Capítulo 4 Capítulo 4

Ela se virou no susto, desconcertada.

— Você! — Tentou disfarçar, foi chegando perto e o olhando fixamente no rosto, evitando olhar para o corpo. — Enquanto eu ainda nem almocei, você até já está cochilando. Eu disse que precisava de ajuda, acho que você não está me levando a sério, Ramiro.

Ele entrou no quarto, pegou uma toalha e se enrolou.

— A patroa estava me procurando no guarda-roupa? Enquanto você dormia, eu já tinha tratado de quase todos os bichos. Por isso agora eu cochilo e você ainda não fez a sua parte.

Foi para a cozinha, desligou uma panela de pressão, colocou-a debaixo da torneira.

— Não vai querer a minha comida, né, dona?

Ela ficou olhando, irritada.

— Quero que siga o ritmo de trabalho dos outros. O que seria da fazenda se cada um fizesse o seu próprio horário?

Ele sorriu irônico.

— Ritmo? Ninguém lá está com muita vontade de trabalhar, não, dona.

Ela foi saindo com autoridade, o achando petulante.

— Quero que faça o horário normal, das sete às cinco, com uma hora de almoço. E o pagamento é só com trinta dias.

Ele ficou rindo de raiva, olhando-a pela janela.

— Está certo, dona Otária!

Ela subiu no cavalo e não ouviu o apelido maldoso. Ele almoçou, tomou banho, ficou bem tranquilo o resto do dia, só foi pegar os cavalos depois e não foi mais trabalhar.

Otávia foi se trocar para ir à cidade, passou bastante maquiagem tentando esconder os hematomas, colocou um vestido bonito que Matteo gostava e o tirou em seguida, resolveu usar roupas que a ajudassem a ser mais validada como fazendeira. Calça de montaria, bota de cano curto, camiseta e boné. Quando estava pronta, foi chamar Amélia. Demorou um pouco procurando-a, e a encontrou no quintal estendendo as roupas de cama.

— Amélia, vou à cidade e gostaria que fosse comigo para comprar algumas coisas no mercado, os produtos de limpeza.

Amélia respondeu sem olhar para ela.

— Já almoçou, dona Otávia? Fiz arroz, legumes cozidos e frango assado.

Ela disse que ainda não, foi para a cozinha enquanto a esperava, comeu um pouco e teve um mau pressentimento. Pediu para Amélia fazer uma lista, porque não ia mais junto, para ficar vigiando a casa.

Foi sozinha até a cidade. Primeiro, passou no banco, demorou duas horas, fechou contas, trocou senhas. Não foi sincera sobre ter sido roubada, mas disse que estava se divorciando. Completamente arrasada, percebeu que tinham até empréstimos com pagamentos pendentes, e que no cartório Matteo conseguia usar a assinatura dela, sempre dizendo que ela nem se levantava da cama de tão doente que era.

Quando ela foi ao mercado, já estava arrasada, só queria voltar para casa logo. Enquanto andava pelos corredores, cabisbaixa, encontrou a antiga faxineira que tinha sido dispensada por Matteo. Ela se aproximou para cumprimentar e perguntou como ela estava com a separação. Otávia ficou olhando, sem entender como ela sabia, e começou a ficar nervosa.

— É... você... Quem te contou? Ele saiu de casa ontem! Ele te chamou para ser testemunha de alguma coisa?

A moça ficou toda sem jeito.

— Não, eu não vi mais ele. Estou trabalhando em duas casas, e em uma delas ouvi falando de vocês. Meu patrão o encontrou na feira dos animais, há mais de um mês, com a advogada, aquela Emily. E a patroa falou que essa Emily aí está de caso com ele há mais de um ano, porque só vive cheia de luxos e viagens. Ô, dona Otávia, não me coloca no meio de problema, pelo amor de Deus, eu preciso do meu emprego.

Ela mal conseguiu responder, concordou e saiu andando, até desorientada, porque conhecia Emily há anos e não imaginava que teria um caso assim. Até achava Emily uma mulher incrível, que sempre a convidava para sair, ir ao salão, fazer passeios só de mulheres.

Sem conseguir pensar em outra coisa que não vingança, foi para casa, cega de raiva. Entrou gritando.

— Améliaaaa! Pega as compras no carro, só tira tudo bem rápido de lá.

Foi para a cozinha, lavanderia, voltou para o carro com um galão de cinco litros vazio e uma mangueira. Começou a tirar o combustível do carro. Amélia ficou olhando, preocupada.

— Precisa de ajuda, dona Otávia?

Ela estava com o olhar cético, concentrada no que estava fazendo, e disse que não. Antes de sair, entrou para pegar um litro de bebidas destiladas caras, que Matteo adorava. Foi para a rua de Emily, parou um pouco longe de casa, viu os dois chegando juntos, rindo como um casal apaixonado. Começou a preparar coquetéis molotov, colocando roupas dele junto com os litros de bebidas.

Emily morava em uma casa enorme em um bairro industrial bem tranquilo. Não estava passando ninguém por lá. Otávia jogou o resto das roupas no capô do carro dele, jogou combustível e ateou fogo em tudo. Os coquetéis caíram nos bancos. Ela se afastou um pouco e ficou olhando, em chamas por dentro igual ao carro. Só esperou os dois saírem na rua e foi embora. Mandou um áudio para Emily:

“Oi, amiga, fiquei sabendo do que aconteceu na sua casa, olhaaaa, os seus seguidores vão adorar saber tudo o que vem acontecendo com você, boa sorte, vai precisar!”

Foi uma ameaça indireta. Emily adorava exibir sua vida nas redes sociais, ficou desesperada, com medo e chorando. Em seguida, postou um vídeo aos prantos, fazendo drama, dizendo que alguém atacou o namorado dela e quase queimou a casa dela. Disse que levou um susto enorme e que não ia nem contar tão cedo, mas que estava grávida e pedia muitas orações a todos os seus amigos e seguidores, porque a inveja contra ela e o Matteo eram muito grandes.

Otávia só viu quando chegou em casa, ficou com mais raiva ainda, teve certeza que ele só a largou porque Emily estava grávida.

Matteo ficou com muita raiva, porque aquele carro estava sem seguro e ela sabia. Mandou uma mensagem, indignado, como se fosse vítima, dizendo que podia denunciá-la, interná-la em uma clínica de psiquiatria. Otávia respondeu:

“Não sei do que está falando, mas que ótimo fazer contato comigo, depois de me abandonar e ir morar com a sua amante. Quero saber do meu dinheiro, devolva tudo o que pegou!”

Ele ainda respondeu, provocando por áudio, rindo. Disse que ela estava louca e desequilibrada, e que não sabia de dinheiro nenhum, porque ela estava falida há anos e sem ele, não teria nem o que comer no último ano.

Ela decidiu entrar em guerra, já que não tinha nada a perder. No dia seguinte, levantou muito cedo, pegou três cavalos dele para tratar e tirar fotos, os levou para dar banho. O sol estava nascendo. Miro se levantou bem cedo e foi andar, a viu de shortinho jeans e bota galocha mexendo com os cavalos. De longe, ficou a cobiçando, pensou que o que ela tinha de bonita, tinha de chata.

Passou perto dela de propósito, só esperando a oportunidade de se vingar pelo dia anterior. Deu bom dia, parou ao lado, olhando o cavalo. Ela respondeu, dando ordem:

— Bom dia, Ramiro! Preciso que pegue o transporte e o lave, também que limpe o estábulo e alimente os outros cavalos. Vou vender alguns, preciso de tudo em ordem.

Ele continuou parado, com uma garrafa e um copo de café nas mãos, como quem fiscalizava o serviço dela.

— Ah, é? Tem muito estrume, né, mal dá para pisar. O transporte está estragado, viu, patroa. Não deu o meu horário ainda, vou tirar uma soneca ali, depois eu faço isso tudo.

Saiu rindo com deboche. Ela ficou olhando, irritada, com vontade de xingá-lo, continuou fazendo tudo sozinha, não dava a hora dele entrar logo e ela precisava de ajuda com o transporte.

Quando deu sete horas, ele foi para a plantação de propósito. Ela achou que ele estava dormindo, foi olhar nas redes e o encontrou vinte minutos depois, trabalhando na terra. Se aproximou, furiosa, a cavalo.

— Ramiro, eu não tenho o dia todo! Cadê o meu transporte?

Ele se aproximou devagar, com desdém e um riso debochado.

— Ô, patroa, eu achei que devia trabalhar feito os outros. Não foi o que me disse?

Ela até se corou de raiva, falou alterada:

— Vai agora pegar o transporte e o arrume se tiver com algo estragado. Quero tudo pronto em uma hora.

Saiu brava. Ele começou a rir, falando com a outra funcionária:

— Grossa do jeito que a dona Otária é, dava mesmo para andar no transporte de cavalo.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo