Capítulo 2 A acusação
POV da Leila
O pronto-socorro fervilhava de atividade frenética quando Chloe foi trazida às pressas numa maca, com John e Susan vindo logo atrás, em pânico. Eu cheguei instantes depois, depois de seguir a ambulância com meu carro. Minha cabeça ainda girava com o que tinha acabado de acontecer — a queda calculada, as acusações, os suspiros horrorizados.
A equipe do hospital se mexia depressa em volta da Chloe, enquanto alguns parentes da família Reed, que tinham vindo da festa, se juntavam na área de espera. Todos os olhares se voltaram para mim, carregados de julgamento e acusação.
— Como você pôde fazer isso com ela? — a voz histérica de Susan cortou o barulho do hospital quando ela avançou na minha direção, só para ser contida por uma enfermeira. — Sua monstra! Depois de tudo o que fizemos por você!
— Eu não empurrei ela — eu disse, com a voz mais firme do que eu me sentia. — Ela se jogou da escada. Foi de propósito.
A equipe médica empurrou a maca da Chloe pelas portas duplas rumo à UTI, e John e Susan foram obrigados a ficar do lado de fora. Eu fiquei sozinha enquanto sussurros corriam entre os familiares reunidos.
— Eu vi ela empurrar a Chloe com meus próprios olhos — declarou Kate, prima dos Reed, em voz alta.
— Inveja pura — concordou a tia Patricia. — Ela não aguentou ver a verdadeira filha dos Reed tomando o lugar dela.
Minha avó, Doris Reed, deu um passo à frente, o rosto retorcido de raiva.
— Sua impostorzinha ingrata! Depois de tudo o que esta família fez por você! Você não passa de lixo, fingindo ser uma Reed!
— Chega, Doris — meu avô William interveio, colocando-se entre nós. — A Leila sempre teve um bom coração. Eu não consigo acreditar que ela machucaria alguém de propósito.
— Claro que você vai defender ela — minha avó cuspiu as palavras. — Você sempre teve uma quedinha por essa falsificada. Abra os olhos, William! Ela nem é do nosso sangue!
Eu recuei para um canto do corredor, sentindo o peso daqueles olhares condenatórios. John se aproximou, o rosto contorcido de ódio.
— Como você se atreve? — ele sibilou, baixo, venenoso. — Nós te criamos por mais de vinte anos, e é assim que você retribui?
— Pai, por favor, me escuta—
— Não me chame de pai! — a voz de John subiu de repente. — O teste de DNA provou tudo. Você não é uma Reed. Você não é nada pra nós.
Susan se juntou a ele, com o dedo perfeitamente feito apontando para o ar a centímetros do meu rosto.
— Eu sabia que você guardava ressentimento da Chloe desde o momento em que ela chegou! Você não suportou que ela fosse a nossa filha de verdade!
Os membros da família Reed se aglomeraram perto, e os comentários sussurrados chegavam claros aos meus ouvidos.
— Eu ouvi dizer que ela descobriu que não era filha biológica dos Reed e surtou — murmurou a prima Kate.
— A aliança de casamento entre os Sterling e os Reed talvez precise de uma nova noiva — respondeu a tia Patricia. — Ela deve ter ficado desesperada.
— Eu não empurrei ela — repeti, firme. — A gente estava conversando, e ela se jogou de propósito. Isso foi uma armadilha.
— Ainda está mentindo! — Susan cuspiu. — Todo mundo na festa viu o que aconteceu!
Na sala de espera, eu me sentei sozinha, isolada por dentro e por fora. Meus pensamentos foram até Theron e a nossa última conversa antes de ele sair para a viagem de negócios.
— Um mês e eu volto — ele tinha dito, com naturalidade. — Tente não arrumar confusão enquanto eu estiver fora, Leila.
Será que ele acreditaria em mim agora? Ou ficaria do lado das vozes unânimes que me acusavam?
John se aproximou de novo, olhando para mim com um desprezo gelado.
— Se prepare para enfrentar as consequências. Assim que o Theron voltar, eu vou contar tudo para ele.
Eu sustentei o olhar dele.
— Eu não fiz nada de errado. Vou esperar o Theron e explicar tudo eu mesma.
— Você acha que ele vai acreditar em você? — John riu, amargo. — Uma herdeira falsa contra o testemunho de todo mundo? Não se esqueça do que seu casamento realmente é — uma aliança entre famílias.
A verdade dolorosa me atingiu em cheio: nesse drama todo encenado, eu estava completamente sozinha.
Horas depois, um médico saiu da UTI, tirando a touca cirúrgica. “A srta. Reed está estável e consciente. Ela teve uma concussão leve, uma fratura no braço direito, mas nada que coloque a vida dela em risco.”
As pessoas reunidas soltaram o ar ao mesmo tempo. John e Susan se abraçaram, aliviados.
“Ela já pode receber visitas”, continuou o médico, “mas só poucas pessoas por vez. Ela precisa ficar calma.”
Os Reed se adiantaram imediatamente. Eu também me levantei.
“Eu preciso ver ela”, insisti. “Eu preciso perguntar direto pra ela o que aconteceu.”
John se virou para mim, com os olhos gelados. “Você já causou estrago demais. Fique longe dela até isso ser investigado direito.”
“A segurança vai garantir que você não chegue nem perto dela”, Susan acrescentou, venenosa.
Pela porta entreaberta do quarto da Chloe, eu a vi de relance deitada na cama, o cabelo dourado espalhado no travesseiro, o rosto pálido, mas sereno. John e Susan correram para o lado dela.
“Querida, como você está se sentindo?”, Susan acariciou o cabelo de Chloe com ternura.
“Eu tô bem”, Chloe respondeu, fraca. “Só dolorida... A Leila tá bem?”
Os Reed trocaram olhares surpresos.
“Chloe”, John começou, grave, “fala a verdade pra gente. A Leila te empurrou daquela escada?”
Chloe hesitou e então sussurrou: “Eu não quero complicar as coisas... Eu e a Leila só estávamos conversando, talvez eu tenha perdido o equilíbrio...”
“Chloe, você não precisa proteger ela!”, Susan exclamou. “Todo mundo viu o que aconteceu!”
“Mãe, a Leila provavelmente só estava nervosa... Eu não acho que ela tenha querido me machucar.”
A encenação de perdão de Chloe pareceu tocar Susan profundamente. “Você tem um coração tão bom. Muito mais do que ela jamais teve.”
“Isso é o verdadeiro espírito da família Reed”, John acrescentou, orgulhoso. “O Theron precisa conhecer o verdadeiro caráter da esposa dele. Nós vamos pedir formalmente o fim desse casamento.”
Susan assentiu. “Assim que eles se divorciarem, o Theron vai se casar com você. Esse casamento sempre foi pra ser seu.”
“Ah, não, mãe”, Chloe protestou, fraca. “Eu não ia querer acabar com o casamento de ninguém por minha causa...”
“Você é tão melhor do que ela”, Susan disse, admirada. “Eu não acredito que a gente não viu a diferença antes.”
John apertou a mão de Chloe. “Não se preocupa, meu amor. Vai dar tudo certo. A família Sterling precisa de alguém realmente nobre como você.”
Da minha posição perto da porta, eu ouvi cada palavra da conversa. Eu enxerguei através do teatro da Chloe — bancando a santa que perdoa enquanto incentivava a minha destruição. Meu coração doeu quando falaram em divórcio, em Theron se casar com Chloe no meu lugar.
Eu me lembrei da ameaça sussurrada por Chloe na escada: “Isso é só o começo...”
Quando os Reed saíram da UTI, me encontraram esperando no saguão.
“A família Sterling devia sentir vergonha de ter você como nora”, Susan sibilou.
John ajeitou a gravata. “Vamos pedir formalmente ao Theron que se divorcie de você. É melhor você sair por conta própria, com dignidade.”
Eu sustentei o olhar deles. “Vocês realmente acreditam nessa encenação da Chloe?”
“Como você se atreve a difamar ela?”, a voz de Susan se elevou. “Ela está ferida e, mesmo assim, ainda fala bem de você, e é assim que você retribui?”
“Eu vou esperar o Theron voltar e vou explicar tudo eu mesma”, respondi, calma. “Até lá, eu não vou sair da residência Sterling.”
“Acha que ele vai acreditar em você?”, John provocou. “Uma impostora, com origem duvidosa, contra o testemunho de todo mundo?”
“Eu confio que ele vai me dar uma chance justa”, eu disse, firme. “Não importa o quanto vocês tentem me difamar, a verdade uma hora aparece.”
A última frase de Susan veio fria como gelo: “Você vai se arrepender disso, Leila. Você não é mais uma Reed e, em breve, também não vai ser uma Sterling.”
