Capítulo 1 Capítulo 1
Parada diante do prédio imponente da Rurik Motors, Susan tentava ignorar a onda de ansiedade que a dominava. Respirou fundo e ajeitou os óculos no rosto antes de entrar no edifício.
A fachada espelhada refletia o céu acinzentado, dando um ar ainda mais austero à empresa que dominava o mercado automobilístico do país. Seus passos ecoaram no mármore polido enquanto se dirigia à recepção.
— Bom dia, tenho uma entrevista com o setor de publicidade. — Disse, tentando manter a voz firme.
A recepcionista, uma mulher loira de cabelos curtos, conferiu o nome na lista e assentiu.
— Quinto andar, senhorita Grigorieva. Sala de Recursos Humanos.
Susan agradeceu e seguiu para o elevador, observando o ambiente sofisticado ao seu redor. Cada detalhe demonstrava o poder da Rurik Motors, desde os uniformes impecáveis dos funcionários até o brilho dos carros expostos no saguão.
Enquanto caminhava, Susan apertou o casaco contra o corpo, mas não era o frio que a incomodava. Seu estômago estava um nó de nervosismo.
“Certo, Susan, respira. É só uma entrevista. Você já fez isso antes.”
Mas não, não era só uma entrevista. Era uma chance de mudar sua vida. De recomeçar. Agora que sua mãe descansava em paz, Susan podia, enfim, pensar em si. Era doloroso admitir, mas pela primeira vez em muito tempo, ela tinha espaço para respirar.
“Três anos... Três anos me equilibrando entre o trabalho e os hospitais. Entre manter a esperança e assistir a pessoa que mais amava definhar diante dos meus olhos.”
O aperto no peito veio de novo. Ela engoliu seco e ergueu o queixo, se recusando a ceder àquele peso.
“Eu fiz tudo o que podia. Mas e depois? O que sobrou de mim?”
Ela sabia a resposta. O vazio foi sufocante. Sem mais visitas ao hospital, sem mais madrugadas fingindo que tudo ficaria bem. Agora, ela precisava encontrar sentido.
Precisava de um novo começo. E essa entrevista podia ser sua chance.
No quinto andar, foi recebida por uma mulher alta e elegante, de cabelos negros presos em um coque rigoroso.
— Susan Grigorieva? — A voz da entrevistadora era profissional, sem qualquer traço de emoção.
— Sim, sou eu.
— Sou Elena Vasilievna, gerente de RH. Pode me acompanhar?
Susan seguiu Elena para uma sala ampla e bem iluminada, onde sentou-se diante da mesa polida. A mulher abriu um fichário, analisando seu currículo por alguns segundos antes de erguer os olhos para ela.
— Vejo que sua experiência anterior foi em uma empresa menor. Por que quer trabalhar na Rurik Motors?
Susan endireitou a postura, mantendo o tom seguro.
— Sempre admirei o trabalho da Rurik Motors no setor de publicidade. A forma como a marca se posiciona é forte, estratégica e marcante. Quero fazer parte disso e contribuir com minhas ideias.
Elena meneou a cabeça, mantendo a expressão neutra.
— Nos fale um pouco sobre suas experiências anteriores. Que tipo de campanhas você já desenvolveu?
— Na minha empresa anterior, trabalhei com campanhas de engajamento digital e fortalecimento de identidade visual. Participei ativamente da criação de estratégias para redes sociais, branding e lançamentos de novos produtos no mercado. Além disso, colaborei na análise de métricas e no direcionamento de conteúdo para diferentes públicos-alvo.
— Você já liderou alguma equipe ou projeto?
— Não como líder direta, mas fui responsável por coordenar algumas campanhas e auxiliar na divisão de tarefas dentro do setor de marketing.
Elena analisou-a por um momento antes de continuar.
— Interessante. E como lida com prazos curtos e ambientes de alta pressão?
— Sou organizada e trabalho bem sob pressão. Sei que um ambiente como este exige rapidez e eficiência, e estou pronta para o desafio.
— E se um cliente ou superior solicitar mudanças de última hora em uma campanha que já está praticamente finalizada? Como você lidaria com isso?
— Revisaria as mudanças solicitadas e avaliaria sua viabilidade dentro do prazo disponível. Se fossem alterações pequenas e possíveis de serem implementadas sem comprometer a qualidade, faria os ajustes rapidamente. Se fossem mudanças mais significativas, conversaria com a equipe e proporia soluções para otimizar o processo sem comprometer o resultado final.
Elena manteve a postura impecável, mas Susan percebeu um brilho de aprovação em seus olhos.
— Você prefere trabalhar sozinha ou em equipe?
— Gosto de trabalhar em equipe porque acredito que a troca de ideias e habilidades diferentes pode elevar a qualidade de qualquer projeto. Mas também sei ser independente e tomar iniciativa quando necessário.
— Se um colega estivesse sobrecarregado, você se ofereceria para ajudar, mesmo que isso significasse aumentar sua própria carga de trabalho?
— Sim, desde que eu conseguisse equilibrar minhas próprias responsabilidades sem comprometer a eficiência do trabalho.
Elena fechou o fichário, inclinando-se ligeiramente para frente.
— Certo. Uma última pergunta: o que você espera encontrar na Rurik Motors além de uma oportunidade de trabalho?
Susan respirou fundo antes de responder.
— Além do crescimento profissional, busco um ambiente onde possa aprender com os melhores e desenvolver minhas habilidades ao máximo. Quero contribuir para a empresa e, ao mesmo tempo, construir uma carreira sólida.
A gerente de RH avaliou-a por alguns segundos antes de dar um pequeno aceno de cabeça.
— Entendido. Avaliaremos seu perfil e entraremos em contato em breve.
A entrevista foi rápida e direta, mas intensa. Susan saiu da sala sentindo uma mistura de nervosismo e esperança.
Assim que saiu do prédio, o frio pareceu ainda mais intenso, mas ela não se importou. Precisava dividir essa experiência com suas amigas.
O pequeno apartamento que Susan dividia com Jennifer e Carla era simples, mas havia um calor ali que não se encontrava em lares luxuosos.
Quando Susan entrou no apartamento, foi recebida pelo cheiro reconfortante de café recém passado. Forte, do jeito que Jenn gostava.
— Como foi? — Carla mudou o foco, olhando para Susan assim que ela entrou na cozinha.
Ela hesitou por um segundo antes de responder. Tirou o casaco, pendurando-o com calma, como se adiar a resposta fosse ajudá-la a entender o que, de fato, sentira naquela entrevista.
— Não sei. Foi… Estranho. Rápido. A gerente de RH parecia uma parede. Não deixou escapar nada.
— Isso é bom. — Jenn disse, pegando um biscoito da lata em cima da pia. — Significa que você ainda está na disputa.
— Tomara. Eu… Realmente preciso desse emprego.
Carla se levantou e pousou uma das mãos no ombro dela. O toque era firme e cálido.
— Você vai conseguir, Su. Eu sinto isso.
Susan sorriu, agradecida. Queria acreditar, embora se sentisse receosa em relação ao lugar e os donos.
Mas, naquele momento, entre o café, os olhares cúmplices e o ruído abafado da cidade lá fora… Ela se permitiu respirar. Apenas um pouco. O suficiente para esquecer, por um instante, o peso das incertezas.
