Capítulo 1 - Mudanças violentas
Livro 2 / Por favor, leia primeiro o Livro 1, “The Prison Project” — espero que goste! :)
Ponto de vista de Margot
Tudo doía.
Minha cabeça pendia para a frente, o queixo quase encostando no peito, enquanto o caminhão sacudia violentamente sob mim, cada buraco na estrada enviando solavancos agudos pelo meu corpo já dolorido.
Meus pulsos ardiam.
Algemas de metal frio cravavam na minha pele, apertadas atrás das costas, tirando qualquer sensação de conforto ou equilíbrio. Eu nem conseguia me mexer direito sem sentir a tensão nos ombros.
Lágrimas escorriam em silêncio pelas minhas bochechas.
E eu nem me dava ao trabalho de enxugá-las.
Porque que porra de diferença isso fazia agora?
Ninguém se importava com o quanto isso era difícil para qualquer uma de nós...
Meu coração parecia ter se partido dentro do peito, enquanto minha mente repetia tudo o que tinha acabado de acontecer com a gente nas últimas vinte e quatro horas...
Quando descemos do barco, nos dividiram em caminhões grandes do exército, dez por caminhão.
Ficamos dirigindo por horas até um lugar desconhecido, até que, por fim, um soldado anunciou que tínhamos chegado à cidade...
Foi aí que começaram a descarregar cada uma de nós — uma por uma — até sobrar só eu e a Cara...
Todo mundo tinha sumido.
O caminhão deu mais um tranco, os pneus estalaram na brita, antes de parar devagar, rangendo, até ficar imóvel.
Era sempre a mesma rotina: andava alguns metros, parava, alguém era tirada, repetia...
Só que, dessa vez, seria a despedida mais difícil!
As portas pesadas de trás se abriram com um estrondo violento, e a luz do sol invadiu tudo de novo.
Claro demais lá fora.
Duro demais!
— Cara Owens! — ele gritou alto demais, como se a gente não estivesse sentada a poucos centímetros desses malditos soldados!
Apertei os olhos, o peito se contraindo com dor, antes de me virar para ver...
Ela se levantou trêmula ao meu lado, as mãos ainda algemadas como as minhas, o rosto pálido e apavorado quando dois soldados se inclinaram para dentro e a puxaram com brutalidade.
Ela soltou um gritinho, e eu imediatamente tentei me mexer.
Tentei levantar.
Tentei protestar.
Tentei ajudar...
— Não pega ela assim... — foi tudo o que eu consegui dizer.
Antes—
Craque!
A dor explodiu no meu rosto, minha cabeça virando de lado quando o golpe acertou em cheio meu olho — me jogando para trás no chão do caminhão — com os braços torcidos atrás das costas enquanto eu gritava alto...
— Aprende a ter um pouco de respeito, porra! — um dos soldados rosnou.
Por um instante, vi estrelas, piscando para entender.
E a Cara...
Deus... a Cara olhou para mim como se a culpa fosse toda dela.
— Me desculpa — Margot, me desculpa, me desculpa—
— Não é você — eu tentei dizer, com a voz grossa de choro. — Não é sua culpa...
Mas, a essa altura, eles já estavam arrastando ela para longe...
As portas bateram com força antes que eu conseguisse ver para onde ela foi, e o presente voltou com tudo quando o caminhão arrancou de novo, me fazendo rolar.
Eu me apoiei, as costas contra a base do banco em que eu tinha sentado antes...
Agora era só eu.
Completamente sozinha.
Meu olho latejava violentamente, inchado e pulsando a cada batida do meu coração, enquanto minha cabeça girava tentando processar que eu tinha acabado de levar um soco.
Meu corpo parecia pesado.
Exausto.
Esgotado.
Mas agora... entorpecido.
A gente tinha dirigido por horas hoje — horas intermináveis.
Algumas das meninas até tinham adormecido no caminho... encolhidas de um jeito estranho contra as paredes de metal, cansadas demais para continuar resistindo.
Mas eu não conseguia dormir.
Nem por um segundo.
Porque toda vez que eu fechava os olhos, eu só via ele.
Coban.
O jeito como ele olhou para mim naquela manhã.
O jeito como ele tentou me alcançar.
O jeito como me arrancaram dele como se eu não significasse nada. O jeito como eu não sabia que aquela seria a última vez que eu o veria...
Meu peito se apertou com força.
Para.
Não pensa nisso.
Não.
O caminhão diminuiu de novo segundos depois.
Parando pela última vez...
Minha respiração travou na garganta quando as portas se escancararam outra vez — a luz se derramando para dentro.
— Margot Belle! — uma voz latiu, e eu me encolhi ao ver os dois novos soldados. — Para fora. Agora.
Os dois ficaram ali, vasculhando o caminhão vazio com os olhos até que eles pousaram em mim — um monte encolhido no canto.
Claro que eu tinha que ser a última!
Eu me empurrei para cima devagar, as pernas fracas, o equilíbrio ruim sem ter as mãos livres para me firmar.
Meu ombro latejou com o movimento e, quando tentei dar um passo à frente, tropecei, até que uma mão se lançou, agarrando meu braço com brutalidade para me manter de pé.
— Anda. — ele sibilou, enquanto eu descia do caminhão, meus pés tocando o chão firme e uma onda de tontura me invadindo.
Uma sensação de formigamento atravessou minhas pernas enquanto eu piscava rápido, o rosto molhado de lágrimas, tentando focar com meu único olho bom.
E então...
Eu vi.
A cidade.
Minha respiração falhou.
Estava... errada?
Era a única forma de descrever.
Perfeita demais...
Fileiras de casas arrumadinhas se estendiam em todas as direções, pintadas em cores suaves, pastéis — azuis claros, rosas, amarelos delicados — todas alinhadas com uma precisão antinatural.
A grama aparada.
As ruas impecáveis.
Flores por toda parte.
Tudo parecia... encenado?
Como um cenário de filme.
Minha mente se atrapalhou procurando a lembrança daquele filme...
As Esposas de Stepford! Isso!
A mesma perfeição estranha, artificial...
A mesma quietude inquietante...
Meu estômago revirou.
Aquilo não era uma cidade.
Era uma maldita jaula pra gente!
Só que enfeitada de um jeito mais bonito, como disfarce...
O primeiro soldado se colocou ao meu lado, a mão ainda firme no meu braço enquanto me guiava — não, me empurrava — para a frente.
Paramos diante de uma das casas.
Porta azul-clara.
Claro...
Parecia bonitinha.
Outra mentira.
— Há câmeras posicionadas ao redor do perímetro — ele recitou sem emoção, como se já tivesse dito aquilo umas cem vezes só hoje. — Vamos saber se você tentar sair e você será punida de acordo.
Eu não respondi.
Não confiava na minha voz.
— Esta é sua. Você vai permanecer dentro — ele continuou. — Se familiarize. Fique confortável.
Confortável?!
Uma risada oca quase escapou de mim...
— Assim que todos os participantes estiverem alojados, alguém virá instruí-los sobre a próxima fase.
Participantes...
Não prisioneiros.
Não cativos.
Nós éramos participantes de novo?
Eu assenti devagar.
Que escolha eu tinha?
— Bom — ele disse, curto, finalmente soltando meu braço enquanto se movia para destrancar as algemas desnecessárias em que todos nós fomos colocados.
— Vai — ele apontou com a cabeça para a porta. — Tudo de que você precisa está lá dentro.
Tudo de que eu preciso...
Meu peito se apertou, dolorido.
Não.
Tudo de que eu precisava... estava lá atrás.
Naquela prisão.
Com ele...
Eu me virei para a casa devagar, o olhar demorando na porta azul-clara.
Em qualquer outra vida... eu poderia ter achado aquela casinha linda.
Perfeita, até...
Mas agora?
Parecia entrar direto num pesadelo.
Um pesadelo controlado.
Projetado.
Uma prisão disfarçada de liberdade.
Meus pulsos latejavam quando eu os puxei para a frente, meu olho pulsando de dor... mas, pior do que tudo...
Meu coração era o que mais doía.
Porque eu o tinha perdido.
Para sempre.
