CapĂtulo 6 đ„CapĂtulo 5đ„
âą Aneliese Moore âą
Os primeiros raios de sol invadiram o quarto atravĂ©s de uma pequena fresta nas enormes cortinas, um lembrete silencioso de que uma nova semana se iniciava. Um lembrete igualmente cruel de que, pelos prĂłximos trĂȘs dias, eu seria a responsĂĄvel pelos pequenos anjos do senhor Blake. E sinceramente? Eu estaria mentindo se dissesse que estou preparada.
Para falar a verdade, tenho quase certeza de que rezei para todos os santos e divindades ontem Ă noite antes de dormir, implorando para que, ao final desses trĂȘs dias, eu ainda tenha alguma sanidade. NĂŁo Ă© por nada, as crianças foram uns amores ontem Ă noite, depois que Sebastian e aquela mulher - que descobri ser sua irmĂŁ mais nova - partiram.
Claro, como secretĂĄria pessoal de Alexander eu sabia da existĂȘncia de uma irmĂŁ. SĂł nunca tinha tido o prazer de conhecĂȘ-la pessoalmente. TambĂ©m sei que ele tem um irmĂŁo, Gaspar Blake. Sei ainda que o senhor Blake Ă© o irmĂŁo do meio, e aparentemente, o mais fechado dos trĂȘs. NinguĂ©m precisou me contar isso. TrĂȘs anos trabalhando ao lado de Alexander me ensinaram a observar-lo muito bem.
Olho para o celular jogado no criado-mudo. 5h27 da manhã. As crianças precisam estar prontas às 7h30, jå que as aulas começam às 8h.
Levanto da cama, calço meus chinelos (ou pantufas, dependendo do humor), e me espreguiço, me preparando psicologicamente para o que vem pela frente. Sirius, que passou a noite comigo - e quase me derrubou da cama com seu corpinho "discreto" de Husky - ergue a cabeça e me lança aquele olhar de julgamento tĂpico da raça, como se dissesse:
"Isso mesmo, levanta e vai trabalhar, porque minha ração premium e o atum importado não se pagam sozinhos."
E bem, ele estĂĄ certo.
Caminho até a pequena mala que trouxe com o essencial, separo uma muda de roupa e sigo para o banheiro. Tomo um banho relaxante, me visto, faço minha rotina matinal e, por fim, encaro o espelho.
Cabelos presos em um rabo de cavalo, pele bem cuidada - porque, sim, posso atĂ© nĂŁo ter juĂzo, mas feia? Ah, meu amor, feia eu nĂŁo sou.
Passo meus cremes (os que couberam na mala, pelo menos) e me olho uma Ășltima vez antes de sair. Sinceramente, ainda nĂŁo entendi em que momento o senhor Blake olhou para minha cara e pensou que seria uma boa ideia me deixar cuidando dos filhos dele. Talvez ele precise dar uma repaginada na mansĂŁo e nĂŁo soube como pedir ajuda, entĂŁo deixou trĂȘs pequenos furacĂ”es sob minha responsabilidade, na esperança de que eu derrube tudo e justifique uma reforma. Ou talvez ele apenas esteja tentando aniquilar a prĂłpria descendĂȘncia. Porque, sĂ©rio, ninguĂ©m em sĂŁ consciĂȘncia deixaria seus filhos aos meus cuidados sem algum plano maligno escondido.
Visto a roupa que separei - jeans e blusa branca lisa. Seria essa a minha escolha para ficar em casa? Não. Eu gosto disso? Também não. Mas acontece que estou na casa do meu chefe, e não vou ficar desfilando por aà de pijama dos Minions. Limites, meus caros, limites.
Saio do quarto em direção ao de Lucca. Não porque ele seja o mais velho, mas porque, na minha cabeça, meninos se arrumam mais råpido. (O que, convenhamos, pode ser uma bela ilusão.)
Abro a porta devagar, jĂĄ notando que a cama estava arrumada e o quarto banhado pela luz do sol. Nenhum sinal do pequeno Blake - talvez estivesse no banho. Sigo entĂŁo para o quarto das gĂȘmeas... E a mesma cena se repete: camas feitas, tudo organizado, nenhum sinal das pequenas - nem mesmo nos banheiros. (Sim, eu chequei.)
As mochilas também tinham sumido.
Parece que o senhor Blake tem filhos mais responsĂĄveis que a prĂłpria secretĂĄria.
Desço as escadas e sigo em direção Ă sala de jantar. Um cafĂ© da manhĂŁ digno de filmes de Hollywood estava posto Ă mesa. Sentados em seus lugares, estavam os pequenos anjos, comportados como se tivessem sido treinados para isso, o que me fez questionar atĂ© que ponto o senhor Blake era rĂgido com seus filhos.
- Bom dia, senhorita Moore. - A voz de uma das gĂȘmeas, que ainda nĂŁo consigo distinguir qual delas Ă©, ecoa com animação.
- A senhorita dormiu bem? - perguntou a outra, exibindo um grande sorriso enquanto tomava seu suco.
- Bom dia, meninas. Bom dia, Lucca. - respondi sorrindo, enquanto as cumprimentava. - Dormi bem, obrigada por perguntarem. E vocĂȘs, como dormiram?
- Incrivelmente bem. - disse Lucca, sorrindo. - Senhorita Moore, vocĂȘ se importaria de se sentar ao meu lado? - perguntou o mais velho, como um pequeno cavalheiro.
- NĂŁo, senhorita Moore, vocĂȘ precisa se sentar entre nĂłs duas! - disseram as gĂȘmeas em unĂssono.
- Eu agradeço, crianças, mas nĂŁo costumo tomar cafĂ© da manhĂŁ. - disse, sorrindo. - Mas ficarei feliz em fazer companhia a vocĂȘs. - acrescentei, puxando uma das cadeiras vazias para me sentar.
No entanto, antes que eu pudesse me acomodar, ouço alguém chamar meu nome.
- Senhorita Moore? - Uma mulher mais velha, aparentando ter seus cinquenta e poucos anos, surgiu da cozinha trazendo consigo um bolo de chocolate, que colocou sobre a mesa. - Prazer em conhecĂȘ-la. Sou Vivian, a governanta da casa. - disse, sorrindo e vindo em minha direção.
- Como vai, Vivian? O prazer Ă© meu em conhecĂȘ-la. Me chamo Aneliese, mas pode me chamar de Ane. - respondi, um pouco sem jeito, sendo surpreendida por um abraço.
- Encantada, minha querida. - disse ela, soltando-me, ainda mantendo um sorriso acolhedor. - Se me permite perguntar... poderia me ajudar a pegar mais algumas frutas para colocar na mesa? Diana, a cozinheira, teve um imprevisto e ainda nĂŁo chegou.
- Claro. - respondi, sorrindo. - Serå um prazer ajudar. - completei calmamente, seguindo-a até a cozinha.
Assim que entramos no ambiente, Vivian me puxou discretamente para um canto, lançando olhares ao redor como se esperasse que alguém estivesse nos observando.
- VocĂȘ parece ser uma moça adorĂĄvel, senhorita Moore. - começou ela, cortando algumas frutas. - EntĂŁo, se posso lhe dar um conselho: nĂŁo confie cegamente nas crianças. - disse em tom calmo. - Ou, ao menos, verifique antes de fazer qualquer coisa que elas pedirem. SĂŁo uns amores com quem conhecem, mas costumam pregar peças em quem ainda nĂŁo tĂȘm intimidade. E, bem... - ela sorriu de canto. - VocĂȘ seria a prĂłxima vĂtima. As cadeiras da sala de jantar estĂŁo cheias de cola.
Meus olhos se estreitaram na mesma hora. Eu poderia duvidar daquilo, mas, convenhamos, o que ela ganharia mentindo?
- A senhora os viu fazendo is...
- Minha querida, eu vi essas crianças crescerem, assim como cuidei de Alexsander desde que ele tinha a idade do pequeno Lucca. - interrompeu ela, de maneira tranquila e carinhosa. - Se eu reconheço bem algo, Ă© aquela carinha de anjo que eles fazem, estĂŁo aprontando. VĂĄ por mim: vocĂȘ seria a prĂłxima vĂtima. Mas nĂŁo se preocupe. - ela acrescentou, como quem conta algo corriqueiro. - Uma hora eles se cansam.
Disse isso com uma naturalidade absurda antes de pegar a bandeja de frutas e voltar para a sala de jantar, me deixando ali, parada na cozinha com cara de tacho.
Agora, oficialmente, sinto como se estivesse em um campo minado - e eu sou o alvo. TrĂȘs pirralhos armados de sorrisos inocentes e uma
coleção de pegadinhas. Deus, me ajude.
