Capítulo 5 Capítulo 5

Ele se aproximou devagar, com desdém e um riso debochado.

— Ô, patroa, eu achei que devia trabalhar feito os outros. Não foi o que me disse?

Ela até se corou de raiva, falou alterada:

— Vai agora pegar o transporte e o arrume se tiver com algo estragado. Quero tudo pronto em uma hora.

Saiu brava. Ele começou a rir, falando com a outra funcionária:

— Grossa do jeito que a dona Otária é, dava mesmo pra andar no transporte dos cavalos.

Com a missão de dificultar a vida dela, ele foi pegar o transporte, arrumou o pneu e a tranca da porta, deixou-o longe e não colocou nenhum dos cavalos lá, nem cuidou dos outros. Ela estava dentro da casa, se arrumando para ir conversar com um amigo de seu pai na fazenda ao lado.

Miro foi até a casa chamá-la, assobiou na porta da cozinha, provocando Amélia. Ela estava na sala limpando, quando ouviu o barulho foi olhar, só então ele entrou, sujando o chão.

— Cadê a patroa?

Ela se alterou.

— Não pisa aqui com essas botas imundas, você é muito porco, mal-educado.

Ele saiu, batendo os pés de propósito.

— Eeee, calma, desculpa. Chama a patroa lá.

Amélia trancou a porta na cara dele.

— Espera lá na frente.

Ele deu a volta rindo, a achava muito esquentadinha e provocar era um de seus passatempos favoritos. Ficou encostado em um pilar esperando. Otávia saiu pronta, com um vestido de manguinha, transpassado na frente, com fenda na coxa, na altura do joelho na frente e mais comprido atrás, amarelo-bebê, botas de montaria, cabelo escovado e muito bem maquiada. Olhou-o séria.

— Conseguiu?

Ele a olhou sério, tentando não correr os olhos para a roupa ou o decote.

— Arrumei sim, patroa, não sei qual cavalo ia querer, não coloquei nenhum. Também não subi o transporte porque não tem carro para isso.

Ela foi ficando emotiva de tanta raiva.

— Não é pra se fazer de idiota que eu te pago. Você ficou desprovido de inteligência só quando eu passei a te pedir algo?

Ele sorriu com deboche, afrontando.

— Que isso, patroa, você não pede, manda. E não me pagou um centavo, caso tenha se esquecido. Se tivesse explicado melhor o que queria...

Ela foi se afastando.

— Vou sair e quando voltar, quero que tenha feito as suas obrigações ou a sua mala.

Ele disse que ia fazer tudo. Ela saiu de carro. Amélia falou com ele pela janela.

— Por que está fazendo isso pra ela? Seu caipira machista, não aguenta receber ordens de mulher, né. Tomara que te demita e logo.

Ele disse que todos seriam demitidos com a falência e foi cuidar dos animais, fez tudo direito como realmente gostava.

Otávia foi à fazenda ao lado. Évan a recebeu com beijo e abraço.

— Olá, quanto tempo, tudo bem? Meu pai precisou sair e eu nem acreditei que ia te encontrar.

Ela ficou muito surpresa.

— Oi, tudo e você? Nem sabia que tinha voltado, faz muitos anos que não nos vemos.

Ele foi indo para a varanda, a guiando com a mão nas costas.

— Tudo melhor agora, foi no seu casamento a última vez. Eu ia mesmo te procurar, pois fiquei muito confuso com algumas coisas. Sente-se aqui, quer beber alguma coisa? Pedi para arrumarem essa mesa com as coisas que gostava na época de escola.

Ela foi pegando um copo de suco, intrigada.

— Aiii, você não mudou nada. Por que ia me procurar?

Évan pegou uma pasta amarela com folhas de sulfite dentro.

— Achei que queria vender uma parte da fazenda para mim, foi o que o Matteo disse. Estávamos conversando nas últimas semanas e eu cheguei a fazer uma proposta.

Deu a pasta nas mãos dela.

— Pode olhar, tem sua assinatura até.

Otávia começou a ler, perplexa.

— Eu não sabia de nada, nós estamos nos separando. Não quero vender nada.

Évan ficou encarando fixamente, curioso.

— Foi o que eu ouvi falar e não entendi, porque você que sempre foi tão ativa, independente. Falaram que estava em casa sem nem conseguir levantar da cama. Quando eu quis ir vê-la, ele não deixou, começou a inventar desculpas. Então eu não fiz compra alguma.

Ela começou a chorar, sentida.

— Me desculpa, eu não aguento mais, eu não merecia isso.

Évan era um fã de Otávia desde a infância até a adolescência, nunca saiu da zona da amizade. Ela não o levava a sério na juventude e não gostava que ele fosse namorador. Ele não dizia, mas era um pouco preconceituoso e machista. Ele ficava com várias mulheres, mas só assumia as que fossem “padrão” e mais “certinhas”, como ela era. Ele a admirava de fato, até por ser um pouco carola, tudo nela ele gostava. Otávia nem achava que o interesse dele era tão genuíno ou algo para se levar a sério.

Évan a consolou, deu água, ficou sentado próximo, tentando entender o que tinha acontecido. Ela desabafou, confiando nele, contou tudo com detalhes. Ele, que era advogado, já estava dando assistência jurídica, se ofereceu para acompanhar o divórcio, sem custo, em nome da amizade do passado. Completamente vulnerável, ela foi aceitando tudo, nem se deu conta de que ele com certeza ia querer algo a mais, além da amizade.

Évan só estava de passagem, mas já resolveu ficar, só para investir nela e em suas terras. Fez algumas ligações, conseguiu compradores para dois dos cavalos e pegou um para presentear um sobrinho. Ele mesmo fez questão de cuidar da parte burocrática. Com aquele valor alto, ela ia poder arrumar algumas coisas mais importantes na fazenda e focar na colheita.

Passaram quase o dia todo juntos. Ele a levou para almoçar fora na cidade, passou no banco para se informar como renegociar os pagamentos dos empréstimos e fez tudo o que um bom amigo faria, a tranquilizando bastante.

Otávia voltou no final do dia para buscar os três cavalos, levou Évan e um funcionário dele. Miro já tinha colocado todos no estábulo, estava lá nas redes, deitado, e continuou, só observando a movimentação de longe. Logo foi para casa.

Amélia foi junto com Otávia para fazer companhia. Évan quem insistiu em não deixá-la andando sozinha e a evitando, ela convidou a empregada. Ficaram duas horas fora, conversaram sobre as tarefas fora de casa. Amélia contou que sabia tudo sobre lidar com as plantações e animais, porque também cresceu no sítio, e se ofereceu para ajudar mais lá fora, já que estavam com poucos funcionários e ela precisava muito do emprego. Deu a entender que não tinha família e sofria maus-tratos em casa, com um padrasto ruim envolvido, garantiu que era maior de idade e há dois anos morava sozinha se virando, inventou toda uma história triste e Otávia acreditou.

Quando chegaram, Amélia foi deitar e Otávia passou pela cozinha, pegou biscoitos e leite, foi para o quarto. Entrou no escuro, usando a luz do corredor. Estava distraída, colocou a bandeja em cima da cama e ia voltar para perto da porta, acender o interruptor de luz, quando foi surpreendida com um puxão no cabelo.

— Sua vadia, vim te dar o que merece.

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