- VocĂȘ precisa ser mais ambiciosa, Ane. Olhe sĂł pra mim. - E aĂ vem Emily, com aquele tom professoral que me arranca um leve arqueamento de sobrancelhas. - Hoje eu tenho a vida que sempre quis, graças Ă s escolhas certas. VocĂȘ deveria seguir os meus conselhos.
Aham. Inspiração total. Só se for para uma peça de comédia.
Fico encarando Emily por alguns segundos, me perguntando exatamente o que, na vida que ela leva, seria digno de admiração. Nada contra ser sustentada pelo marido, claro, cada um sabe do que precisa - mas vamos combinar, não foi exatamente uma jornada de superação digna de Oscar. E o pior: ela acredita mesmo que construiu aquilo sozinha.
Eu, por outro lado, sou o tipo de mulher que nunca precisou de um coadjuvante para garantir o próprio final feliz. Meu carro, minhas economias, meu apartamento, minhas viagens... tudo veio das minhas horas extras, das reuniÔes interminåveis e de noites em claro digitando relatórios. Se o mundo desabar, sei exatamente quem vai me colocar de pé de novo: eu.
E honestamente? Isso vale mais do que qualquer promoção de fachada ou aplauso de conveniĂȘncia.
Estou prestes a responder Emily com a lĂngua afiada que herdei da minha avĂł paterna, quando o toque do meu celular ecoa pela sala, interrompendo o espetĂĄculo da minha irmĂŁ. Respiro fundo, aliviada por um motivo para calar a boca, e olho a tela. Arqueio as sobrancelhas em descrença.
Senhor Blake. Ele nunca liga aos domingos.
- Sem celular Ă mesa, mocinha. - diz meu pai, naquela pose de autoridade suprema que ele acha que tem, como se fosse o patriarca de um impĂ©rio e nĂŁo sĂł de uma famĂlia levemente disfuncional.
- Preciso atender, Ă© importante. - respondo jĂĄ me levantando da mesa, sem dar espaço para discussĂ”es. Sigo direto para a cozinha, ouvindo ao fundo os murmĂșrios indignados dos meus pais pela minha "falta de respeito".
Francamente, eu deveria mandar flores para o senhor Blake. Ele acabou de me salvar de uma emboscada emocional digna de tribunal familiar.
O celular vibra de novo. Respiro fundo e atendo.
- Senhor Blake, aconteceu algo? - pergunto tentando parecer profissional, mas a curiosidade jå me corrói por dentro. Ligação de domingo nunca é boa... ou é boa demais para ser verdade.
- Senhorita Moore, graças aos cĂ©us que atendeu. - A voz dele carrega um certo alĂvio, o que nĂŁo Ă© nada tĂpico. E quando Blake sai do protocolo, Ă© porque tem coisa.
- Peço desculpas por ligar em seu dia de folga. Espero não estar incomodando.
- Sem problemas, senhor Blake. - digo, me contendo para nĂŁo soltar um "o senhor acaba de me salvar de um interrogatĂłrio dos infernos". - Mas entĂŁo... aconteceu algo? EstĂĄ precisando de mim para alguma coisa?
- Na verdade, sim. Preciso que venha Ă minha casa, de preferĂȘncia agora, se for possĂvel. Tenho alguns assuntos que gostaria de tratar pessoalmente com a senhorita.
LĂĄ vem. Voz formal, postura rĂgida, e aquela sensação de que algo grande estĂĄ prestes a cair no meu colo.
- Bem, senhor Blake, ir atĂ© aĂ nĂŁo seria um problema, mas... eu nĂŁo sei onde o senhor mora. - digo, tentando nĂŁo parecer nem desesperada, nem excessivamente disponĂvel.
- Mandarei que meu motorista vå até sua casa, senhorita Moore. Ele deve chegar em alguns minutos.
- Eu... nĂŁo estou em casa. - digo, um pouco sem jeito. - Estou na casa dos meus pais, fora da cidade. Mas nĂŁo se preocupe, apenas envie o endereço e eu me encarrego de chegar aĂ o mais rĂĄpido possĂvel.
- Tudo bem então. - ele responde naquele tom cortante, mas contido. - Enviarei por mensagem. Até breve.
- Estarei a caminho, senhor. - digo antes de encerrar a chamada.
Desligo e encaro o nada por alguns segundos, agradecendo mentalmente ao universo, ao karma e atĂ© Ă Emily por ter aberto a boca a tempo de me empurrar direto para essa vĂĄlvula de escape. Agora sĂł falta bolar um plano de fuga digno de missĂŁo impossĂvel, porque convencer meus pais de que estou saindo no meio do almoço nĂŁo vai ser nada fĂĄcil.
Deus me ajude.
