Capítulo 3 Capítulo 3
— Merda... — Dmitry rosnou entre dentes.
Ele saiu da sala em passos largos, ignorando os olhares dos funcionários no corredor. Entrou no elevador, apertando o botão para o térreo com força desnecessária. O cheiro ainda estava lá, fraco, mas presente. Ele inspirava como se estivesse tentando absorvê-la para dentro de si.
Na garagem, abriu a porta do carro e ligou o motor como um autômato. Seus olhos azuis estavam mais claros, quase prateados, reflexo da inquietação da fera. O cheiro vinha em ondas, como se o guiasse, como se a própria cidade tivesse decidido traçar um caminho até ela.
Ele seguiu. Sem saber por quê. Apenas seguindo o chamado.
Cruzou sinais vermelhos que não viu, ultrapassou carros como se estivesse em transe. Até parar diante de um prédio modesto em uma região mais antiga da cidade. Não era o tipo de lugar onde ele costumava estar. Mas ali... Ali o cheiro era puro. Intenso.
Saiu do carro devagar, como se cada passo fosse pesado demais. O Lycan rugia de euforia, roçando contra os limites da carne.
"Ela tá aqui. Tão perto..."
Ele entrou no prédio como uma sombra, ignorando o porteiro, os olhares, as vozes. O elevador estava ocupado, ele subiu os degraus até o segundo andar. Parou diante de uma porta branca. Simples.
A fragrância era quase física naquele momento. Seu corpo inteiro reagia a ela. E pela primeira vez em anos, Dmitry sentiu algo que o assustava.
Vulnerabilidade.
Ali, parado diante daquela porta comum, o Alfa dos Rurik sentia-se à mercê de algo que não podia controlar. O Lycan não apenas queria, ele necessitava.
Dmitry encostou a mão na madeira da porta. Sentiu a vibração do interior. Risos. Passos. Três batimentos cardíacos. Mas um em especial...
Mais rápido. Mais doce. Mais familiar.
— Você... — Ele sussurrou, como se dissesse para si mesmo, como se a voz pudesse alcançá-la através das camadas de tempo, destino e madeira.
Seu peito subia e descia devagar. Ele queria recuar. Queria lutar contra o que sentia.
Mas não podia, porque agora ele sabia.
Ela era real.
E era dele.
O grande salão de reuniões da Rurik Motors exalava imponência. As janelas de vidro, que iam do chão ao teto, ofereciam uma vista privilegiada da cidade de Moscou, enquanto a mesa oval de madeira escura dominava o centro da sala. O couro preto das cadeiras, o brilho discreto dos metais e a ausência de qualquer excesso decorativo denunciavam o nível de exigência ali dentro.
Susan sentiu o peso do ambiente assim que cruzou a porta.
Respirou fundo, ajustou os óculos com um gesto discreto e apertou a prancheta contra o peito. Seu primeiro dia já começaria com uma reunião envolvendo as principais mentes da empresa. E Dmitry Rurik.
Ela nunca o havia visto pessoalmente, mas todos sabiam quem ele era. O homem por trás do império. Um nome que carregava autoridade e mistério com a mesma facilidade com que vestia seus ternos caros.
Caminhou até o lugar reservado a ela, ciente dos olhares que a seguiam. Estava acostumada à atenção – às vezes curiosa, às vezes julgadora. Mas naquela sala, esperava que olhassem além do corpo e enxergassem sua competência. Era isso que importava.
Poucos minutos depois, as portas duplas se abriram. E o ar mudou.
Dmitry entrou.
Era como se o ambiente se contraísse à sua volta, curvando-se à presença que dominava sem esforço. Alto, os ombros largos sustentando um terno escuro impecável, os cabelos brancos contrastando com a pele pálida e os olhos… os olhos eram uma sentença.
Azuis. Intensos. Penetrantes.
Susan prendeu a respiração sem perceber quando ele passou por trás de sua cadeira. O perfume amadeirado, envolvente e masculino, invadiu seu espaço, despertando algo que ela não soube nomear.
E então, ele a olhou.
Por um instante, apenas isso: olhos nos olhos.
Mas foi o suficiente.
Dmitry parou. O passo seguinte foi retardado por uma fração de segundo. Internamente, o Lycan estremeceu.
Aquele cheiro.
Doce e quente. Natural. Nenhum perfume conseguia mascarar. Era ela.
Seu olhar mergulhou nela como uma lâmina precisa, cortando a superfície e indo fundo — mais fundo do que devia. Observou os cabelos ruivos presos com precisão, as lentes dos óculos emoldurando os olhos verdes e atentos. As sardas suaves, a pele clara... E então, por um segundo, o olhar dele desceu, capturando as curvas delineadas sob o blazer justo.
A Fera se ergueu.
O Lycan, contido por anos de disciplina, de rituais de autocontrole, agora se debatia dentro dele. Como um animal acorrentado que, ao reconhecer o cheiro de sua fêmea, exige liberdade. Exige posse.
Dmitry desviou o olhar com esforço.
— Vamos começar. — Sua voz saiu grave, mais baixa do que o habitual.
A reunião teve início, mas ele não ouvia.
A voz do chefe de marketing se tornava um zumbido indistinto enquanto o cheiro dela preenchia seus sentidos, mais vívido a cada respiração. Era como se o mundo inteiro tivesse desaparecido, restando apenas ela naquela sala — e ele, lutando contra si mesmo.
“Ela é diferente.”
O Lycan sussurrava, rosnava, impaciente.
"Ela é nossa. Agora. Reclame-a."
Dmitry mantinha a mandíbula cerrada. Suas mãos estavam pousadas sobre a mesa, imóveis, mas seus sentidos estavam à flor da pele. A fera queria saltar. Queria tocá-la. Prová-la. Marcar cada pedaço daquela pele delicada com seus dentes, com sua essência.
"Não."
Mas era uma negação fraca. Instável.
Seus olhos se voltaram para ela novamente. Susan não percebeu de imediato, estava anotando algo, o cenho levemente franzido. E Dmitry a devorava com o olhar.
Curiosidade. Desejo. Instinto.
— Susan. — Sua voz cortou a sala como uma lâmina.
Ela ergueu o rosto, surpresa por ser chamada. O nome em sua boca soou pessoal demais. Íntimo.
— Sim, senhor?
Ele se inclinou levemente, sem tirar os olhos dela.
— Você trabalhou na Semyon Motors, correto?
— Sim. — Ela respondeu com firmeza, mesmo sentindo o coração disparar. — Fui assessora de publicidade por três anos.
Dmitry assentiu lentamente. O tom de voz era neutro, mas seus olhos… Seus olhos gritavam.
— E o que você acha da nossa abordagem de marketing?
A pergunta pegou a sala desprevenida. O chefe de marketing silenciou, sem saber se devia continuar. Mas Dmitry não lhe deu atenção. Toda sua energia estava voltada para Susan.
Ela umedeceu os lábios, consciente de cada olhar, mas ainda mais consciente daquele. O dele.
— A campanha foi bem executada, os números comprovam isso. — Começou com cautela. — Mas acredito que a comunicação visual poderia ser mais ousada. Especialmente nas redes sociais. O público mais jovem busca algo menos institucional, mais emocional.
Dmitry a ouviu em silêncio, cada palavra dela entrando como um comando direto em sua pele.
— Você acredita que devemos ser mais... Acessíveis?
— Acessíveis não é a palavra. — Ela manteve o olhar. — Mas autênticos. Uma marca forte precisa criar conexões emocionais. Não basta vender. É preciso fazer sentir.
O Lycan vibrou dentro dele.
"Ela entende. Ela vê além."
Por um instante, ele não era mais Dmitry, o CEO frio e calculista. Era apenas um predador enfeitiçado pelo cheiro da sua fêmea.
